
Um autor polémico na escrita. Um realizador (que também foi actor) polémico. Um dramaturgo que não passa igualmente despercebido. Pier Paolo Pasolini, nasceu em Bolonha, Itália em 1922, tendo sido assassinado em Óstia, Roma, em Novembro de 1975, precisamente por ser essa personagem de existência tão incómoda para o pais de então. E era incómodo, acima de tudo, pelas mensagens que passava através das suas obras onde a abordagem, por exemplo, da religião e do sexo foram/são feitas/surgem absolutamente fora dos cânones aceites na época. Registe-se que estes recursos temáticos (ou sub-temáticos) eram/foram feitos com objectivos muito determinados, inclusive, com intenções políticas e de análise/interpretação social claras.
Alguns dos seus filmes: "O Evangelho segundo S. Mateus" (1964), "Teorema" (1968), "Medeia" (1970), "Decameron" (1971), "Os contos de Cantuária" (1972), "As mil e uma noites" (1974), "Saló ou os Cento e vinte dias de Sodoma" (1975).
Peças escritas (destacam-se): "Afabulação" (1966), "Orgia" (1969) e "Calderon" (1973).
Tem ainda obras escritas em Prosa e Verso.
Segue-se a edição de um excerto da peça "Afabulação". Quanto a esta: uma reflexão sobre o mundo, sobre a vida e sobre o conhecimento que os homens têm das coisas/das realidades, de si próprios, assim como dos outros (inclusive em termos geracionais). Da mesma forma, o homem face aos valores e sua mutabilidade (ou imutabilidade). Em destaque, aqui: a relação entre um pai e um filho. Uma tragédia.
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PAI
Aaaaaah, aaaaaaah,
aaaaaaaaaaaaah!
SOMBRA DE SÓFOCLES
Apareço-te no fundo desse lamento.
Deve ser a febre das feridas.
Deixas de te lamentar
e eu desapareço; depois, voltas a lamentar-te
e eu volto a aparecer.
Vou e venho, veloz como um raio,
suspenso no fundo do teu lamento,
pobre homem esfaqueado.
PAI
Aaaaaaah! E porquê?
SOMBRA DE SÓFOCLES
Para te dar explicações
acerca do que é.
PAI
Pois bem, escuto-te...
SOMBRA DE SÓFOCLES
Escrevi tragédias
como tu bem sabes - porque as lestes em estudante.
Portanto, como homem de teatro, não é a ti que falo,
mas à tua personagem:
a esse homem febril
que teimosamente se lamenta.
Venho, de facto, trazer-te notícias
de outras personagem...
e essa personagem...
e essa personagem
é um rapaz... um rapaz...
PAI
Oh, amigo, sim, fala-me dele... É por acaso
ele quem te envia?
(...)
SOMBRA DE SÓFOCLES
Bem: tu tentas decifrar o enigma
do teu filho. Mas ele não é nenhum enigma.
O problema é esse.
(...)
PAI
E então? Diz-me qual é essa verdade,
que a tua razão conhece!
SOMBRA DE SÓFOCLES
Infelizmente, não é uma verdade
da razão: a razão
serve, de facto, para decifrar os enigmas...
Mas o teu filho - o problema é esse, repito -
não é nenhum enigma.
O teu filho é um mistério.
(...)
Tu também decifraste
os teus pequenos enigmas
e a tua vida avançou
e o teu poder aumentou.
Portanto, talvez tenha sido por hábito
(no mundo só existe
o poder, o dinheiro e a vitória...)
que achaste que o teu filho
também era um enigma. E começaste,
cheio de boa vontade, a decifrá-lo.
E, se ele fosse um enigma,
tê-lo-ias certamente decifrado.
Ou por intermédio da religião
ou por intermédio da loucura
ou, por fim, como era mais provável,
por intermédio, mesmo da razão. Eu não,
mas tu,
tu, tens o culto da razão.
E é de facto através dela, repito,
que se decifram os enigmas
que malditamente juncam o terreno
entre o homem e o seu poder sobre a realidade. (...)
Diz-me lá! De que serviu ao meu Édipo
decifrar o enigma? Para conquistar o poder?
Conquistou-o e perdeu-o.
E o que eu quero sublinhar é que o perdeu
sem ter sabido nada do mistério.
(...)
PAI
Volta ao meu filho!
SOMBRA DE SÓFOCLES
Se eu tivesse sido apenas um poeta,
explicar-te-ia só com palavras.
Mas eu sou mais do que um poeta; por isso
as palavras não me bastam; tens de ver
o teu filho como no teatro; tens de completar
a evocação da palavra com a presença dele,
em carne e osso, e mesmo nu, a fazer amor
- ou alguém parecido com ele, mas também
em carne e osso - com os seus membros desnudados.
Tens de o ver, não só de o ouvir;
não só ler o texto que o evoca,
mas tê-lo a ele à tua frente. O teatro
não evoca a realidade dos corpos só com as palavras
evoca-a também com esses mesmos corpos...
PAI
E depois?
SOMBRA DE SÓFOCLES
O homem só se apercebeu da realidade
quando a representou.
E nada melhor do que o teatro a pôde alguma vez representar.
(...)
PAI
Sim, sim, está bem, tens razão, condena-me, mas diz-me:
o meu filho é portanto a realidade,
a realidade que me escapa: mas uma realidade concreta, que não o é
se não se representa
em toda a sua insuportável violência.
SOMBRA DE SÓFOCLES
É mais ou menos isso.
PAI
E eu não devo decifrá-la, porque não é nenhum enigma:
mas conhecê-la - ou seja, tocá-la, vê-la e senti-la -
porque é um mistério.
(...)
PAI [posteriormente, para o Ferroviário]
(...)
O período de que te falo é de facto uma época;
a época em que o meu filho era jovem.
Os hábitos tinham mudado, a mentalidade era
diferente (dizia-se): havia também
uma luz diferente no ar, eu sei,
porque as primaveras já não eram as velhas
primaveras camponesas em torno das oficinas; os campos
já não estavam humildemente cobertos de vegetação,
coroados de salgueiros e de choupos, salpicados de prímulas.
Mas isto é conversa fiada. O estranho é
que o meu filho parecia saber desde sempre todas estas coisas
que eram para mim uma grande novidade.
E esse saber dava-lhe direitos,
e esses direitos, o mistério...
Tu sabes, não sabes, Cagarola, mas vamos resumir: os pais
querem que os filhos morram (por isso os mandam para a guerra) e os filhos querem matar os pais
(por isso, por exemplo, protestam contra a guerra,
e desprezam, cheios de altivez, a sociedade dos velhos que a quer). Pois bem, eu,
não queria matar o meu filho...
queria ser morto por ele!!
Não te parece estranho?
E ele, não queria matar-me
- ou deixar-se matar
cheio de boa vontade e resignado
como todos os jovens obedientes -
não queria matar-me nem deixar-se matar!!
Nem uma coisa, nem outra, percebes, Cagarola?
Não queria saber de mim,
nem de todas as mortes, antigas e novas,
que ligam um pai e um filho...
Depois tinha-se libertado de tudo,
saía de casa, fazia o que queria,
ignorava-me, fugia-me, estava sempre não sei onde.
Se isto era o futuro, era totalmente imprevisível.
Que futuro? Tu pensarás, talvez, que se trata de um futuro já passado.
Que eu vejo as coisas parado num momento
que tem um valor absoluto, o perigo antes da guerra,
a guerra, o pós-guerra, os Anos Cinquenta.
Para mim, de facto, não é a sequência que conta,
confundo os decénios uns com os outros; e o antes
e o depois, na minha historiografia,
obedecem a leis poéticas.
Mas só sou louco quando quero.
A sinopse da relação entre pai e filho
com que concluí o meu afabular solitário
é válida para o presente real;
e o futuro imprevisível que me armou a mão
é mesmo este, o do decénio que vivemos.
Fez desaparecer o passado,
e, prematuramente, domina os homens.
Os homens vivem-no com inconsciência,
sentindo-o na realidade mais como morte
de valores passados do que como nascimento de valores novos.
Isso humilha-os, e fá-los regredir
a impiedades infantis.
Foi isso que, na realidade, me tornou assassino de um filho abúlico, anacronicamente
inocente (a morte que se trate
de uma inocência humanamente nova).
(Pier Paolo Pasolini- AFABULAÇÃO. Fotografia: o autor em destaque)
Diferentemente do que estava de início pensado esta semana dedicada ao Teatro vai prolongar-se ainda mais. Pela boa receptividade havida, traduzida no número de visitas diárias aqui ao Abismo, apostei na continuação da edição de textos dramáticos durante toda a próxima semana. Continuo a contar convosco até porque... vão haver novidades em termos de formatos e interpretações da minha parte relativamente ao verificado até agora. Fiquem atentos!
Publicado por void em fevereiro 12, 2005 08:03 AM