fevereiro 13, 2005

"X E Y: A ESTÓRIA"- CAPÍTULOS 9 e 10

Diferentemente do que tem acontecido até agora deixo-vos com dois capítulos da estória de X e Y. Dois capítulos que marcam alguma diferença face aos anteriores, na medida em que o recordar que nos é dado a conhecer passará pela apresentação dos acontecimentos "in loco". Tudo passa, a partir de agora, a ser muito mais vivo, intenso, imediato... em "tempo real". Os discursos vão-se misturar. Estejam pois atentos e apreciem. Mais não digo.


RETROCESSO

Estamos em Novembro. Estes últimos dias de Novembro vieram com um estranho sol, com um estranho calor, com uma estranha aragem que sopra suavemente; eu diria, quase carinhosa, se isto tudo não me agarrasse pelos colarinhos da camisa que trago vestida, e me abanasse de uma maneira violentamente cómica; como vemos os bonecos animados fazerem-no com as árvores para que caiam os frutos. Porque essa árvore desenhada num ecrã sou eu, e este tempo tão estranho troça de mim ao acarinhar-me, irónico, pondo-se igual àquela manhã solarenga de Outubro, quando eu te conheci.
O tempo faz pouco de mim. Faz pouco, troçando, fazendo-me sentir na pele o pouco que agora tenho e o muito que perdi. E eu vejo, sobretudo nestes dias que me despertam não de um sonho mas para o interior de um sonho, vejo a minha vida no pequeno ecrã aos pés de uma cama de casal, e vejo-te dentro dessa pequena caixa cinzenta, embrulhada no meu roupão enorme, agarrada ao Sebastião, o urso boneco inanimado que tu adoravas abraçar quando eu não estava em casa. Vejo-te miúda ainda, e alegremente birrenta com as dores da TPM.
Naquela manhã, uma manhã igual a tantas outras, o sol brilhava no topo do mundo. Ainda se ouviam chilreares vindos das árvores que começavam com a sua cíclica queda de cabelo, e as pessoas passeavam alegremente à beira das ruas, por cima dos passeios, vendo montras, entrando e saindo dos cafés e pastelarias, a caminho do emprego ou das compras... enfim... na vida normal e rotineira de todos os dias. Mas a mim, que observava isto tudo de um 1.º andar no centro da cidade, pareciam-me livres e felizes, como se as responsabilidades e preocupações do dia-a-dia não existissem; e assim todos me pareciam, alegres numa digressão domingueira.
Contudo, eu estava inexplicavelmente bem-disposto. Não era habitual ver-me assim logo pela manhã em dias de semana. E embora eu não conseguisse ver-me bem-humorado ou até me desse conta dessa satisfação que se apoderava de mim, eu estava bem. Sem me aperceber, sentia-me estranho. Talvez por estar bem, pois aquela não era a indiferença do costume.
A meio da manhã, resolvo descer para tomar café. E até quando descia as escadas e atravessava a porta do edifício para o exterior luminosamente citadino, tudo me parecia convidativo e confortavelmente acolhedor. O tempo chamava por mim; conhecia o meu nome de cor e eu sentia cada letrinha soar-me nos ouvidos como um chamamento soletrado e instintivo. Foi assim que fiz o restante e curto caminho da porta do meu trabalho até à porta da pastelaria que ainda hoje frequento.


ÁPICE

Uma música. O ruído de chávenas, pires, pratos, copos, colheres. Uma melodia de loiças e talheres dançando nas mãos dos empregados que se movimentam, activos, por trás dos balcões de vidro transparente. Há um cheiro no ar. Aliás, vários cheiros no ar. Mas tão perfeitamente baralhados que nos parece ser, num contacto primeiro entre narinas e ambiente, um só. O cheiro característico das pastelarias pela manhã.
Á medida que vou avançando, desvio-me de um pequeno traquinas que corre para a rua aos gritinhos e risadas com alguma guloseima nas mãos. A mãe, passa por mim como um relâmpago agitado em preocupação e grita, zangada com laivos de aflição, o nome do garoto desaparecendo atrás do seu braço esticado que não foi a tempo de o agarrar. Eu sorrio e descontraído, de passo leve, dirijo-me ao balcão com maior gulodice que apetite.
Distraído, a namorar a fila de bolos, pastéis e outras iguarias expostas na vitrina à maneira de manequins nas lojas de roupa de senhora, nem oiço a voz simpática da menina Ema, uma das empregadas que, no meio de toda aquela filarmónica matinal, conseguia ter sempre o seu destaque particular. Ela, de pé por trás do balcão, sorria, talvez da minha estranha figura. E diz-me um bom dia a puxar para a brincadeira, perguntando se era o costume. Sim, sim. Digo eu. Pode trazer-me um cafézito curto. E hesitando entre os seus lindos olhos verdes e um delicioso pastel de nata, há algo no ar que me desperta desta abstracção invulgar.
Três bonitas raparigas de pé, vestidas com a fresca elegância própria de quem tem bom gosto e uns presumíveis vinte anos de existência, conversavam alegremente mesmo à minha frente, do outro lado do balcão.
Não querendo comparar ou destacar uma delas das outras duas, ou não querendo afirmar que uma era mais bonita que outra, havia nesta tríplice beleza jovial, que se apresentava aos meus olhos agora bastante atentos, um olhar extremamente cativante que fazia brilhar, ainda mais, este harmonioso triângulo feminino; e que por essa razão, inevitavelmente se destacou diante do meu olhar que já rebentava, instantaneamente, numa inexplicável curiosidade, súbito interesse, e intenso deslumbre... uma mistura de não sei o quê que me caiu em cima da cabeça numa questão de segundos e que me pôs num estado de nervos e entusiasmo, misturados com uma esquisita felicidade parente da euforia. Uma euforia em combate absoluto com a timidez das minhas mãos que, procuravam um pacote de açúcar, perdido entre tantos outros pacotes de açúcar, dentro de uma cestinha de vime, imóvel em cima do balcão, à direita do meu braço embaraçado, tentando esconder a qualquer custo, o tremor interno que se alastrava pelo corpo todo, apressadamente e impossível de travar.
A conversa parecia interessante ou, pelo menos, divertida; a julgar pelos risos constantes que eu observava com os olhos e ouvidos despertos. E independentemente do presente diálogo ser indecifrável aos meus ouvidos que se esforçavam por distinguir a tua voz de todas as outras, eu entendia na minha cabeça de homem, que só poderiam conferenciar sobre algum assunto inerente às mulheres. Isto deixou-me mais descontraído. Sempre achei uma certa graça às mulheres quando se juntam, em duplas, em trios... enfim, nunca se mantém iguais ao que são quando estão sós ou a sós com um homem. É interessante observá-las tanto num caso como noutro. Podemos aprender bastante com os movimentos que elas fazem e que provocam nos outros, sejamos nós homens ou mulheres.
Talvez se, naquela manhã, no meio de toda a inofensiva e deliciosa barafunda em que nos olhámos pela primeira vez, tu estivesses sozinha, talvez as coisas não avançassem da maneira como vimos depois. Era bem provável que, no caso de estares sozinha, nem reparares em mim pois quando caminhavas sozinha nas ruas, ou entravas em cafés, pastelarias, restaurantes e num sem número de locais públicos, a tua timidez, que se escondia em presença de alguém que te era íntimo, ficava a flutuar nos teus olhos. E mesmo quando tentavas disfarçar, não querendo dar parte fraca dessa tua aparência confiante, dessa tua imagem de marca para quem não te conhecia, o teu corpo sob o meu olhar atento traía o restante. Se naquela manhã estivesses só... provavelmente não terias levantado os olhos da chávena de café, e muito menos os terias dirigido a mim. Eu observava-te minuciosamente. Cada detalhe do teu rosto. Cada movimento do teu corpo. A entoação da tua voz e do teu riso. A movimentação dos teus lábios. A circulação do ar que te envolvia. O teu cabelo, que então tocava levemente nos ombros, de um liso perfeitamente escadeado a contrastar admiravelmente com a profundidade de um negro brilhante que me seduzia. Parecias uma deusa vestida com roupas modernas. Uma deusa de carne e osso, que não conseguíamos definir em primeira análise se era menina, se mulher.
A brancura da tua pele, do teu rosto ligeiramente maquilhado, era mística. Mas os teus olhos... era nos teus olhos, na maneira como olhavas, que residia todo o mistério e todo esse misticismo capaz de me levar em viagens inesperadamente alucinantes. E mais uma vez, num ápice, em segundos, eu retrocedi no tempo. De repente, não havia mais nada à nossa volta. Era como se não existisse passado nem futuro; apenas um presente cheio de memórias boas e previsões maravilhosas.
Apesar de toda a actividade dos empregados no interior do balcão em forma de U que nos separava, diminuísse o meu campo de visão sempre que passavam à nossa frente, eu conseguia ver todo este conjunto de imagens numa perfeita sequência fotográfica. E foi durante o intervalo de uma dessas imagens que passavam com natural rapidez, que os teus olhos colidiram com os meus.
Na altura, tendo em conta o estado de total absorção em que me encontrava, não percebi. No entanto hoje posso afirmar com toda a certeza que o primeiro olhar, por incrível que pareça, revelou medo por revelar certezas na mesma medida. Inicialmente, olhaste com timidez, segundo julguei, erradamente. Pareceu-me ser uma mistura de timidez e curiosidade. Os teus olhos, grandiosos e amendoados, moviam-se com vida, com brilho, com existência, verdade e realidade. E tudo isso dentro de um sonho. Nesse momento eu nem conseguia discernir o que me puxava para ti. Eras excessivamente expressiva. E essa tua beleza e expressividade juntas absorviam toda a minha atenção. Isto durou segundos. Ficou-me gravado na memória a ferro e fogo até ao dia de hoje. Olhaste com estranha fixação, ao mesmo tempo que continuaste em amena cavaqueira com as tuas amigas que entretanto, com a sagacidade e esperteza feminina, toparam a uma velocidade idêntica à língua de um camaleão quando apanha um insecto, que eu te devorava com todos os sentidos à excepção do tacto, e do paladar.
Há uma delas, a mais alta e magra, com um rosto bastante interessante, emoldurado por um corte de cabelo curtinho e pintado de loiro platinado, que me olha atenta. E mantendo os seus olhos em continuo disparo de alerta na minha direcção, encurta a distância entre a sua face e a dos restantes elementos para segredar. E nisto, propositadamente, coloca uma das mãos perto da boca, mesmo para eu sentir que cochichavam sobre a minha pessoa. É nestas alturas que um homem se sente um tanto ridículo. Isto porque, vindo da mente feminina, esse arquitecto criativo, inteligente mas por vezes perigoso, para nós claro, nunca sabemos o que pode surgir de onde menos se espera; e logo, nesse preciso momento, senti-me ridículo e um bocado furioso por essa razão.
Só o facto de, após aquela atitude ter sido seguida por risadas a atirar para o histerismo mas em baixo som, deixou-me um bocado irritado. Até parecia que estavam a gozar-me. Portanto, logicamente que, arranquei os olhos de cima da tua figura, contrariado, e continuei beber o café, preparando-me para vingar a minha pequena irritação no pastel de nata que esperava, mais ansioso que tu, para levar uma dentada.
Era desconcertante estar ali. Infelizmente a causa desse transtorno não teve origem na mesma razão anterior à que então decorria. A primeira tinha sido agradável embora perturbadora. E esta nova situação, imprevisível na mesma medida da antecedente, era de um desagradável desconcerto que me meteu deslocado e sem saber ao certo como agir.
As risadinhas não paravam e era impossível não levantar os olhos para ver, por eles mesmos, qual o motivo da risota; aliás, o desenrolar da acção, pois o motivo estava mais que visto que era eu. E como na maioria das vezes a curiosidade é mais forte que o orgulho, eu não consegui conter o olhar sério e cabisbaixo por muito tempo. E quando levo os olhos, assim como quem não quer a coisa, diante da tua imagem estonteante, por mais uma vez, reparo que estás agarrada a uma enorme bola de berlim cheia de creme e açúcar.
A tua postura era completamente oposta à primeira. Contudo, não sei bem porquê, ao contrário de achar igualmente ridículo e digno de troça pela minha parte, nesta nova postura que assumias descaradamente, aquele teu ar de miúda, agora mais evidente que nunca, conseguiu aumentar com maior força e rapidez, os meus níveis de encantamento, anulando assim, a ideia de escárnio que começava a atormentar os meus pensamentos.
Estavas numa provocação cerrada mais as tuas amiguinhas. E todas gozavam o pratinho numa zombaria recíproca, à medida em que fazias coisas com a boca estacada no bolo enorme e, cheio de creme que já caia para cima do prato. Isto tudo com alguma discrição, ainda que não parecessem minimamente preocupadas com o que os outros pudessem pensar.
Na verdade estavas a fazer uma grande chafurdice com o raio do bolo, que nem tinha o aspecto correspondente à ideia que querias transmitir para a tua provocação. Só me apetecia pegar-te por um braço e chamar-te porcazita malvada. Esfregar-te o bolo corpo abaixo, ou substituí-lo por um alimento mais... sugestivo para as tuas brincadeiras atrevidas.
Acabava de dar a última trinca no meu pequeno e inofensivo pastel e tu ali, à minha frente, com olhar de gulosa e desavergonhada, a dares voltas e mais voltas - com os lábios e a língua, que por vezes enfiavas no creme maliciosamente - a um bolo muito diferente do meu.
Confesso que, nestas partes em que enfiavas a língua no creme, com os lábios envoltos nos grãos de açúcar, eu tive de me encostar um pouco à superfície plana, pertencente ao balcão, que tinha à frente da cintura.
Esse contraste de lábios vermelho vivo quase aceso, e o serpentear rosado da tua língua com a consistência amarelada e cremosa que pincelava toda aquela circunstância, fizeram surgir, forçosamente, um volume considerável dentro dos meus jeans, fazendo-me sufocar num desejo explosivo e carnal.
De repente, preocupou-me a ideia de alguém meu conhecido estar a observar, ocasionalmente, o desenrolar de toda esta cena que não teria durado mais de quinze ou vinte minutos. Isto tendo também em conta o período de entrar no estabelecimento, o espaço entre pedido e espera, fazendo referência ao facto de ter bebido o café a conta-gotas substituindo as dentadas no pastel de nata por vagarosas debicadas. Foi uma questão de queimar tempo. Tão simples quanto isso.
Sinceramente, perdi a noção desse tempo enquanto ali estive, disperso, numa torrente de sentimentos tão diferentes na intensidade, qualidade, quantidade e violência. Porque até na doçura dos teus olhos, haviam rasgos de violência. Violência na ideia que, tudo em ti, fosse de bem ou de mal era dito numa só palavra. Intenso.


(Textos de Alexandra Antunes. Fotografias de William Ropp)


O próximo capítulo será editado dia 26, Sábado.

Publicado por void em fevereiro 13, 2005 07:45 AM
Comentários

Deliciei-me com estes capitulos da para matar as saudades da Alex :)
As fotos sao belissimas,apaixonei me pela segunda .Como sempre as optimas escolhas da optima senhora ,beijokas****

Afixado por: Monica em fevereiro 14, 2005 12:24 AM

Duas seguidas já é melhorzito...
E quando são duas com a Alexandra, já é mais que um simples mortal pode desejar.
Não é brejeirice, falo das entradas de texto, que deviam ter um lugar onde estivessem juntas, para nóss saltarmos de uma para outra, voltarmos atrás e voltarmos a salivar, confirmar aquele pormenor que nos atormenta, por estar esquecido nos neurónios já queimados pelo fumo.

Bem hajam.

Afixado por: Gigante monstro horrendo AdamastoR em fevereiro 14, 2005 10:46 AM