fevereiro 18, 2005

UM ÉDIPO ("UMA SEMANA NO TEATRO"- 3)

Deixo-vos um excerto de "Um Édipo", peça da autoria de Armando Nascimento Rosa. Um excerto... um pequeno texto... para vos sensibilizar para esta obra do autor: dramaturgo, ensaista e autor musical, em traços gerais.
Nascimento Rosa é doutorado em Literatura Portuguesa Dramática (Século xx), sendo professor nas áreas da Teoria e Estética, Dramaturgia e Escrita Teatral, tendo já um importante currículo ao nível da escrita de peças. Regista-se aqui: "Goiânia- Uma nova caixa de Pandora", "Lianor no país sem pilhas", "Audição- Com Daisy ao vivo no odre marítimo". Divulgou, ainda, em leituras dramatizadas, "Nória e Prometeu- Palavras do fogo" e "Espera apócrifa".
A peça que aqui destaco- "Um Édipo"- estreou em Lisboa, no Teatro da Comuna, em 4 de Julho de 2003.
Quanto ao seu excerto: representativo de uma abordagem à tão significativa e conhecida tragédia de Sófocles. Ei-lo:

Tirésias, o velho xamã cego, é visitado por Jocasta, que recusa dar-se por morta.
(...)

JOCASTA: Também eu não me devia ter separado do meu Édipo em criança. Voltei a juntar-me a ele em adulto sem sabê-lo. E o nosso edílio foi o castigo de o ter enviado para a morte.

TIRÉSIAS: Agora tu estás a falsear a história do teu drama...

JOCASTA: Antes assim fosse, meu amigo. A desgraça de saber roubou-me a harmonia. Era feliz na inconsciência. Pudesse eu voltar atrás e já não posso. Diria adeus ao trono. Fugiria com Édipo e a terra do exílio havia de ser longínqua, pra que jamais voz alguma gritasse que somos mãe e filho a partilhar o tálamo.

TIRÉSIAS: Mas a voz dentro de ti nunca se calaria aonde quer que fosses, e em vão buscarias nas drogas dos físicos o repouso do sono.

JOCASTA: Não sei, Tirésias. Depois de me enforcar, extinguiu-se a agonia e a culpa. Como quando se sai vivo de uma peste mortal, olhamos as coisas com um deslumbramento virgem. Tudo me parece agora tão simples. Os homens amam as mulheres porque desejam mergulhar de novo no mar das delícias que os trouxe para o mundo. Mesmo que as sintam suas filhas, elas são extensões vivas de si próprios e por isso mães na mesma, promessas de futuro. As mulheres jogam o mesmo jogo e no corpo do amante juntam o pai e o filho imaginado. O amor é um incesto universal. Não valia a pena ter-me enforcado por uma causa tão vulgar como esta.

TIRÉSIAS: Mentes a ti mesma, Jocasta. Mas se a mentira te é útil, usa-a como unguento para as tuas feridas. Foram outros os amores malditos que fizeram a perdição da tua casa. Tu bem o sabes...

JOCASTA: Fala-me agora deles, Tirésias. É a tua vez de cuidares de mim com o verbo da memória.

TIRÉSIAS: As pessoas tagarelam dias a fio sobre o teu romance com Édipo. Identificam-se convosco como se estivessem no teatro. Hão-de fazer do vosso incesto o mito de eros mais famoso da História. Muitas actrizes viverão na cena o teu papel; muitos actores hão-de esmagar morangos sobre os olhos pra fingirem o suplício desse marido que tu deste à luz. Até quando os velhos deuses se apagarem dos altares, o vosso amor continuará a inquietar o coração dos mortais.

JOCASTA: Será preciso sofrer tanto para ganhar a eternidade?

TIRÉSIAS: Sê bem vindo, ó Édipo! Tu, que quiseste ser como eu sou. Desejo doido o teu, meu amigo. A cegueira não é prémio cobiçável. (Tirésias saúda Édipo com um abraço. Jocasta ronda-os, como se desejasse abraçá-lo também. Tirésias faz sinal a Jocasta e fala apenas para ela.) Podes abraçá-lo, Jocasta. Ele não sente a miragem do teu corpo

ÉDIPO: Com quem falavas, Tirésias? Há mais alguém connosco além da tua filha? (Jocasta abraça o tronco de Édipo sem que este dê o menor sinal de a sentir enovelada nele.)

TIRÉSIAS: Não Édipo, estamos sozinhos. Um cego diante de um outro cego.

ÉDIPO: Preciso que me oiças, Tirésias. Tu és o médico das almas. E foi a minha alma doente que lançou a peste sobre Tebas. Por isso mutilei os olhos. Deixei de ver o cenário do corpo pra dar atenção ao meu vazio interior.

TIRÉSIAS: Exageras como sempre. Os mortais como tu acabam em personagens de tragédia.

(...)

ÉDIPO: (...) Que animais nós somos, Tirésias, por ficarmos satisfeitos com a morte dos outros? A alegria de sabermos que a desgraça bateu à porta do vizinho e ignorou a nossa casa. Matei um homem que me pertencia mais do que o punhal que trago na cintura. E a imagem do seu rosto golpeado deve ser parecida com aquela que o espelho mostra agora de mim. Quando matamos alguém, matamo-nos também com ele. Era o que o meu pai Pólibo me dizia em criança, ao ver o gozo bravio com que eu empalava lagartos num atiçador de lume. Eu achava que não. Matar para viver é um dever da vida, respondia-lhe. Hoje sei que a vida calça coturnos e vai tirando e pondo as suas duas máscaras. A máscara da comédia e a máscara da tragédia. Às vezes as duas ao mesmo tempo, uma na cara outra na nuca. Mas detrás da máscara só vejo o vazio. Por baixo das vestes, apenas um cabide. A vida é a máscara da morte.

TIRÉSIAS: E a morte a máscara da vida.

(...)


(Armando Nascimento Rosa- UM ÉDIPO. Fotografias de Naushér Benaji)


Com este post dou por encerrada mais uma semana de teatro. Semana que deu sequência a outra, assinalando a excelente receptividade por parte de todos vós, à edição por mim feita de textos dramáticos. Voltarei com mais autores e mais peças no próximo mês. Voltarei para continuar a consolidar esta vertente de trabalho desenvolvida aqui no Abismo, fazendo juz a textos e a representações cujas mensagens não devem ser por nós desconsideradas (no sentido de não conhecidas) ou não acedidas de forma o mais ampla possível. E isso, pela sua qualidade e pelo que nos podem fazer pensar ou ensinar.
Até Março, então!

Publicado por void em fevereiro 18, 2005 09:28 PM
Comentários

Lembro-me de ter estudado isso tudo na faculdade. Já me tinha esquecido de algumas coisas. Jinho, BShell

Afixado por: blueshell em fevereiro 19, 2005 01:00 AM

Oi Sandra! É engraçado ter visto aqui UM ÉDIPO, porque o autor é meu professor de teorias da arte teatral. :D Achei curioso, porque tenho uma relação muito aberta com ele, e também estamos a estudar tudo isso... Nunca tinha assistido nem lido a UM ÉDIPO, se bem que conhecia a história, mas remeto-te para tentares arranjar uma das melhores peças do Armando, que esteve recentemente no Fontenova, AUDIÇÃO COM DAISY AO VIVO NO ODRE MARÍTIMO, um actor chega a um palco para efectuar uma audição, que vira publicitada num jornal. O estranho é ninguém mais ter comparecido naquele Teatro, nem júri para avaliar, nem colegas candidatos. Mas ele não desiste e apresentará na solidão da cena a ficção pessoana que trouxe preparada. Aconselho mesmo!

E, já agora, obrigado pelo comment na parabolica! :P tenho tido um pouco de trabalho e não tenho vindo frequentemente visitar o void, mas já vi que há muito para ler, a FIDELIDADE e o retorno à HOMOSSEXUALIDADE NA LITERATURA.

Vou ficar aqui por um bocado a ler tudo isso!

Beijinho!

NN

Afixado por: NN em fevereiro 24, 2005 10:02 AM