fevereiro 09, 2005

CALÍGULA ("UMA SEMANA NO TEATRO"- 2)

Pensador, escritor e dramaturgo francês, Albert Camus nasceu na Argélia em 1913, vindo a morrer num acidente de viação em 1960, numa viagem de regresso a Paris. Licenciado em Filosofia, acabou por enveredar pelo Jornalismo e foi premiado no ano de 1957 com o Prémio Nobel da Literatura.
O seu trabalho como dramaturgo distingue-se pelas obras originais e pelas adaptações. Inseridas na primeira vertente temos as peças "Calígula", "O equívoco", "Estado de sítio" e "Os justos". Ao nível das adaptações temos: "A devoção à cruz", "Os espíritos", "Requiem por uma freira", "O cavaleiro de Olmedo", "Os possessos".

Apresento, seguidamente, um excerto da peça "Calígula" (versão conhecida do público, impressa em 1944 e estreada em 1945). Peça que aborda as questões da Felicidade, da Liberdade e do Poder. No âmbito deste último, aquelas que podem ser as deturpações, incompreensões e equívocos. Mas aborda também o Poder como móbil para a descoberta da ausência de limites interiores, nomeadamente no que respeita à destruição que é possível causar... ou que através de si pode causar. Uma reflexão sobre o Homem e sobre aqueles que podem ser os seus extremos. Uma reflexão sobre a Loucura. Uma reflexão sobre o Absurdo. Uma reflexão sobre o Destino.

(A cena fica vazia durante alguns segundos. Calígula entra furtivamente pela esquerda. Tem um ar alucinado, está sujo, os seus cabelos estão empapados de água e as suas pernas enlameadas. Leva várias vezes a mão à boca. Caminha para o espelho e detém-se, assim que apercebe nele a sua própria imagem. Balbucia palavras indistintas, depois vai-se sentar à direita, os braços caídos entre os joelhos separados. Helicon entra pela esquerda. Vendo Calígula, pára na extremidade da cena e observa-o em silêncio. Calígula volta-se e vê-o. Pausa.)

HELICON, atravessando a cena- Bom dia, Caius.

CALÍGULA, naturalmente- Bom dia, Helicon. (Silêncio.)

HELICON- Pareces fatigado.

CALÍGULA- Andei muito.

HELICON- Sim, a tua ausência foi longa. (Silêncio.)

CALÍGULA- Era difícil de encontrar.

HELICON- O quê?

CALÍGULA- O que queria.

HELICON- E que querias tu?

CALÍGULA- A Lua.

HELICON- O quê?

CALÍGULA- Sim, eu queria a Lua.

HELICON- Ah! (Silêncio. Helicon aproxima-se.)

CALÍGULA- Bem!... É uma das coisas que não tenho.

HELICON- Claro. E agora, está tudo em ordem?

CALÍGULA- Não, não a posso ter.

HELICON- É aborrecido.

CALÍGULA- Sim, é por isso que estou cansado. (Pausa) Helicon!

HELICON- Diz, Caius.

CALÍGULA- Pensas que estou doido.

HELICON- Bem sabes que nunca penso. Sou demasiado inteligente para isso.

CALÍGULA- Já sei. Enfim! Não estou doido, parece-me mesmo que nunca fui tão razoável. Simplesmente, senti de repente necessidade do impossível. (Pausa) As coisas, tal como são, não me parecem satisfatórias.

HELICON- É a opinião geral.

CALÍGULA- É a verdade. Até há pouco tempo, eu não a sabia. Agora, sei. (Sempre natural.) Este mundo, tal como está feito, não é suportável. Tenho, portanto, necessidade da Lua, ou da felicidade, ou da imortalidade, de qualquer coisa de demente, talvez, mas que não seja deste mundo.

HELICON- É uma razão de peso. Mas, geralmente, não podemos conservá-la até ao fim.

CALÍGULA, levantando-se com a mesma simplicidade - Que sabes tu disso? É porque nunca a conservamos até ao fim, que nada se alcança. Mas é possível que talvez baste continuarmos lógicos até ao fim. (Olha Helicon.) Li o que estás a pensar. Quantas histórias por causa da morte de uma mulher! Não, não é isso. Suponho recordar-me, é verdade, de ter morrido há alguns dias uma mulher que amava. Mas, o que é o amor? Pouca coisa. Juro-te que esta morte não quer dizer nada, apenas significa uma verdade que torna a Lua necessária. Uma verdade muito simples e muito clara, talvez um pouco estúpida, mas difícil de descobrir e pesada de suportar.

HELICON- E qual é, então, essa verdade, Caius?

CALÍGULA, lasso, num tom lento- Os homens morrem e não são felizes.

HELICON- Ora, Caius, toda a gente passa bem sem essa verdade. Olha à tua volta. Não é ela que nos impede de almoçar.

CALÍGULA, subitamente, numa explosão - Então, é porque tudo à minha volta é mentira, e eu, eu quero que se viva na verdade! E, justamente, tenho meios para os obrigar a viverem na verdade. Porque eu sei o que lhes falta, Helicon. Eles estão privados do conhecimento, porque lhes falta um professor que conheça aquilo que ensina.

HELICON- Não te ofendas com o que te vou dizer, Caius. Acho que, em primeiro lugar, devias ir repousar.

CALÍGULA, sentando-se e falando docemente- Não posso, Helicon, já não posso.

HELICON- Porquê?

CALÍGULA- Se durmo, quem me dará a Lua?

HELICON, após uma pausa- É verdade. (Calígula levantou-se com um esforço visível.)

CALÍGULA- Escuta, Helicon. Ouço passo e vozes. Cala-te e esquece que me viste.

HELICON- Entendido. (Calígula dirige-se para a saída. Volta-se.)

CALÍGULA- E, se fazes favor, ajuda-me de hoje em diante.

HELICON- Não tenho razões para o não fazer, Caius. Mas, das muitas coisas que sei, poucas te interessam. Logo, em que posso eu ajudar-te?

CALÍGULA- No impossível.

HELICON- Farei o possível.

(...)

CESÓNIA- Choras?

CALÍGULA- Sim, Cesónia.

CESÓNIA- Enfim, mudou alguma coisa? Se amavas Drusilla, também me amavas a mim e a muitas outras. Não havia razão para que a sua morte te fizesse correr três dias e três noites pelos campos e te trouxesse agora com esse ar hostil.

CALÍGULA, voltando-se - Quem fala de Drusilla, doida? Não podes imaginar que um homem chore por outra coisa, a não ser por amor?

CESÓNIA- Perdão, Caius. Procuro compreender.

CALÍGULA- Os homens choram porque as coisas não são como deviam ser. (Ela avança para ele.) Não me toques. (Ela recua.) Mas fica ao pé de mim. (...) Que me interessa ter firmeza nas mãos, para que me serve esse poder tão espantoso, se não posso alterar a ordem das coisas, se não posso fazer com que o Sol se ponha a Oriente, e com que decresça o sofrimento, se não posso impedir os seres de morrerem? Não Cesónia, não podendo agir sobre a ordem do mundo, é indiferente que durma ou continue acordado.

CESÓNIA- Mas isso é querer igualar-se aos deuses. Não há pior loucura.

CALÍGULA- Também tu me julgas louco. E, no entanto, o que é um deus, para que deseje igualar-me a ele? Está para além dos deuses o que hoje desejo, com todas as minhas forças. Tomo de assalto um reino, onde impera o impossível.

(...)

CALÍGULA- E quem te disse que não sou feliz?

CESÓNIA- A felicidade é generosa. Não vive de destruições.

CALÍGULA- Então é porque há duas espécies de felicidade, e eu escolhi a dos assassinos. Porque sou feliz. Houve um tempo em que pensei atingir o limite da dor. Pois bem: pode-se ir mais longe ainda! No fim dessas paragens existe uma felicidade estéril e magnífica. Olha-me: (Ela olha-o.) Eu rio-me, Cesónia, quando penso que, durante anos e anos, Roma inteira evitou pronunciar o nome de Drusilla. Porque Roma se enganou durante anos e anos. O amor não me basta: é isto que acabo de compreender. É isso que eu vejo hoje mesmo, ao contemplar-te. Porque amar alguém, é aceitar envelhecer com esse alguém. Eu não sou capaz desse amor. Drusilla velha, seria bem pior que Drusilla morta. Julga-se que um homem sofreu porque lhe morreu um dia o ser amado. Mas o seu verdadeiro sofrimento não é tão fútil: é perceber que nem sequer o desgosto dura! Até a dor não faz sentido.
Bem sabes que não tinha desculpas, nem mesmo a sombra de um amor, nem a amargura da melancolia. Não tenho alibi. Mas hoje, eis-me ainda mais livre do que há anos era, liberto que estou da memória e da ilusão. (Ri apaixonadamente.) Sei que nada dura! Oh! Saber isto! Fomos só dois ou três, na história, que tivemos a verdadeira experiência disto, que pudemos atingir esta felicidade demente. Cesónia: seguiste, até ao fim, uma tragédia bastante curiosa. É tempo de cair sobre ti a cortina. (Passa dee novo por trás dela e passa-lhe o antebraço à volta do pescoço.)

CESÓNIA, apavorada- A felicidade é, portanto, essa liberdade espantosa?

CALÍGULA, apertando-lhe a pouco e pouco o pescoço- Podes ter a certeza, Cesónia. Sem ela, eu teria sido um homem satisfeito. Graças a ela conquistei a divina clarividência do solitário. (Exalta-se cada vez mais, estrangulando Cesónia a pouco e pouco, enquanto ela se abandona sem resistir, com as mãos abertas para a frente; e fala-lhe debruçado sobre o ouvido.) Vivo, mato, exerço o poder delirante do destruidor, ao pé do qual o do Criador parece uma macaquice. É isso ser feliz. É isso a felicidade, essa insuportável libertação, esse desprezo universal, o sangue, o ódio em meu redor, esse isolamento sem par do homem que põe toda a sua vida diante de si, a alegria desmedida do assassino impune, essa lógica implacável que rebenta as vidas humanas (ri), que te destrói, Cesónia, para perfazer, enfim, a solidão eterna que desejo.

(...)

CALÍGULA- À história, Calígula, à história!

(O espelho quebra-se e, nesse instante, entram por todas as portas os conjurados, em armas. Calígula faz-lhes frente, com um riso de louco. O Velho Patrício fere-o pelas costas e Cherea em pleno rosto. O riso de Calígula transforma-se em soluços. Todos o ferem. Num último soluço, Calígula, rindo e estrebuchando, grita:)

CALÍGULA- Ainda estou vivo!


(Albert Camus- CALÍGULA)


Publicado por void em fevereiro 9, 2005 06:36 AM
Comentários

É um prazer enorme encontrar Albert Camus na blogosfera. Thanks to u!!! A rubrica desta semana ainda consegue bater a sua antecessora.
Beijinhos
*A

Afixado por: Alexandre em fevereiro 9, 2005 03:59 PM

Conheço o Camus muito superficialmente, principalmente porque a minha área escolar foi sempre das ciências (Engenharia).
Mas, através da tua selecção, fiquei a saber um pouco mais, o que agradeço.

Gostei muito do comentário que fizeste ao meu penúltimo post. Vê-se que dominas o assunto, do qual eu apenas tenho conhecimento pela rama (aliás, eu não sei quase nada de muitas coisas...).

Beijo grande.

Afixado por: Nilson em fevereiro 9, 2005 06:49 PM

Mas...estará tudo a ver futebol ????
WB e Mocho

Afixado por: whiteball em fevereiro 9, 2005 09:47 PM

Não conhecia! Mas gostei mt :)
Beijinho querida

Cacau

Afixado por: cacau em fevereiro 10, 2005 12:26 AM

O meu exame de Literatura Francesa da faculdade "caiu" exactamente sobre Camus e Malraux. E recordar Camus, foi regressar à minha jeunesse...Só por isso Merci!
E claro, é demasiado importante recordar um escritor como Camus, que continua tão pertinente e actual...

Afixado por: valeria em fevereiro 10, 2005 02:11 AM

Só te posso dizer que estou a adorar esta semana. Gosto imenso de Camus. Beijo

Afixado por: Micas em fevereiro 10, 2005 06:52 AM