Num momento em que em Portugal, em pleno período de pré-campanha e campanha eleitoral, se fala (na minha opinião, de forma completamente errada) nos casamentos entre pessoas do mesmo sexo e na possibilidade de adopção pelos respectivos casais, eis uma peça que se situa num mundo só povoado por homens. Homens que entre si se relacionam, homens que entre si definem papéis, homens que parecendo iguais são, contudo, pertencentes a grupos diferentes. Como que integrando-se em clãs distintos onde uns assumem o papel de efectivos "chefes de família" e outros se subalternizam e se vêm reduzidos para as esferas interiores, privadas ou "íntimas" da vida em comum. Homens que, nas suas diferenças, assumem também aquelas de ordem física, permitindo a uns serem portadores do "sémen" originário da vida e a outros receberem esse sémen e darem à luz outros homens.
O excerto que se segue permite perceber tudo isto. Temos, pois, uma família: Pai 1- o "chefe de família", Pai 2- o elemento reservado ao espaço interior e o Filho. O grande problema: o futuro do filho, com a necessidade imperiosa que existe de este se casar. Segue-se o arranjo do casamento, uma conversa entre o Filho e o Prometido (o desejado marido) e um discurso síntese - em termos de ideia orientadora para a vivência em família e em sociedade- do Pai 2.
Uma peça que, em toda a linha, nos remete para mentalidades e práticas muito enraizadas num mundo predominantemente "hetero", com um enorme sentido crítico relativamente à sua durabilidade e permanência.
Registo que a estreia desta peça se verificou em Portugal, pelo Teatro Plástico, a 8 de Janeiro deste ano, no Grande Auditório do Rivoli- Teatro Municipal do Porto.
Quanto a Denis Lachaud, especificamente: nasceu em Paris em 1964. Foi bolseiro universitário na Alemanha, onde iniciou a sua actividade teatral. Em 1990, ao regressar a França funda a Companhia "La Téatralala" na qual exerce as funções de autor, encenador e actor.
Da sua obra fazem parte os romances: "J'apprend l'aleman" (1998), "La forme proffunde" (2000) e "Comme personne" (2003). Quanto a peças de teatro "Ma forêt fantôme" e "Le lion qui rit et la femme en boîte" (2003), todas editadas pela Actes Sud.
É neste momento consultor literário na Comédie Française.
Mas... passemos ao excerto:

Em casa dos Gattal.
PAI 2- Meu filho, os homens nascem e crescem e assumem um lugar, cada um segundo os seus direitos e os seus deveres, cada um retirando das suas possibilidades o que a vontade e as circunstâncias lhe permitam atingir. Proporcionalmente à energia de que dispõe. Tu como os outros todos. Quer-se dizer, nem tu nem ninguém escapa a isto. Tu nasceste aqui, não interessa onde, na pele de não importa quem, e os que têm sorte caem do lado certo da barreira o que foi o teu caso congratula-te por isso agradece todos os dias ao acaso, por essa identidade, esse pedigree, recebidos à sorte, e também por esse invólucro corporal herdado da mistura de genes do teu pai e meus, também isso uma roleta, black-jack, excitará os sentidos, provocará aversão, este filho, quando for grande, é mais uma vez tu sais com as felicitações do juri, sem uma razão objectiva, sem esforço mas adiante, melhor para ti. Em resumo tu tens tudo a teu favor. Ora tu sobrevives numa sucessão de biscates de guarda-nocturno, de habilidoso, de segurança de discoteca e sei lá eu mais o quê e o tempo passa. À beira dos quarenta anos e nada de esposo. Mais uma primavera um Verão que passaram, todos os outros jovens à tua volta se acasalaram, e tu, tu não conseguiste escolher um homem interessar um homem atrair sobre ti o olhar de um homem, nem um único. Isto não pode continuar isto parece o quê?
...
Isto não pode continuar ouviste-me bem?
FILHO- Papá, eu não sim eu ouvi-te eu não tenho a pretensão de escapar a nenhuma condição humana é evidente que te ouvi, essa necessidade de dizeres tudo de uma maneira barroca, sistematicamente. Como os outros, eu sou como hei-de explicar a soma das probabilidades que compõem o meu leque de possibilidades e para o fazer, eu avalio eu avalio razoavelmente eu avalio a vontade que sou capaz de opor ao imobilismo natural das coisas ao peso de, eu meço a quantidade de energia à minha disposição.
Eu estou consciente da sorte que me fez nascer aqui, no vosso meio, do lado certo da barreira não não podes fazer-me o favor de acreditar em mim não. Onde a boa sorte oferece identidade, pedigree e corpo bem feito (sim papá eu tenho plena consciência disso), eu vejo uma ocasião de me congratular, sabendo que da mesma forma é verdade quando pensamos nisso eu poderia ter dado com os burrinhos na água a ver os outros gozarem a vida enquanto eu estaria amarrado à existência cinzenta de alguém que não teve sorte à roleta ao black-jack ou a outro jogo de azar eu aí estou totalmente de acordo contigo. No entanto, acho que seria bom esclarecer que eu não ocupo nenhum lugar de guarda-nocturno de habilidoso nem sequer de segurança de discoteca desde há séculos (de guarda do papá enfim, porque não de eu não sei dizer de enfim seja lá o que for), que fui contratado sim contratado mas quero dizer à séria pela Booster International em Fevereiro como chefe de produto, sim, nada menos do que isso, não mas tu tinhas o ar de eu não acabei se fazes favor eu queria chegar eu queria dizer que trabalhei no mesmo sítio todos os dias de manhã à noite, sem contar as horas eu sei do que estou a falar, dediquei a Primavera o Verão à minha integração profissional, ao reconhecimento das minhas competências pelo meu superior hierárquico e em consequência preocupei-me pouco com os olhares que me poderiam mandar porque papá os olhares tu falas deles dos olhares que me poderiam mandar, não ambicionei interessar nem escolher quem quer que fosse para vos apresentar a ti e ao pai. Fica a saber porém que eu atraio sem problemas os olhares dos homens mais exigentes, os mais à procura de critérios de escolha precisos porque maduramente reflectidos. (...)
PAI 1 (a entrar) - Tu ouves o teu papá quando ele fala?
FILHO- Sim ah sim?
PAI 1- Ouviste bem o que ele te disse?
FILHO- Sim? Pai.
PAI 1- O que é que ele disse?
FILHO- Isto ele disse não pode continuar.
PAI 1- Isto não pode continuar capitão isto parece o quê? Tu és jovem, tu és bonito, a tua musculatura aguenta-se ainda sem muletas nem artifícios, tu és forte, tu resistes bem, tu sabes dar prazer, a tua semente é rica e espessa, nós criámos-te oferecendo-te o melhor, sacrificando muitas vezes as nossas aspirações pessoais às necessidades do pequeno animal enérgico por vezes violento que tu foste, nós afastámos-te lenta e pacientemente do caminho da perdição... continua meu pugilista eu interropi-te.
PAI 2- Como o teu pai te está a explicar tão claramente, em cada estádio do teu desenvolvimento nós encorajámos os teus desejos, nós antecipámo-los, cultivámo-los, provocámo-los de todas as formas, recorrendo a tesouros de criatividade, fizemos de ti uma criança desperta, curiosa, ávida de conhecimento, tiveste direito à melhor educação nas escolas e nas universidades mais cotadas e mais caras... (...)
Nós mantivemo-nos jovens, fortes e sedutores com um excelente desempenho o tempo que foi necessário para te oferecer o modelo de um casal unido na alegria do amor apaixonado, lembro-te que te dei à luz no meio das dores mais horríveis mas feliz pela tua chegada, mas apoiado pela perspectiva dos teus numerosos êxitos futuros, mas sem nunca perder de vista que valia a pena, que um dia eu seria recompensado pelo teu fulgor de homem realizado...
PAI 1- Homem realizado tu não és um homem realizado. Enquanto não tiveres unido o teu destino ao de um outro, enquanto não tiveres acasalado, enquanto do fruto desse acasalamento não tiver nascido a vossa descendência...
(...)
Em frente à casa do prometido. Este responde do interior.
NEGOS- Se fizer o favor... Está alguém em casa? Ó da casa! Ó da casa eu estou mandatado pelos seus pais para falar consigo.
Silêncio. Aparece a silhueta do prometido (é o director da Booster International).
PROMETIDO- Os meus pais estão mortos e enterrados.
NEGOS- E no entanto é a eles que devo conhecê-lo hoje.
PROMETIDO- O que é que está a tentar vender-me?
NEGOS- Antes de morrerem, os seus pais garantiram o seu futuro. Apelaram aos meus serviços.
PROMETIDO- Mas o que é isto?
NEGOS- Comprometi-me contratualmente a arranjar-lhe um marido.
PROMETIDO- Eu não preciso dos seus serviços.
Desaparece.
NEGOS- Espere... Por favor.
PROMETIDO (voz) - Eu não desejo neste momento unir o meu destino ao de quem quer que seja, e se um dia o quiser, tratarei pessoalmente do caso como toda a gente muito boa tarde para si.
NEGOS- Eu entendo a sua dor, não nos preocupamos em unir o nosso destino ao de um outro quando a felicidade nos bateu à porta. É precisamente por isso que os seus pais, um sabendo-se condenado, e o outro tendo decidido segui-lo na morte, apelaram aos meus serviços. Receando que a sua tristeza o levasse a abandonar qualquer perspectiva de futuro, preferiram, antes de partir, obrigar-me por contrato a encontrar o homem que o há-de escolher, que lhe dará o seu nome e o tomará sob o seu tecto.
(...)
FILHO- (...). O teu lugar à frente da Booster International perturba-me. No meu desejo quero eu dizer.
PROMETIDO- Como é que tu sabes? Nós praticamente ainda só nos tocámos nos cotovelos.
FILHO- Mas o risco só o risco! Imagina, a festa está no seu auge, chegou a nossa hora, escapulimo-nos para o quarto nupcial, eu dispo-te, dispo-me, e ali, à minha frente, um monstro, um espantalho, o grande chefe da empresa...
PROMETIDO- Eu não tenho nenhuma tatuagem no peito.
FILHO- Ouve, eu tenho o dever de te desejar. Para isso, tu tens o dever de ser desejável, caso contrário não te consigo honrar. É lógico é técnico. Tens de parar de dirigir a empresa, deves voltar, eu não sei, a considerações mais intimistas no que respeita ao teu êxito pessoal.
PROMETIDO- Diz-me lá. Ou eu paro de trabalhar...
FILHO- Sim...
PROMETIDO- Ou o quê?
FILHO- Eu, estás a ver...
PROMETIDO- Eu vou-te dizer eu. Ou eu paro de trabalhar, ou tu aprendes a viver com uma pessoa que tem um trabalho, poder e que gosta disso, ou ainda podemos anular o casamento. Tu votas pela primeira solução. Não é assim?.
FILHO- Sim...
(...)
PROMETIDO- Podes decidir aprender a viver comigo que sou como sou e que faço aquilo que faço, achar que vale a pena, distinguir-te da massa ao mostrar que é possível, que não há aí nada para causar admiração.
Ou então, informas os teus pais do teu desejo de te manteres solteiro até novas ordens, até um encontro mais adequado.
(...)
FILHO- Estás a armar-te em espertinho.
PROMETIDO- Compete-te retirar as consequências.
FILHO- Podes contar com isso.
Entra o pai 2.
PAI 2- Um primeiro arrufo meus pombinhos?
FILHO- Eu tento fazer com que ele ouça a razão, eu explico-lhe tu sabes o quê, mais valia estar a pentear macacos. Mais vale não me enervar vai tenta, tu.
PAI 2- Mantém a calma caubói, é obvio que não adiante de nada enervares-te. Meu rapaz, faz um esforço para me ouvires peço-te. Desde sempre, desde que os homens são homens, nós fomos incumbidos das tarefas domésticas: fazer filhos, criá-los até podermos oferecer ao mundo rapazes sólidos, organizar o governo da casa, o conforto de cada um. Eles, desde sempre, têm a responsabilidade de trazer para o lar com que alimentar os indivíduos que o compõem, adultos e crianças, garantirem a sua segurança. A nossa tarefa está virada para o interior enquanto que a deles está para o exterior. Eles animam a vida da nossa cidade, o seu poder exprime-se no domínio público. O nosso realiza-se na esfera privada, a íntima. E é aí que reside o verdadeiro poder. Nós governamos tudo na casa é o terreno sobre o qual cresce a comunidade, nós escolhemos e doseamos os adubos, seleccionamos o grão, arrancamos as ervas daninhas. Somos nós quem constróiu o mundo, somos nós quem compõe a sua paisagem. Não são eles. Nós só lhe concedemos os sinais exteriores do poder, nós deixamo-los pensar que eles governam tudo incluindo no seio do lar familiar, mas dia após dia, é a nossa mão que molda.
PROMETIDO- O pior é que acredita mesmo nisso.
(...)
(Denis Lachaud- HETERO. Foto editada: correspondente à apresentação da peça aquando em cena)
Gosto muito de teatro, mas
Gosto mais de ti...
Não pelo que tu dizes, porque toda a gente diz.
Não pelo que tu fazes porque toda a gente faz.
Gosto de ti simplesmente pelo que és…
E porque hoje é dia dos namorados.
Beijo grande.
:-)
Afixado por: Distante em fevereiro 14, 2005 07:22 PMPelo extracto a peça parece-me excelente, muito metafórica da nossa sociedade, de certos estereótipos ... Gostei! Um beijo.
Afixado por: Pink, the Lady em fevereiro 14, 2005 10:52 PMA ter em conta, o blog e a peça.
Voltarei!
Convido V. Exa a visitar a Embaixada de Zurugoa.
zurugoa.blogspot.com
Salut
Afixado por: Bandido Original em fevereiro 15, 2005 01:51 AMNunca fui ao teatro em lisboa e por aqui é mesmo muito raro haver alguma peça :( beijinhos*
Afixado por: xana em fevereiro 15, 2005 02:34 AM