Jean Racine, dramaturgo francês do século XVII (1639-1699) foi um dos autores que recuperou a peça de Eurípedes (assim como Séneca e Sarah Kane). Foi esta, aliás, a sua peça mais representada na Corte de Luís XIV, mas também nos nossos dias. A tal peça em que uma mulher se apaixona pelo filho do marido, trazendo-lhe isso grande instabilidade emocional, em particular, pelo sentimento de culpa, pela ideia de amar em anormalidade, "contra a natureza".
Um drama com grande intensidade... com uma intensidade psicológica indiscutível e causadora de incomodidade para quem o lê ou a si assiste. Sim, porque o amor em causa, é provocador de sofrimento, afastamentos, mortes... infortúnios. Estamos, inequivocamente, perante destinos trágicos.
Atentem, então, na versão de Racine com o excerto da obra em que (tal como no post anterior) Fedra declara o seu amor a Hipólito:

PERSONAGENS:
Fedra, Hipólito, Enone (Ama de Fedra)
FEDRA, para Enone
Ei-lo: ao coração me acode o sangue todo.
Ao vê-lo, já não sei o que venho dizer-lhe.
ENONE
Não esqueçais vosso filho: ele só conta convosco.
FEDRA
Dizem que ireis partir, em breve, para longe,
Senhor. Às vossas dores eu junto as minhas lágrimas.
Venho aqui por um filho explicar-vos meus cuidados.
Um filho já sem pai; não tardará o dia
Em que seja, da morte da mãe, testemunha.
Já inimigos, mil, atacam sua infância.
Defendê-lo, só vós, só vós podeis, Senhor.
Mas secreto remorço o espírito me turva.
Receio ter-vos feito surdo aos meus lamentos.
Temo e tremo, sim, que a vossa justa cólera
Nele persiga depois sua mãe detestável.
HIPÓLITO
Senhora, não terei sentimentos tão baixos.
FEDRA
Se me odiásseis, Senhor, não me lamentaria.
Empenhada em fazer-vos mal sempre me vistes;
Não podeis ler no fundo do meu coração.
Cultivei com afinco a vossa inimizade.
Nas margens que habitava, não vos consenti.
Contra vós declarada, em público e em segredo,
Eu quis que o largo mar me afastasse de vós.
Cheguei a proibir, por uma lei bem expressa,
Que diante de mim dissessem vosso nome.
Mas, se se comparar a ofensa ao castigo,
Se só o ódio pode atrair vosso ódio,
Nunca uma mulher foi mais digna de piedade,
Senhor, e menos digna da vossa aversão.
HIPÓLITO
Dos direitos dos filhos uma mãe ciumenta
Raramente perdoa ao filho d'outra esposa;
Senhora, sei-o bem; importunas suspeitas
São das segundas núpcias os frutos mais comuns.
Mesma desconfiança outra qualquer teria,
E eu talvez piores ultrajes suportasse.
FEDRA
Ah! Senhor!, mas o céu, ouso aqui afirmá-lo,
Não quis que o meu destino a lei comum seguisse!
Cuidado bem dif'rente me turva e devora.
HIPÓLITO
Não vos deixeis, Senhora, turvar por enquanto.
Talvez o vosso esposo ainda esteja vivo;
O céu pode trazê-lo às nossas tristes lágrimas.
Protege-o Deus Neptuno; este Deus tutelar
Jamais será, por meu pai, implorado em vão.
FEDRA
Não se vê duas vezes a morada dos mortos,
Senhor. Esperais debalde que um Deus o devolva:
Esse avaro Caronte nunca solta a presa.
Mas que digo? Ele não morreu: respira em vós.
Sempre perante os olhos julgo ver meu esposo.
Eu vejo-o e falo-lhe; e o meu coração... Perco-me,
Senhor; meu louco ardor, a meu pesar, declaro.
HIPÓLITO
Do vosso amor eu vejo o assombroso efeito.
Teseu, embora morto, em vossos olhos vive;
Sempre, por seu amor, vossa alma inflamada...
FEDRA
(...)
Eu quereria à vossa frente caminhar.
Fedra, descida ao labirinto só convosco,
Só seria convosco encontrada ou perdida.
HIPÓLITO
Deuses! mas que oiço eu? Senhora, já esqueceis
Que Teseu é meu pai e que é o vosso esposo?
FEDRA
Por que supondes vós que perdi a memória?
Acaso, príncipe, deixei de ser quem sou?
HIPÓLITO
Senhora, perdoai-me. Confesso, corando,
Que ofendi sem razão inocentes palavras.
Minha vergonha não suporta o vossa olhar;
Senhora, eu vou...
FEDRA
Cruel! Ah! Tu bem me entendeste.
Falei bastante claro p'ra que duvidasses;
Ah! Vais conhecer Fedra em todo o seu furor:
Amo. Amo-te. Não penses que neste instante,
Inocente a meus olhos, me aprovo a mim mesma,
Nem que do louco amor que me turva a razão
Cobarde complacência nutra o seu veneno.
Objecto de infortúnio das iras celestes,
Abomino-me mais do que tu me detestas.
As minhas testemunhas são Deuses, os Deuses
Que acenderam em mim fogo fatal à estirpe.
Os Deuses que se gabam da cruel vitória
Sobre este coração duma frágil mortal.
Em espírito, tu próprio, recorda o passado.
Não chegava fugir de ti; cruel, expulsei-te.
Eu quis que me julgasses odiosa, inumana;
E, p'ra te resistir, teu ódio provoquei.
Afinal, que lucrei, com inúteis cuidados?
Tu odiavas-me mais, eu não te amava menos.
Infortúnio de novos encantos te vestia.
Enlanguesci, sequei nos fogos e nas lágrimas.
E, p'ra que o saibas, só precisas dos teus olhos,
Se um momento os teus olhos me pudessem ver.
Que digo? A confissão que acabo de fazer-te,
Indigna confissão, julga-la voluntária?
(...)
Olha o meu coração: fere-o com tuas mãos.
Impaciente já de expiar sua ofensa,
Sinto que sai do peito, ansioso desse gesto.
Vé, fere. Mas, se o julgas indigno dos teus golpes,
Se teu ódio me inveja um suplício tão doce,
Se de sangue tão vil não te quiseres manchar,
À falta do teu braço, dá-me a tua espada.
Dá-ma.
ENONE
Mas, que fazeis, Senhora? Justos Deuses!
Vem gente: evitai odiosas testemunhas;
Vinde, vinde, fugi duma vergonha certa.
(Racine- FEDRA. Fotografias de China Hamilton)
A peça recuperada por Sarah Kane, foi representada na minha cidade à pouco tempo atrás. Infelizmente perdia-a.
É facto uma história intensa, forte. Quanto ao amor (vivido na peça) não me atreverei a comentar.
Agredeço-te a atenção com que me tens seguido, foi um prazer ler este post, assim como é um prazer ler os teus comentários.
Beijo
Susana
Afixado por: susana em fevereiro 18, 2005 11:20 AMVou acompanhando amiude, embora não comente.
O único comentário válido, será o de te congratular, pelo excelente trabalho.
Afixado por: carlos em fevereiro 18, 2005 05:20 PMExcelente trabalho! Parabéns!!!
Gostava de te convidar a veres "Ser e Não Ser" ou "Estórias da História do Teatro". É uma longa peça que talvez te interesse.
contacta-me.
Afixado por: Pedro em fevereiro 21, 2005 12:09 PMOlá, estou à procura do texto completo de Fedra em português. Moro na França e não consigo encontrar nas livrarias. É para uma adaptação na universidade. Será que tu a terias em teu computador? Poderias enviar-me por mail?
Eu ficaria imensamente agradecido.