Um dos grandes nomes da Tragédia grega é, inequivocamente, Sófocles.Tendo vivido entre (ou cerca de) 496 a.c e 405 a.c, uma das suas grandes peças foi "Édipo Rei", cujo excerto hoje aqui trago.
Estamos, com esta peça, face a uma grande estória... face a um grande drama... que é (são) aquele(s) relativo(s) a um indivíduo que assassina o pai, casa e tem filhos com/da mãe. Édipo, Laio e Jocasta são os protagonistas de um destino ao qual sempre procuraram fugir. Mas este estava marcado. Os oráculos tinham falado. Tudo estava traçado. Perante isto, qual a força dos homens? Qual a possibilidade de fuga destas três personagens? A(s) fuga(s) não é (são) de todo conseguida(s). E a catástrofe dá-se quando Édipo e Jocasta (então rei e rainha de Tebas) se confrontam com a realidade. Ela enforca-se. Ele auto-pune-se vazando os olhos e partindo para o exilio.
Mas... passemos para um excerto desta fantástica peça:

ÉDIPO (surgindo à entrada do palácio e dirigindo-se à multidão aterrorizada pela peste que grassa na cidade)
Ó meus filhos, ó novos descendentes do antigo Cadmo, por que razão estais assim, diante de mim, com esses ramos de suplicante? Toda a cidade está cheia de incenso, toda a cidade está cheia de trenos e de lamentações! E achei, meus filhos, que não deviam ser outros a informar-me, que devia vir eu mesmo, eu, Édipo célebre entre todos os homens. Vamos, fala tu, ó velho, porque é conveniente que fales tu em nome deles. Que há então? Que esperança e que receio vos trouxe aqui? Estais seguros de que vos hei-de socorrer; seria um homem sem piedade se me não comovesse com essa vossa atitude.
(...)
ÉDIPO
(...)
Senhor meu parente, filho de Meneceu, que resposta do deus nos trazes tu?
CREONTE
Uma excelente resposta. Há coisas decerto bem difíceis de fazer; mas acho que são boas, se forem bons os resultados.
ÉDIPO
Qual é o oráculo? É que as tuas palavras não nos dão nem confiança nem receio.
CREONTE
Se quiseres que eles ouçam, estou pronto a falar; se não quiseres, entremos no palácio.
ÉDIPO
Fala diante de todos. Mais me preocupam os seus males do que os temores da minha vida.
CREONTE
Direi, pois, o que me disse o deus. Ordena-nos Apolo que apaguemos a mancha que alastrou na nossa terra, que a façamos desaparecer, em lugar de a deixarmos aumentar; devemos recear que se torne inexpiável.
ÉDIPO
E de que espécie é esse mal? Que expiação?...
CREONTE
Expulsando um homem dos nossos territórios ou vingando o crime com o crime, porque é um crime que está arruinando a cidade.
ÉDIPO
Contra que homem foi cometido o crime de que fala o oráculo?
CREONTE
Senhor, foi contra Laio, outrora rei da nossa terra, antes de seres tu o chefe da cidade.
ÉDIPO
Já ouvi falar disso; eu nunca o vi.
CREONTE
O oráculo ordena claramente que sejam castigados os que assassinaram esse homem.
ÉDIPO
Em que terra estão? Como se há-de encontrar qualquer vestígio desse crime tão antigo?
CREONTE
Diz o oráculo que há vestígios na cidade. Só se encontra o que se busca; o que nos é indiferente, de nós foge.
(...)
(Conduzido por uma criança surge Tirésias, velho, cansado e cego.)
ÉDIPO
Ó Tirésias, tu que compreendes todas as coisas, as lícitas e as ilícitas, as do céu e as da terra, bem sabes, embora privado da luz dos olhos, de que mal sofre a cidade; e só a ti encontrámos para nos proteger e nos salvar. Com efeito, Febo - e já talvez estes to tivessem dito- respondeu aos nossos enviados que a única maneira de nos livrarmos da doença era matar os assassinos de Laio ou exilá-los da cidade. Não nos recuses os augúrios das aves nem as outras adivinhações; salva a cidade, salva-te a ti próprio e a mim; lava esta impureza que ficou pela morte do homem que mataram. De ti depende a nossa salvação; não há tarefa mais gloriosa para um homem do que pôr a sua ciência e o seu poder ao serviço dos outros homens.
TIRÉSIAS
Ai de mim! Como é terrível saber, quando o saber é inútil. Tudo sabia, e tudo esqueci; de outro modo, não teria vindo.
ÉDIPO
Que é isso? Pareces-me cheio de tristeza.
TIRÉSIAS
Manda-me voltar para casa. Se me obedeceres melhor será, para ti e para mim.
ÉDIPO
O que dizes não é justo, nem bom para a cidade que te sustentou, se recusares revelar o que sabes.
TIRÉSIAS
Sei que estás a falar contra ti próprio, e temo o mesmo perigo para mim.
ÉDIPO
Em nome dos deuses! Não me escondas o que sabes. Todos nós nos prosternamos diante de ti e te suplicamos...
TIRÉSIAS
Estais todos loucos. Não, não provocarei a minha desgraça, e a tua.
ÉDIPO
Que dizes? Sabes tudo e não queres falar? Tens então o intuíto de nos trair e de perder a cidade?
TIRÉSIAS
Nem a ti nem a mim eu quero esmagar de dor. É em vão que me interrogas. De mim nada saberás.
ÉDIPO
Nada, miserável, nada! Serias bem capaz de enfurecer um coração de pedra. Não há em ti senão dureza e inflexibilidade.
TIRÉSIAS
Lanças-me em rosto a cólera que excito, mas ignoras a que hás-de excitar nos outros. E ainda me censuras!
ÉDIPO
Quem não há-de irritar-se ao ouvir-te proferir as palavras que só exprimem deprezo pela cidade?
TIRÉSIAS
Tudo o que tem de suceder sucederá, apesar do meu silêncio.
ÉDIPO
Pois se tem de suceder bem mo poderias revelar.
TIRÉSIAS
Nada mais direi. Podes, se quiseres, abandonar-te à mais violenta das cóleras.
(...)
JOCASTA
Pelos deuses, Senhor! Dize-me a causa da tua cólera violenta.
ÉDIPO
Vou falar, mais para ti que para eles. Creonte concebeu maus desígnios para mim.
JOCASTA
Fala então e vê se podes provar, explicando a questão, que acusaste Creonte com justiça.
ÉDIPO
Afirmou que fui eu o assassino de Laio.
JOCASTA
E sabe-o por si ou ouviu-o a outrem?
ÉDIPO
Enviou um miserável adivinho que diz de mim todo o mal que pode.
JOCASTA
Não fales mais de tudo isso que se diz. Escuta as minhas palavras e fica sabendo que a ciência dos adivinhos nada pode prever das coisas humanas; vou provar-to em breves palavras. Outrora um oráculo revelou a Laio, não pelo próprio Febo mas pelos seus sacerdotes, que estava no seu destino ser morto por um filho que de mim nasceria; e, no entanto, foram ladrões doutras terras quem o matou numa encruzilhada. Quanto à criança, assim que fez três dias, mandou-a ele pôr, com os pés atados, numa serra deserta. Apolo não conseguiu que fosse o filho o assassino do pai nem que Laio sofresse do filho o que dele temia.
Eis como se cumprem os vaticínios fatídicos. Não te importes. O deus descobrirá facilmente o que pretende saber.
(...)
CORO
Vêde vós, ó habitantes de Tebas, minha pátria! Que tempestade de terríveis desgraças derrubou o Édipo que adivinhou o enigma célebre, o homem poderosíssimo que nunca invejou os cidadãos, nem tinha receio da sorte! Enquanto se espera o dia último, ninguém deve dizer que um mortal foi feliz, antes que ele tenha, sem sofrimento, atingido o termo da existência.
(Sófocles- ÉDIPO REI. Fotografia de Naushér Benaji)
"Depois de me enforcar, extinguiu-se a agonia e a culpa." antes assim fosse mas "Enquanto se espera o dia último, ninguém deve dizer que um mortal foi feliz, antes que ele tenha, sem sofrimento, atingido o termo da existência". felicidade e morte separai-vos ou levai-me, não importa se com ou sem salvação.
Afixado por: em fevereiro 18, 2005 11:38 PMeste livro e perfeito