O dramaturgo que hoje vos trago é Joe Orton. Nascido em Inglaterra em 1933 morreu assassinado pelo amante em 1967. Escreveu várias peças (inclusive para televisão), sendo "Entertaining Mr. Sloane" (1964), aquela que aqui apresento excerto, uma delas. Trata-se de uma peça que aborda, de forma cómica (comédia negra) questões como o desejo, o sexo, a morte, a solidão, mas também (e neste caso em complemento), o que de sórdido pode haver nas relações humanas. Tudo conseguido de uma forma muito especial, muito "Orton", com uma intenção clara de inverter a ordem, o considerado correcto, o socialmente aceite em termos de explicitez. Verifica-se, pois, a vitória da perversão mental e física. Como que uma espécie de elogio... à não decência. Um parodiar da vida familiar (tb, em circunstâncias muito específicas).
"Entertaining Mr. Sloane" estreou em Portugal em 1976 no antigo Teatro Monumental (Lisboa), sendo representada posteriormente no Teatro da Graça (Lisboa). Estava-se então no ano de 1986. Muito recentemente, em concreto a 15/04/2004, a peça é estreada, desta vez pelos Artistas Unidos, intitulada como "O nosso hóspede".
Nas representações dos Artistas Unidos não posso deixar de destacar o trabalho de Lia Gama (como Keth), numa interpretação absolutamente fabulosa. Sem dúvida, e porque assisti à peça, vi-me perante uma actriz fantástica que enriqueceu muitíssimo a personagem de Orton.
Ofereço-vos agora partes da peça que permitem perceber um pouco as ideias que anteriormente registei, assim como fazer imaginar o trabalho da actriz que destaquei.

Uma sala. Tarde.
Entra KATH seguida por SLOANE.
KATH- Aqui é o meu salão.
SLOANE- Posso utilizá-lo? Faz parte do contrato?
KATH- Claro. (Pausa.) Não fique a pensar que está sempre como hoje. Devia ter-me telefonado ou coisa assim. Para eu estar preparada.
SLOANE- O quarto para mim é óptimo.
KATH- Não lhe cheguei a mostrar a casa de banho.
SLOANE- Tenho a certeza que está bem.
Passeia pela sala, examinando a mobília. Pára junto da janela.
KATH- Devia ter mudado as cortinas. Essas aí são de inverno. As de verão são de chitz. (Ri.) As paredes estão a precisar de uma limpeza. O papá sofre muito da vista. Não posso obrigá-lo a fazer trabalhos que metam escadote. É evidente.
Pausa.
SLOANE- Não posso tomar ainda uma decisão definitiva.
KATH- Não tenha pressa. (Pausa.) Qual é a sua opinião? Eu gostava que ficasse.
Silêncio.
SLOANE- É casada?
KATH (pausa)- Fui. Tive um filho... morto em circunstâncias muito tristes. Na altura sofri muito. Mas consegui recompor-me. Acabamos por nos habituar.
Pausa.
SLOANE- Um filho?
KATH- Sim.
SLOANE- Ainda parece muito nova.
Pausa.
KATH- Não sou desmazelada como algumas que há para aí. Faço agora... Se quer saber, tenho quarenta e um anos. (...) Não tem mais família?
SLOANE- Nada.
KATH- Pobrezinho. Só no mundo. Como eu.
SLOANE- A senhora não está só.
KATH- Estou. (Paisa.) Quase. (Pausa.) Se me tivessem deixado ficar com o meu filho, seria diferente. (Pausa.) Você tem quase a mesma idade que ele tinha. O mesmo bom gosto.
SLOANE (lento)- Eu preciso... de compreensão.
KATH- Pois claro que precisa. Posso tirar-lhe o casaco? (Ajuda-o a despir o casaco.) Tem uma pele tão macia. (Acaricia-lhe o pescoço e depois a face. Ele estremece. Pausa. Beija-o na cara.) Um beijo maternal. Apenas um beijo maternal. (Silêncio. Pega-lhe nos braços e faz com que ele a envolva.) Vai ver que sou muito sentimental. Impressiono-me com muita facilidade. (Os braços dele envolvem-na.) Basta ouvir contar... tragédias que aconteceram até a pessoas estranhas. Há tantas vidas arruinadas. (Encosta a cabeça no ombro dele.) Nessas alturas tem de me tratar com meiguice.
Silêncio.

KEMP espeta-lhe o garfo. SLOANE dá um grito de dor.
SLOANE- Seu tarado. Ai, a minha perna! Ai!
KEMP- Você provocou-me.
SLOANE (deixando-se cair numa poltrona)- Vou passar o resto da vida numa cadeira de rodas. (Examina a perna.)Camelo! Não pára de sangrar! Chame alguém!
KEMP (vai até à porta e chama) Kathy! Kathy!
KATH (entra a correr, limpando as mãos ao avental. Vê SLOANE e dá um grito)- O que é que o papá fez?
KEMP- Não foi por querer. (Vai a aproximar-se.)
KATH (repele o pai)- Dói muito?
SLOANE- Não posso andar.
KATH- O ferimento é profundo?
SLOANE- Apanhou uma artéria. Estou a perder litros de sangue. Meu Deus!
KATH- Vamos! Fica melhor sentado no sofá. (Ele deixa-se levar. Ela instala-o no sofá.)

SLOANE (chamando, impaciente) O sangue está a escorrer pelo sofá. Vai ficar com uma nódoa.
KATH (correndo, com um retalho de seda. Arregaça-lhe a perna da calça, levanta-a e coloca o pano sobre a ferida)- Isto serve. É duma peça que o meu irmão me trouxe. É um tecido muito bom. Estive para fazer uma blusa mas não chegou.
(...)
(...) regressa com uma panela de água. Remexe nas gavetas do aparador e tira uma toalha. Volta para junto de SLOANE. Ajoelha-se.
Que sapatos tão bonitos.
Desaperta-lhe os sapatos, tira-lhos e coloca-os debaixo do sofá.
SLOANE- Parece que vou vomitar.
KATH coloca imediatamente a panela por baixo.
Não, está tudo bem.
KATH- Uma coisa, Sr. Sloane, não seria melhor tirar as calças? Espero que não veja nisto más intenções. (Olha para ele. Ele desaperta o cinto.) Não viu com certeza. Dê um jeitinho, que eu depois puxo. (Puxa e tira-lhe as calças.)
SLOANE enfia a aba da camisa entre as pernas.
(...)
SLOANE- Uuuui!
KATH- O que arde cura. (Pausa.) Tem a pele macia como a duma princesa. Mais suave do que a de muita menina que aparece a dançar na TV. Gosto de rapazes com o corpo macio. (Deixa de friccionar a perna. Pega na ligadura. Pega depois na tesoura e corta a ligadura. Amarra-a em volta da perna de SLOANE.)- Não é estranho você ter pêlos pretos nas pernas?
SLOANE- Hã!
KATH- Mas é excitante.
SLOANE- Pretos?
KATH- Sim. Porque você é louro.
SLOANE- Ah, pois.
KATH- A natureza tem coisas engraçadas.
(...)
Ela apanha as calças do chão.
KATH- Vou limpar isto e dar-lhe uns pontinhos. (Põe a tintura de iodo, a ligadura, etc. em cima do aparador.) Esta gaveta é a minha farmácia. Se precisar de uma aspirina, sirva-se. (Aproxima-se dele.)
Ele deita-se ao comprido, ela sorri. Silêncio.
KATH (confidencialmente)- Estive hoje a lavar a roupa e não tenho nada vestido por baixo. Só os sapatos... Estou completamente nua. Digo-lhe isto porque mais cedo ou mais tarde você ia reparar.
Silêncio. SLOANE tenta alcançar o bolso das calças.
Deixe-se estar quietinho. Descanse. O sangue precisa de tempo para repousar.
SLOANE tira umas meias de vidro do meio das almofadas do sofá.
Há que tempos que eu ando à procura delas!
SLOANE- São suas?
KATH- São. Já reparou no comprimento? Tenho umas pernas altas. Elegantes. (Dá uma palmada na perna.) Sou capaz de surpreender muitos homens. (Pausa.) Tenho um aspecto muito diferente na intimidade. (Debruça-se sobre ele.) Não se vê nada à tranaparência por baixo do vestido, pois não? Não queria nada que se sentisse embaraçado por minha causa.
SLOANE tenta tocar no sítio onde julga estar a mama dela.
KATH (Dando um salto para trás) Sr. Sloane... não abuse da confiança.
SLOANE- Eu pensava que...
KATH- Já sei que queria ver se as minhas maminhas eram mesmo minhas. Vocês são todos iguais. (Sorri.) Tenho de estar alerta consigo. Se eu deixasse, era capaz de me despir e de me possuir no meio do chão. Se o meu irmão sabe disto... (Pausa.) Ele é um homem muito possessivo. (Silêncio. Levanta-se.) Não quer ir para a cama?
SLOANE- Ainda é cedo.
(...)
(Joe Orton- O NOSSO HÓSPEDE. Fotografias resultantes das representações pelos Artistas Unidos)
Uma leitura agradável. Li com muito interesse, porque desconhecia esta obra. Parabéns pela escolha.
Um abraço e um :-) de bom dia...
Sem tempo para nada, já tenho a leitura mt atrasada, logo venho com mais calma e comento. Beijinhos
Afixado por: Micas em fevereiro 15, 2005 12:35 PM{ …
deixo um mimo (o de ontem):
#3
amor,
meu sabor dormente,
calmo, ingénuo e puro.
diz-se criado moço,
nobre e galante.
em seu domínio presente,
em teu corpo eirado
a seduzir eternamente.
© biquinha
… }
Continuo a admirar-te pela perseverança e pela boa escolha que fazes dos textos.
E, se não fosse a tua iniciativa, muitas das coisas provavelmente nunca as teria lido.
Beijo grande.