Jean-Luc Lagarce é o dramaturgo que vos apresento hoje. Nascido em França no ano de 1956, faleceu em Setembro de 1995 com SIDA. Lagarce foi também encenador e co-fundador da companhia "Le Théâtre de la Roulotte" (finais da década de 70 do século passado), que levou (e leva) à cena para além dos seus próprios textos, autores como Kafka, Ionesco, Molière ou Wedeking.
Destaco as seguintes peças da sua autoria: "Tão só o fim do mundo", "As regras da arte de bem viver na sociedade moderna" e "Estava em casa e esperava que a chuva viesse".
Apresento, de seguida, um excerto de "Tão só o fim do mundo", estreada em Portugal no passado mês de Janeiro pelos Artistas Unidos.
Dão vida à peça as seguintes personagens: Luís (34 anos), Susana (sua irmã, 23 anos), António (irmão destes, 32 anos), Catarina (mulher de António, 32 anos) e a Mãe (mão de Luís, António e Susana, 61 anos). Conteúdo: Luís vai ao encontro da família para comunicar a sua morte próxima. Dado que a separação entre eles é já bastante longa, o reencontro vai pautar-se por recordações, cobranças, desentendimentos... fazendo com que o objectivo da viagem de Luís não se concretize. Do mesmo, só o público que assiste à peça, tem desde o início conhecimento.
As intervenções de Susana e da Mãe, são, pois exemplo de todo o ambiente criado.
LUÍS
Mais tarde, no ano seguinte
- era a minha vez de morrer -
tenho quase trinta e quatro anos e foi com esta idade
que morri,
no ano seguinte,
há vários meses que esperava sem fazer nada,
a disfarçar, sem saber mais nada,
há vários meses que esperava ter acabado com isto,
no ano seguinte,
como quando às vezes ousamos mexer-nos,
quase nada,
perante um perigo extremo, imperceptivelmente, sem
querer fazer barulho ou arriscar um gesto demasiado violento que
acordaria o inimigo e nos destruiria de imediato,
no ano seguinte,
apesar de tudo,
o medo,
assumindo o risco e sem nunca ter esperança de sobreviver,
apesar de tudo,
no ano seguinte,
decidi voltar a vê-los, procurar as minhas pisadas,
repisar os meus passos e fazer a viagem,
para anunciar, lentamente, com cuidado, com cuidado e
precisão
- acho eu-
lentamente, calmamente, de forma ponderada
- e não fui sempre para os outros e para eles, em particular, não fui sempre um homem ponderado?,
para anunciar,
dizer,
apenas dizer,
a minha morte próxima e irremediável,
ser eu próprio a anunciá-lo, ser o seu único mensageiro,
e parecer
- talvez o que sempre quis, o que sempre quis e decidi, em
todas as circunstâncias e desde os tempos mais longínquos
que ouso
recordar -
e parecer uma vez mais poder decidir,
dar a mim próprio e dar aos outros, e a eles, em particular,
tu, vocês, ela, e ainda os que não conheço (tarde demais, paciência),
dar a mim próprio e dar aos outros uma última vez a ilusão
de assumir a responsabilidade dos meus actos e de ser,
até ao limite, senhor de mim mesmo.
(Passa-se em casa da Mãe e de Susana, um domingo, evidentemente, ou ainda ao longo de quase um ano inteiro.)

SUSANA
Veio de taxi
Estava atrás da casa e ouço um carro,
pensei que tinhas comprado um carro, nunca se sabe, seria
lógico.
Estava à tua espera e o barulho do carro, do taxi, soube imediatamente que estavas a chegar, fui ver, era um taxi,
vieste de taxi desde a estação, era o que eu tinha dito, não tem sentido, podia-te ter ido buscar,
tenho carro próprio,
se me tens telefonado hoje, teria ido imediatamente
ao teu encontro,
só tinhas de avisar e esperar por mim num café.
Eu tinha dito que tu ias fazer isto,
eu disse-lhes
que tu ias apanhar um taxi,
mas eles acharam todos que tu sabias o que tinhas a fazer.
A MÃE
Fizes-te boa viagem? Não te perguntei.
LUÍS
Estou bem.
Não tenho carro, não.
Tu, como é que estás?
ANTÓNIO
Estou bem.
Não é uma viagem longa, não exageremos.
(...)
SUSANA
Quando te foste embora
- não me lembro de ti -
não sabia que te ias embora por tanto tempo, não me apercebi,
não prestava atenção,
e dei comigo sem nada.
Esqueci-me bastante depressa.
Era pequena, novinha, é o que dizem, era pequena.
Não é bom que te tenhas ido embora,
que te tenhas ido embora por tanto tempo,
não é bom e não é bom para mim
e não é bom para ela
(ela não te vai dizer nada)
e, de certa forma, também não é bom para eles, para o António e para a Catarina.
Mas também,
- acho que não me engano-
mas também não deve ser, não deve ter sido, não deve ser
bom para ti,
para ti também não.
Às vezes deves ter,
mesmo que nunca o reconheças,
mesmo que nunca o devas reconhecer
- e é de reconhecimento que se trata -
às vezes também deves ter
(é o que eu digo)
também deves,
às vezes deves ter precisado de nós e deves ter lamentado
não nos poderes dizer nada. (...)
Às vezes enviavas-nos cartas,
às vezes envias-nos cartas,
não são bem cartas, são o quê? pequenas mensagens, são só pequenas mensagens, uma ou duas frases, nada, como é
que se diz?
elípticas.
"Às vezes enviavas-nos cartas elípticas". (...)
Estas pequenas mensagens
- as frases elípticas -
estas pequenas mensagens vêm sempre escritas em postais
(temos, hoje, uma colecção invejável)
como se desta forma quisesses dar a entender que estás sempre em férias,
não sei, era o que eu achava,
ou ainda como se, antecipadamente,
quisesses reduzir o lugar que nos virias a reservar
e oferecer a todo e qualquer olhar as mensagens sem importância
que nos envias.
"Estou bem e espero que vocês também estejam." (...)

A MÃE
(...)
Eles querem falar contigo, essas coisas,
foi o que eu ouvi,
mas também os conheço
sei muito bem
como podia não saber?
Se não tivesse ouvido, podia muito bem adivinhar,
Acabaria por adivinhar, ia dar ao mesmo.
Eles querem falar contigo,
souberam que voltavas e acharam que iam poder falar contigo,
têm um certo número de coisas para te dizer desde há muito tempo e finalmente uma ocasião.
Vão-te querer explicar, mas vão explicar mal,
porque eles não te conhecem, ou mal.
A Susana não sabe quem tu és,
isto não é conhecer é imaginar,
imagina sempre e nunca sabe nada da realidade,
e ele, o António,
o António é diferente,
conhece-te, mas à maneira dele como conhece tudo e toda
a gente,
como conhece ou como quer conhecer cada coisa,
tendo lá a sua ideia e nunca dando o braço a torcer. (...)
Mal chegaste,
eu vi-te,
mal chegaste pensaste logo que estavas a cometer um erro e preferias ir-te embora imediatamente,
não me digas nada, não me digas o contrário - vais assustá-los
(isto também é medo)
vão ter medo de terem pouco tempo e vão insistir
desajeitadamente,
e vai ser tudo dito de qualquer maneira ou demasiado
depressa,
de uma forma demasiado abrupta, o que vai dar ao mesmo, e brusca,
porque eles são bruscos, sempre foram e continuam a ser, e duros também,
é a maneira de ser deles,
e tu não vais entender, sei como tudo vai acontecer e como
aconteceu sempre.
Vais responder apenas com duas ou três palavras
e vais ficar calmo como tu próprio aprendeste a ficar
- não fui eu nem o teu pai,
o teu pai ainda menos,
não fomos nós que te ensinámos essa forma tão hábil e tão detestável de ser calmo em todas as circunstâncias, não me lembro disso
ou não sou responsável -
vais responder apenas com duas ou três palavras,
ou vais sorrir, é a mesma coisa,
vais-lhes sorrir
e a única coisa de que se vão lembrar,
depois, a seguir, mais tarde,
à noite quando adormecerem,
a única coisa de que se vão lembrar é desse sorriso,
é a única resposta que vão querer guardar,
e é esse sorriso que eles vão discutir e voltar a discutir,
não vai mudar nada, bem pelo contrário,
e esse sorriso vai agravar as coisas entre vocês,
vai ser como o rasto do desprezo, a pior das feridas. (...)
Ambos gostavam que tu estivesses mais por cá,
mais presente
mais vezes presente,
encontrarem-te, telefonarem-te,
zangarem-se contigo e reconciliarem-se e perderem o respeito,
esse famoso respeito obrigatório para com os irmãos mais velhos,
ausentes ou estranhos. (...)
Pequeno sorriso?
Apenas "duas ou três palavras"?
(...)
LUÍS
Depois, o que faço,
é ir-me embora.
Nunca mais volto. Morro alguns meses mais tarde,
um ano no máximo.
(...)
(Jean-Luc Lagarce- TÃO SÓ O FIM DO MUNDO. Fotografias resultantes das representações dos Artistas Unidos)
{ ... venho aqui em silêncio [quase sempre; descalço] e grito … e leio em voz alta … e profundo [realço] que gosto e aqui me sinto © de[mente] ... }{ beijos* e bom fds }
Afixado por: de[mente] em fevereiro 12, 2005 12:31 AMLeio, sinto e quase esqueço.. deito, durmo, acordo e, curiosamente, relembro. Gosto do Luís: "Nunca mais volto. Morro alguns meses mais tarde..." É tão trágico, definitivo, e, simultaneamente, apelativo. Beleza, beleza... Bom fim de semana, Sandra..
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Também eu aqui venho regularmente ler o que escolhes e divulgas. Por vezes não comento. Levo comigo as sugestões e enriqueço-me em conhecimento. Como hoje. Beijinhos, Sandra.
Afixado por: lique em fevereiro 13, 2005 04:25 PM