fevereiro 16, 2005

ROMEU E JULIETA ("UMA SEMANA NO TEATRO"- 3)

Parece que bom como actor mas certamente brilhante como dramaturgo William Shakespeare, de origem inglesa, viveu entre 1564 e 1616. Entre as suas peças conhecidas temos: "Hamlet", "Otelo", "Macbeth", "O Rei Lear", "António e Cleópatra", "Júlio César", "O Mercador de Veneza", "Sonho de uma noite de Verão" e... "Romeu e Julieta".
Pois é, é um excerto de "Romeu e Julieta" que aqui vos apresento, com uma pequena nuance interpretativa reflectida nas fotografias editadas. Claro que sim a idealização do Amor, mas sobretudo, o sacrifício do Amor pela Guerra. O confronto do/ao Amor pelos conflitos, pelas rivalidades, pelas discordâncias, pelos diferentes interesses. A subjugação da Paz. O enquinar da Glória. O império do Sacrifício. Até um dia... até ao dia em que se percebe que as consequências são tão graves que o remédio é mesmo retroceder. Que o remédio é inverter a Ordem. É fazer valer o que realmente eleva.
Mas... leiam... e observem...

Na bela Verona, onde se vai passar este drama, duas famílias, iguais em nobreza, impulsionadas por antigos rancores, fazem com que entre si se desencadeiem novas discórdias, em que o sangue dos cidadãos tingue as mãos dos cidadãos.
Das entranhas fatais destas duas famílias inimigas, e sob funesta estrela, nascem dois amantes, cuja desventura e lamentável ruína há-de enterrar, com a sua morte, a luta dos seus pais. As terríveis peripécias deste fatal amor e a raiva obstinada desses pais, que nada pôde aplacar senão a morte dos filhos, vão ser, durante duas horas, o assunto da nossa representação.

(...)

Jardim de Capuleto

(Entra Romeu)

ROMEU- Só se ri das cicatrizes aquele que nunca sentiu uma ferida. (Julieta aparece à janela) Mas... devagarinho! Qual é a luz que brilha através daquela janela? É o oriente, e Julieta é o Sol. Ergue-te, ó Sol resplandecente, e mata a Lua invejosa, que já está fraca e pálida de dor ao ver que tu, sua sacerdotisa, és muito mais bela do que ela própria. Não queiras mais ser sua sacerdotisa, já que tão invejosa é! As roupagens de vestal são doentias e lívidas, e somente os loucos as usam. Deita-as fora! Esta é a minha dama! Oh, eis o meu amor! Se ela o pudesse saber! O seu olhar é que fala e eu vou responder-lhe... Sou ousado de mais; não é para mim que ela fala. Duas das mais belas estrelas de todo o firmamento, quando têm alguma coisa a fazer, pedem aos olhos dela que brilhem nas suas esferas até que elas voltem. Oh! Se os seus olhos estivessem no firmamento e as estrelas no seu rosto! O esplendor da sua face envergonharia as estrelas do mesmo modo que a luz do dia faria envergonhar uma lâmpada. Se os seus olhos estivessem no Céu, lançariam, através das regiões etéreas, raios de tal esplendor que as aves cantariam, esquecendo que era noite. Vede como ela encosta a face à sua mão. Oh! quem me dera ser a luva dessa mão, para poder tocar a sua face.

JULIETA- Ai de mim!

ROMEU- Está a falar... Oh! continua, anjo resplandecente! Porque esta noite tu brilhas tão esplendorosamente sobre a minha cabeça como um alado mensageiro do Céu perante o olhar extrasiado dos mortais, que escondem a íris nas pálpebras ao inclinarem-se para o contemplar quando ele perpassa por entre as nuvens indolentes e navega no seio do ar.

JULIETA- Oh! Romeu, Romeu! Mas porque és tu Romeu? Renega o teu pai, o teu nome; ou, se o não quiseres fazer, jura apenas que me amas e deixarei eu de ser uma Capuleto.

ROMEU (aparte)- Deverei eu continuar a ouvi-la, ou responder-lhe?

JULIETA- É apenas o teu nome que é meu inimigo; tu és tu mesmo, e não um Montecchio. E que é um Montecchio? Não é mão, nem pé, nem braço, nem rosto, nem qualquer outra parte que pertença a um homem. Oh! Sê qualquer outro nome! O que é que existe num nome? Aquilo a que nós chamamos rosa teria o mesmo perfume embora lhe déssemos outro nome! Assim, Romeu, ainda que não se chamasse Romeu, conservaria a mesma perfeição que agora possui. Romeu, renuncia ao teu nome, e em vez dele, que não faz parte de ti mesmo, apodera-te de mim!

ROMEU- Aceito. Chama-me apenas teu amor, e far-me-ei de novo baptizar. De ora avante nunca mais serei Romeu.

JULIETA- Quem és tu que, assim protegido pela noite, vens surpreender o meu segredo?

ROMEU- Eu não sei que nome hei-de pronunciar para te dizer quem sou. O meu nome, querida santa, eu próprio o odeio, por ser para ti um inimigo. Se eu o tivesse escrito, rasgá-lo-ia.

JULIETA- Os meus ouvidos não escutaram uma centena de palavras pronunciadas por esta voz, e contudo eu reconheço-a. Não és tu Romeu, e Montecchio?

ROMEU- Nem uma coisa nem outra, gentil donzela, se ambas te desagradam.

JULIETA- Dize-me: como vieste tu até aqui e para quê? Os muros do jardim são altos e difíceis de escalar; e este lugar será para ti a morte se algum dos meus parentes te descobre aqui.

ROMEU- Transpus estes muros com as leves asas do amor, porque não são as barreiras de pedra que o podem embaraçar; e o que o amor tem possibilidades de fazer ousa logo tentá-lo! Por isso mesmo, não são os teus parentes que me servirão de obstáculo.

JULIETA- Se eles te vêem, matar-te-ão.

ROMEU- Ai! Há mais perigo nos teus olhos do que em vinte das suas espadas. Basta que me olhes com ternura e ficarei couraçado contra a sua inimizade.

JULIETA- Por nada deste mundo eu queria que te vissem aqui.

ROMEU- O manto da noite oculta-me aos olhos deles. Mas, se tu me não amas, que importa que me encontrem? Seria melhor que o ódio deles pusesse fim à minha vida do que a morte tardasse faltando-me o teu amor.

(...)

(Entra, pelo outro lado do cemitério, FREI LOURENÇO com uma lanterna, alavanca e alvião)

FREI LOURENÇO- S. Francisco me ajude! Quantas vezes é que os meus velhos pés pisaram túmulos durante a noite? Quem está aí?

BALTASAR- Um homem que é vosso amigo e que vos conhece bem.

FREI LOURENÇO-Deus te abençoe. Dize-me cá, amigo, que tocha é aquela que dá inutilmente a sua luz às larvas e aos crânios sem olhos? Se não me engano, arde no mausoléu dos Capuletos.

BALTASAR- É verdade, Reverendo Padre. Está lá o meu amo, de quem vós sois amigo.

FREI LOURENÇO- Quem é ele?

BALTASAR- Romeu.

FREI LOURENÇO- Há quanto tempo está ele lá?

BALTASAR- Há mais de meia hora.

FREI LOURENÇO- Vinde comigo ao mausoléu.

BALTASAR- Não me atrevo, senhor. O meu amo julga que eu me fui embora; ele ameaçou-me de morte em termos assustadores se eu ficasse a espreitá-lo.

FREI LOURENÇO- Fica então, eu vou sozinho. Começo a ter um certo receio. Oxalá não tenha sucedido alguma desgraça.

BALTASAR- Enquanto dormia debaixo deste teixo sonhei que o meu amo se batia com outro homem e que o matou.

FREI LOURENÇO (aproximando-se)- Romeu! Meu Deus, meu Deus! Que sangue é este que mancha a entrada de pedra desta sepultura? Para que estarão aqui neste lugar de paz estas espadas ensanguentadas e sem dono? (Entra no túmulo) Romeu! Oh! como está pálido!... E quem é estoutro? O quê Páris também? E banhado em sangue? Oh! que cruel hora a que foi culpada desta lamentável catástrofe! Oh! ela está a mover-se!...

(Julieta acorda)

JULIETA- Oh, caridoso irmão, onde está o meu senhor? Lembro-me bem em que lugar eu devo estar, e cá estou... Mas onde está Romeu?

(Ouve-se barulho)

FREI LOURENÇO- Ouço um certo ruído. Minha filha, abandonemos este antro de morte, de contágio e de sono contra a natureza. Um poder mais forte do que o nosso se ergueu para contrariar os nossos planos. Vem, vem. Fujamos daqui. O teu marido aí jaz morto nos teus braços; Páris também. Anda, vem comigo, que eu vou meter-te numa comunidade de santas religiosas. Não percas tempo com perguntas, que aí vem a guarda. Vem, vem, minha boa Julieta. (Ouve-se barulho outra vez) Eu não ouso ficar aqui por mais tempo.

JULIETA- Ide, ide vós, porque eu não sairei daqui. (Sai Frei Lourenço) Que é isto? Um frasco tão apertado na mão do meu tão fiel amor? Agora vejo que foi o veneno que tão cedo o levou. Oh! egoísta! para que o bebeste tu todo e não deixaste uma gota amiga que me ajudasse a ir ter contigo? Vou beijar os teus lábios, meu amor; talvez aí encontre um resto de veneno, cujo bálsamo me fará morrer... (Beija-o) Os teus lábios estão ainda quentes. (...) O quê? Barulho?! Então não há tempo a perder. Oh, punhal abençoado! (Agarrando no punhal de Romeu) Eis a tua baínha... (Apunhala-se) Cria ferrugem no meu peito e deixa-me morrer! (Cai sobre o cadáver de Romeu e expira).

PRÍNCIPE- Esta carta confirma as palavras de Frei Lourenço. Romeu conta as peripécias do seu amor... a notícia da morte de Julieta... Diz aqui que comprou o veneno a um pobre boticário e com ele se dirigiu a este sepulcro, para morrer e ficar repousando ao lado de Julieta... Onde é que estão esses inimigos? Capuleto! Montecchio! Vede que maldição pesa sobre o vosso ódio. O Céu encontrou meios de matar as vossas alegrias com o amor... E eu, por ter fechado os olhos aos vossos ódios, perdi dois dos meus parentes: todos fomos bem castigados.

CAPULETO- Oh! meu irmão Montecchio! dá-me a tua mão. Este é o dote da minha filha, pois nada mais posso reclamar.

MONTECCHIO- Mas eu posso dar-te mais. Hei-de mandar erguer, em honra da tua filha, uma estátua de puro ouro. E, enquanto Verona for conhecida por este nome, não haverá imagem alguma a quem se preste maior veneração do que à da leal e fiel Julieta.

CAPULETO- De igual esplendor mandarei eu fazer uma a Romeu, que ficará ao lado da sua esposa. Pobres vítimas da nossa inimizade!

PRÍNCIPE- Sinistra paz traz consigo esta manhã; para nos mostrar a sua dor, o Sol velou o seu rosto. Retiremo-nos daqui para falarmos ainda sobre estes tristes acontecimentos. Uns serão perdoados, outros serão punidos, pois jamais história alguma houve mais dolorosa do que a de Julieta e a do seu Romeu.

(Saem)


(William Shakespeare- ROMEU E JULIETA. Primeira e segunda fotografias de Micha Bar-Am; Terceira, quarta e quinta fotografias de Thomas Dworzak)

Publicado por void em fevereiro 16, 2005 06:42 PM
Comentários

Li 2 vezes o teu texto. Adorei... e as imagens... fizeram-me calafrios... Abraço. Voltarei... sempre...:-)

Afixado por: Menina_marota em fevereiro 17, 2005 01:19 PM

Fantástica combinação dos extratos da peça intemporal "Romeu e Julieta" e as fortos por ti seleccionadas, que lhe dão uma dimensão nova ... Um beijo.

Afixado por: Pink, the Lady em fevereiro 17, 2005 07:44 PM

Belíssima dramaturgia Sandra! Assisti em Dezembro a um exercício intitulado "da guerra" (exercicio final dos alunos da superior de teatro do 2º ano, encenação de Joana Craveira) onde se procedeu a uma ligação intertextual de Shakespeare unidas pelo fio dramaturgico que tu própria escolheste! Se não o viste, tenho imensa pena, pois tenho a certeza que o terias adorado e que te teria elucidado para muitas outras propostas tuas! De qualquer forma, se algum dia surgir, comentarei contigo sobre esse exercicio e as varias peças do autor que foram seleccionadas e colocadas em cena.

Gostei imenso deste post.
Só vem provar, adaptando a tese de Italo Calvino, que os clássicos (ainda que revestidos pelo tácito pavor do seu nome)são suficientemente porosos para que deles se possa fazer, nos revezes da história, a necessária adaptação, e para que deles se extraia o substracto necessário da arte: aquele que nós, "os de cá", recebemos, qualificamos e atribuímos, quer seja em dramaturgias, quer seja em leituras silenciadas (que por si só encerram, também, uma liturgia e uma dramaturgia próprias).

É bom ver o teatro tão bem discriminado aqui no Void! Ver Sarah Kane e Shakespeare coadunarem num "novo Olimpo" :P

Beijinho!
Aguardo novas propostas!

NN

Afixado por: NN em fevereiro 24, 2005 10:17 AM