Lúcio Aneu Séneca nasceu no século I d.c, por volta do ano 4, em Córdova, na Bética, província da Hispânia, do Império Romano.
Na área da dramaturgia, conhecem-se sete tragédias por si escritas: "Hércules [Enlouquecido]", "Troianas", "Medeia", "Fedra", "Édipo", "Agamémnon" e "Tiestes".
O excerto que se segue foi extraído da peça "Fedra", cuja primeira autoria se deve a Eurípedes, mas recuperada por este e outros autores, ao longo dos séculos.
Passemos a ele:

FEDRA
Quem é que de novo me entrega à dor e de novo me instala na alma um fogo ardente? Como foi agradável ter perdido os sentidos!
HIPÓLITO
Porque foges do doce regresso à vida?
FEDRA (À parte.)
Coragem, alma, tenta, cumpre as tuas ordens.
Sejam destemidas e firmes as palavras. Quem pede com timidez
convida à recusa. Grande parte do meu erro
foi cometido há muito tempo; é tarde para eu ter vergonha.
Amei contra as leis da natureza. Se continuar o que comecei,
talvez possa esconder o crime por detrás do facho nupcial.
O sucesso torna certos erros honestos.
Vamos, começa, alma!
(Para Hipólito) Suplico-te que me concedas um pouco de atenção
em privado. Se tens aqui algum companheiro, manda-o embora.
HIPÓLITO (Apontando em volta.)
Vê, o lugar está livre de qualquer testemunha.
FEDRA
No entanto, os meus lábios negam passagem às palavras começadas.
Uma grande força impele-me a falar e uma maior detém-me.
Habitantes celestes, tomo-vos como testemunhas de que não quero
isto que quero.
HIPÓLITO
A tua alma deseja algo e não consegue revelá-lo?
FEDRA
Os cuidados ligeiros falam, os pesados emudecem estupefactos.
HIPÓLITO
Confia-me os teus cuidados, mãe.
FEDRA
A palavra mãe é demasiado altaneira e poderosa.
Uma palavra mais humilde coaduna-se melhor com os meus sentimentos.
Chama-me irmã ou escrava, Hipólito,
escrava de preferência: suportarei toda a escravidão.
Se me ordenares que caminhe pela neve profunda,
não me molestará avançar pelo cume gelado do Pindo.
Se me ordenares que ande no meio de fogos e de batalhões encarniçados,
não hesitarei em oferecer o meu peito às espadas desembainhadas.
Recebe o cepto que me foi entregue; aceita-me como tua escrava.
[A ti fica-te bem governar o reino, a mim cumprir ordens.]
Não é tarefa de mulher velar por cidades reais.
Tu, em pleno vigor da juventude,
governa firme os cidadãos com a autoridade régia de teu pai
e acolhe nos braços a tua suplicante e a tua escrava.
Compadece-te de uma viúva.
HIPÓLITO
O supremo deus afaste este presságio!
O meu pai em breve regressará a casa são e salvo.
FEDRA
O senhor do reino sem regresso e do Estige silencioso
não construiu caminho para o mundo dos vivos, depois de ele ter sido deixado para trás.
Libertará ele o raptor do seu leito?
Poderá acontecer que até Plutão se sinta favorável ao amor.
HIPÓLITO
Os justos deuses celestes trá-lo-ão de volta.
Mas, enquanto a divindade mantiver os nossos votos na incerteza,
cuidarei dos meus queridos irmãos com a dedicação devida
e farei que não te sintas desamparada.
Eu próprio preencherei para ti o lugar de meu pai.
FEDRA (À parte.)
Ó crédula esperança dos amantes, ó Amor falacioso!
Não disse eu o suficiente? Vou aproximar-me com súplicas.
(Dirigindo-se a Hipólito.)
Compadece-te, escuta as súplicas que o meu coração cala.
Desejo falar-te, mas tenho vergonha.
HIPÓLITO
Que perturbação é essa?
FEDRA
Uma perturbação que dificilmente acreditas que possa cair sobre uma madrasta.
HIPÓLITO
Em teu discurso ambíguo proferes palavras misteriosas.
Fala com clareza.

FEDRA
Um amor ardente queima-me o coração insano. Um fero fogo enfurecido consome-me
[a medula dos ossos e atravessa-me as veias,]
alojando-se nas mais profundas entranhas e escondendo-se nas veias.
como uma chama a propagar-se veloz por altas vigas.
HIPÓLITO
É pelo casto amor de Teseu que estás enlouquecida?
FEDRA
Sim, Hipólito: amo os traços de Teseu,
aqueles que ele tinha outrora em rapaz,
quando a primeira penugem lhe ficou marcada nas faces imberbes
e viu a casa escura do monstro de Cnossos
e recolheu o extenso fio pelo caminho sinuoso.
Como era então glorioso! Faixas cingiam-lhe a cabeleira
e um rubor espalhava-se pelo delicado rosto.
Sob os seus jovens braços emcontravam-se músculos robustos.
Os traços dele eram os da tua Febe ou os do meu Febo
ou antes os teus próprios. Tal, sim, era ele
quando agradou à inimiga; trazia assim a cabeça erguida.
Em ti refulge mais a beleza sem adornos.
O teu pai está todo em ti e também uma parte
da austeridade da mãe se mistura com igual encanto;
no rosto grego desenha-se a severidade cítica.
Se tivesses entrado no mar de Creta com o teu pai,
era para ti que a minha irmã teria entrançado os fios.
A ti, a ti, irmã, onde quer que no céu sideral
tu refuljas, te invoco para uma causa semelhante.
Uma só casa arrebatou duas irmãs:
a ti foi o pai, a mim... o filho. Vê, a descendente
de uma casa real cai a teus joelhos, como uma suplicante.
Sem mancha que me macule, pura, inocente,
para ti apenas me transformo. Determinada humilhei-me em súplicas.
Este dia porá fim à dor ou à vida.
Compadece-te de quem te ama.
HIPÓLITO
Poderoso soberano dos deuses,
ouves tão serenamente estes crimes? Tão serenamente os vês?
(...)
(Para Fedra.) Acaso fui merecedor de adultério?
Fui apenas eu que te pareci instrumento fácil
para tamanho crime? Foi esta a recompensa da minha austeridade?
Tu, com o teu crime, superas toda a raça das mulheres;
tu ousaste um mal maior do que a tua mãe que deu à luz um monstro,
tu és pior do que aquela que te gerou!
(...)
Afasta as mãos impuras para longe do meu casto
corpo.
(À parte.)
Que é isto? Também se precipita nos meus braços?
Há que desembainhar a espada e reclamar o justo castigo.
(...)
FEDRA
Hipólito, cumpres agora a minha prece,
cura a minha loucura. Isto excede a minha prece:
morrer às tuas mãos e ficar salva a honra.
HIPÓLITO (Arremessando Fedra para longe de si.)
Vai-te embora, vive para que nem isso consigas. E que esta espada em que tocaste abandone a minha casta cintura. (...)
(Séneca- FEDRA. Fotografias de China Hamilton)
Tomo a liberdade de deixar uma sugestão a quem ler Séneca e, especialmente, a quem ler a sugestão da Sandra, FEDRA: fazer uma leitura comparativa com as tragédias de Eurípides, seja AS BACANTES, seja ELECTRA, seja (e eu recomendo esta vivamente), a MEDEIA. E, se o fizerem, quando o fizerem que tentem apropriar-se de um contexto feminino ao longo da história; isto é: dêm especial infoque ao papel da mulher na história e ao papel da mulher nas tragédias que lêem, de que forma a mulher é retratada ao longo da história (Teresa de Ávila, Maria Madalena, Salomé - apenas para refir as mulheres que já temos como mitos - )e de que maneira encontra reflexo nas tragédias que acabo de refir.
Perdoa-me a ousadia, mas acho uma leitura muito interessante, pegar na significancia da mulher e ver como dela se fez mito.
Beijinhos!
NN
Afixado por: NN em fevereiro 24, 2005 10:22 AM