
Originários da Rússia, Vladímir Presniakov (n. 1974) e Oleg Presniakov (n. 1969) têm já (apesar das suas idades) um currículo bastante razoável no que respeita a peças da sua autoria, peças estas que têm sido representadas, para além da Rússia, em Inglaterra, Polónia, Sérvia, Alemanha, Itália, Austrália, Suécia, mas também em Portugal.
No nosso país as representações tiveram lugar pelas mãos dos Artistas Unidos, em particular "Terrorismo" (peça datada de 2000) e "No papel da vítima" (peça datada de 2002), no passado ano de 2004.
Edito seguidamente um excerto de "Terrorismo", peça em seis actos, cada um deles referindo-se a uma situação onde o Medo, a Morte e o medo da Morte estão bastante presentes, transmitindo a ideia que o Terrorismo (através de uma abordagem mais alargada/diferenciada) está em toda a parte, através das mais diversas manifestações. Desde os espaços de carácter público, aos espaços de carácter privado, onde as nossas casas são o exemplo mais significativo, situações que remetem para o Medo e para a Morte (e para a relação entre ambos) são um lugar por demais comum, sendo nós mais ou menos capazes de consigo lidar.
_________________
Espaço asfaltado em frente da entrada do aeroporto. Em vez dos carros que normalmente estacionam neste lugar, acomodaram-se, sentados nos sacos e malas, numerosos passageiros. Pelas figuras, tristonhas e curvadas, e pelos rostos, com aquela expressão parada de desespero submisso e de histeria reprimida, pode-se adivinhar que estão aqui há muito tempo. Os coitados tinham vindo para o aeroporto com a finalidade de viajarem, segundo as necessidades de cada qual (...). Alguma coisa, porém, baralhou de repente os seus planos e obrigou-os a não passarem do sinistro estacionamento asfaltado, qual autêntica ilha do azar, e a imobilizar-se aqui mesmo.
A seguir a este espaço, defronte da fachada envidraçada do edifício, estende-se um cordão de militares fardados. É este cordão à vista de todos que, por certo, impede os passageiros de embarcar. (...)
HOMEM FARDADO- Aeroporto encerrado.
PASSAGEIRO- Desculpe?
HOMEM FARDADO- Aeroporto encerrado.
PASSAGEIRO- Mas o meu voo é daqui a vinte minutos.
HOMEM FARDADO- Documentos.
PASSAGEIRO- Faça o favor, bilhete, passaporte... (Apressa-se a entregar ao militar o bilhete e o passaporte; este estuda-os, depois devolve-lhos.)
HOMEM FARDADO- Aeroporto encerrado
PASSAGEIRO- Então como é que eu embarco?
O HOMEM FARDADO guarda silêncio e olha concentrada e severamente como que através do PASSAGEIRO.
PASSAGEIRO- Ouça, deve estar cansado de explicar a toda a gente porque é que não deixam entrar ninguém... mas, bem vê, eu é que não estou ao corrente. Comprei o bilhete há uma semana e ninguém me avisou que podiam cancelar tudo assim de repente porque o aeroporto encerrou sem pré-aviso. Acho que as minhas perguntas são perfeitamente legítimas, faça o favor de responder...
HOMEM FARDADO- Bomba no aeroporto. Todos os voos foram adiados por tempo indeterminado. Quando for concluída a operação de desarme, o senhor pode entrar no aeroporto.
PASSAGEIRO- Entro no aeroporto, pois - mas aí já não fará sentido nenhum... Olha que esta... bomba no aeroporto... Pois, e quando é que vocês acabarão...? Hummm... Mas porquê? (O PASSAGEIRO murmura mais qualquer coisa, afastando-se do militar e sentando-se em cima da sua mala, perto de outras pessoas à espera.)
PASSAGEIRO (para o vizinho do lado, sentado numa mala axadrezada)- Sabe o que se passa aqui?
SEGUNDO PASSAGEIRO (olha para o céu, franze os olhos)- Claro que sei... há uma suspeita de bomba no aeroporto...
PASSAGEIRO- Para quê? Quer dizer que... devia chegar alguém, ou partir... alguém assim muito... sei lá, que pudesse sofrer um atentado... um político, um cientista?
SEGUNDO PASSAGEIRO (...)- O senhor é político?
TERCEIRO PASSAGEIRO- Não.
SEGUNDO PASSAGEIRO- Cientista?
TERCEIRO PASSAGEIRO- Não.
SEGUNDO PASSAGEIRO- Estranho, porque o senhor, aqui, é o único a dar mais ou menos um ar de político ou cientista...
TERCEIRO PASSAGEIRO- Porquê?
SEGUNDO PASSAGEIRO- Porque não tem bagagem.
TERCEIRO PASSAGEIRO- E depois?
SEGUNDO PASSAGEIRO- Não tem bagagem, o que significa que não se preocupa com nada - alguém lha vai trazer, ou então, de uma maneira geral, não precisa dela porque anda de tal modo assoberbado com a política ou a ciência que não pensa em mais nada...
TERCEIRO PASSAGEIRO- E não penso, é verdade, mas não sou político nem cientista.
SEGUNDO PASSAGEIRO- E o senhor é digno de um atentado?
TERCEIRO PASSAGEIRO- Não sei...
SEGUNDO PASSAGEIRO- Bom, e acha que podia ser por sua causa que eles puseram uma bomba no aeroporto?
TERCEIRO PASSAGEIRO (nervosamente)- Porque é que acha que há uma bomba no aeroporto?
SEGUNDO PASSAGEIRO (com ironia)- Adivinhei.
PASSAGEIRO- Pelo menos foi o que disseram os militares...
SEGUNDO PASSAGEIRO e TERCEIRO PASSAGEIRO (juntos)- Os militares disseram?
PASSAGEIRO- Foi, disseram ainda agora...
TERCEIRO PASSAGEIRO- Por mim, não os ouvi dizerem nada disso... Só sei que alguém deixou a bagagem na pista de aterragem. Agora estão os sapadores a ver se descobrem o que é que tem dentro. Enquanto isso, os voos estão cancelados e fecharam o aeroporto...
PASSAGEIRO- E tudo isso por causa de uma bagagem qualquer?!
TERCEIRO PASSAGEIRO- Pois claro... Uma bagagem qualquer! Pode haver lá dentro tudo o que se queira. Podemos ir todos pelos ares. Aliás, é muito ingénuo pensar que puseram uma bomba no aeroporto por causa de um político ou de um cientista. Foi por causa de nós, de todos nós que estamos aqui sentados, porque quando morre gente inocente, pessoas simples, que não se destacam em nada - isso é ainda mais assustador do que morrer um homem importante. Quando morrem pessoas normais, sabem, principalmente com muita frequência e em número elevado... quando não morrem na guerra mas nas suas próprias casas, nos aviões, ou a caminho do trabalho, então, no Estado, muda tudo automaticamente, e os políticos com a sua política inútil, e os cientistas com a sabedoria deles, vai tudo a pique...
PASSAGEIRO- A pique?...
TERCEIRO PASSAGEIRO- Sim, a pique, porque nada nem ninguém pode governar um mundo em que morrem tantas vezes pessoas normais - tantas vezes e em tão grande número...
SEGUNDO PASSAGEIRO- Para que é que é preciso caçar os figurões bem protegidos se é possível matar a ideia e o sentido com tanta facilidade - é que ninguém protege isso... A ideia e o sentido da vida inteira está nas pessoas, em todos nós, mas a nós ninguém protege! Mesmo agora, estão a guardar o aeroporto, e não a nós!
TERCEIRO PASSAGEIRO- É sempre a mesma coisa, quem sofre é o inocente...
SEGUNDO PASSAGEIRO- Pois, o inocente é que sofre... (Ao pronunciarem estas frases, o TERCEIRO PASSAGEIRO e o SEGUNDO PASSAGEIRO abanam as cabeças com afectação.)
TERCEIRO PASSAGEIRO- Embora toda a gente tenha algumas culpas no cartório de uma maneira ou de outra...
SEGUNDO PASSAGEIRO- O que não é motivo para pôr bombas a toda a gente!
PASSAGEIRO- Esperem... Porque é que acham que há-de haver explosivos na bagagem?
SEGUNDO PASSAGEIRO- Estão precisamente a investigar isso agora, e nós não achamos nada, nós só estamos a raciocinar, enquanto eles (aponta para os militares do cordão) estão a investigar...
TERCEIRO PASSAGEIRO- De qualquer maneira... aquilo já explodiu.
SEGUNDO PASSAGEIRO- Sim. Sim. Explodiu.
PASSAGEIRO- Como? (Olha teatralmente à sua volta.) Então onde está o fumo, os estilhaços, os escombros? Onde?
SEGUNDO PASSAGEIRO- Está tudo no interior.
PASSAGEIRO- No interior?
SEGUNDO PASSAGEIRO- Sim, no interior de todos os que estão aqui sentados - e no interior de todos aqueles ali, os que não nos deixam entrar (aponta para os militares)... Os que estão ali a fazer o cordão... foram arrancados de qualquer coisa... de uma vida lá deles... obrigaram-nos a esta preocupação, a enervar-se, e apesar de fingirem que não têm medo, percorre-os um calafriozinho, uma correntezinha de ar viscosa... de vez em quando não o podem evitar, eu bem vejo... Aqui, já despedaçaram alguma coisa em toda a gente, já levaram toda a gente a pensar noutras coisas... O que vamos fazer com isto?! O quê?!
(...)
(Irmãos Presniakov- TERRORISMO. Fotografias: Vladímir e Oleg no Teatro Taborda- Lisboa.)
Também não conhecia. O que eu tenho aprendido contigo. Obrigada pela partilha Sandra. Beijinho grande e um bom dia para ti ;)
Afixado por: Micas em fevereiro 10, 2005 06:53 AM