fevereiro 08, 2005

LOUCOS POR AMOR ("UMA SEMANA NO TEATRO"- 2)

Sam Shepard nasceu nos EUA em 1943, desenvolvendo o seu trabalho no campo da escrita, da representação e da direcção de actores. No que respeita à escrita esta verifica-se ao nível da prosa mas também ao nível da dramaturgia. Na área da representação Shepard tem lugar quer no Cinema quer no Teatro.
Em Portugal "Loucos por Amor" estreou no Teatro Aberto em Setembro de 1990, voltando a representação a verificar-se em 2003 no Teatro Nacional D. Maria II.
Deixo-vos com um excerto da peça que aborda a estória de duas personagens- Eddie e May- cuja relação passa pelas mais diversas dificuldades, resultando destas a não concretização de um amor que parece estar, desde sempre, condenado ao fracasso. Poder-se-á falar, relativamente aos dois envolvidos, num verdadeiro responsável? A questão fica, pois, em aberto.

EDDIE (sentado, atira a luva para cima da mesa. Pausa curta) May, olha. May! Eu não vou para lado nenhum. Vês? Eu estou aqui. Não me fui embora. Olha. (ela não olha) Não sei porque é que não queres olhar para mim. Tu sabes que sou eu. Quem é que havia de ser? (pausa) Queres um copo de água ou qualquer outra coisa? Hum? (ele levanta-se lentamente, aproxima-se cautelosamente dela, acaricia-lhe a cabeça com suavidade, ela continua quieta) May! Vá lá. Não podes continuar assim. Há quanto tempo é que estás para aí sentada? Queres que eu vá lá fora e te traga alguma coisa? Umas batatas fritas ou qualquer outra coisa? (ela agarra de repente com os dois braços a perna dele que está mais próxima e aperta-a com força, metendo a cabeça entre os joelhos dele) Não me vou embora. Não te preocupes. Eu não me vou embora. Vou ficar aqui. Já te disse. (ela agarra-se ainda com mais força à perna dele, ele fica parado, acaricia-lhe suavemente o cabelo) May? Larga-me, está bem? Querida? Eu meto-te na cama. Queres? (ela agarra-lhe na outra perna e aperta-lhe as duas com força). Vá lá. Meto-te na cama e faço-te um chá quente ou outra coisa qualquer. Queres chá? (ela abana violentamente a cabeça e continua agarrada às pernas dele) Com limão? Ou queres Ovomaltine? May? tu agora largas-me, está bem? (pausa, depois ela empurra-o e volta à sua posição inicial) Agora deita-te e tenta descansar. (ele começa a tentar deitá-la suavemente na cama puxando os cobertores para trás. Ela reage furiosamente, salta da cama e bate-lhe com os punhos. Ele chega-se para trás. Ela volta para a cama e olha para ele, furiosa e zangada)

EDDIE (depois de uma pausa) Queres que eu me vá embora?

(Ela abana a cabeça.)

MAY- Não!

EDDIE- Então o que é que tu queres?

MAY- Cheiras mal.

EDDIE- Eu cheiro mal.

MAY- Cheiras.

EDDIE- Estive dias ao volante.

MAY- Os teus dedos cheiram mal.

EDDIE- A cavalo.

MAY- A rata.

EDDIE- Então, May.

MAY- Cheiram mal, cheiram a dinheiro.

EDDIE- Não vamos começar com essas merdas.

MAY- A rata limpa. Muito limpa.

EDDIE- Sim, está bem.

MAY- Tu sabes que é verdade.

EDDIE- Vim para ver se estavas bem.

MAY- Eu não preciso de ti!

EDDIE- Está bem. (volta-se para sair, pega na luva e na correia) Muito bem.

MAY- Não te vás embora!

EDDIE- Vou-me embora.

(Ele sai pela porta da direita, batendo com ela com toda a força; a porta ressoa.)

MAY (com um grito de angústia) Não te vás embora!

(...)

EDDIE- O que é que eu faço? Hum? O que é que eu vou fazer?

MAY- Tu sabes.

EDDIE- O quê?

MAY- Vais apagar-me da tua vida.

EDDIE- De que é que tu estás a falar?

MAY- Vais apagar-me ou já me apagaste da tua vida.

EDDIE- Porque é que eu havia de querer isso? Estás parva?

MAY- Porque eu estou a atrapalhar.

EDDIE- Não sejas estúpida.

MAY- Sou mais esperta do que tu e tu sabes. Sei adivinhar os teus pensamentos mesmo antes de tu os pensares.

(Eddie vai ao longo da parede até ao canto superior direito. May mantém-se no seu lugar no canto oposto.)

EDDIE- Estou a tentar cuidar de ti. Percebes, May?

MAY- Não, não estás. Tu sentes-te é culpado. Culpado e cobarde.

EDDIE- Fantástico.

(...)

MAY (calmamente, permanecendo no seu canto) Eu vou matá-la, sabes?

EDDIE- A quem?

MAY- A quem...

EDDIE- Não fales assim.

(...)

MAY- Vou. Vou matá-la a ela e depois mato-te a ti. Metodicamente. Com facas afiadas. Com duas facas diferentes. Uma para ela e outra para ti. (bate com o cotovelo contra a parede. A parede ressoa) Para que o sangue não se misture. Mas a ela torturo-a primeiro. A ti não. A ti vou esperar que estejas dentro de mim. Talvez no meio de um beijo. Exactamente quando tu julgares que está tudo bem outra vez. Exactamente no momento em que tu tiveres a certeza que me conseguiste dar a volta. É então que tu morres.

(...)

EDDIE- Eu vim aqui para te buscar! O que é que se passa contigo? Fiz este caminho todo para te vir buscar! Achas que eu fazia isso se não te amasse? Achas? Aquela cabra não significa nada para mim! Nada. A única razão por que eu estou aqui és tu.

MAY- Eu não saio daqui, Eddie.

(...)

EDDIE- Eu não me vou embora. Já não me importo com o que tu pensas. Não me importo com o que tu sentes. Nada disso é importante. Eu não me vou embora. Vou ficar aqui. Não me importo que entrem dúzias de "amigos" por aquela porta. Vou enfrentá-los um a um. Não me importo que odeies a minha maneira de ser. Não me importo que detestes olhar para mim, ouvir a minha voz ou sentir o meu cheiro. Vou ficar aqui para sempre. Nunca te hás-de ver livre de mim. Nem nunca hás-de conseguir fugir de mim. Eu hei-de encontrar-te estejas tu onde estiveres. Sei exactamente como funciona a tua cabeça. Acertei sempre. Acertei todas as vezes.

MAY- Tens de acabar com isto, Eddie.

EDDIE- Eu não vou acabar com nada!

(Pausa.)

MAY (calma) Muito bem. Ouve. Eu já não percebo a tua cabeça. A sério, não percebo. Agora precisas desesperadamente de mim. Agora não podes viver sem mim. Agora fazias tudo por mi. Porque é que eu hei-de acreditar desta vez?

EDDIE- Porque é verdade.

MAY- Mas também era verdade todas as outras vezes. Todas as outras vezes. Agora volta a ser verdade. Há quinze anos que tu me tratas como se eu fosse uma coisa. Há quinze anos que eu tenho sido um yo-yo nas tuas mãos. Eu nunca te menti. Nunca fiz jogo duplo contigo. Ou te amava ou não te amava. E agora, pura e simplesmente, não te amo. Estás a perceber? Percebes? Não te amo. Não preciso de ti. Não te quero. Estás a perceber? E se agora ainda aguentas ficar, é porque estás louco ou não passas de um pobre diabo.

(...)

(Eddie e May encontram-se no centro do palco. Abraçam-se. Beijam-se ternamente. As luzes de uns faróis cruzam de repente o cenário, vindas novamente do fundo à esquerda, entram pela janela, varrem o cenário e depois desaparecem fora de cena à direita. Ouve-se o som de uma colisão forte, vidros partidos, uma explosão. A luz brilhante, alaranjada e azul, de um fogo de gasolina ilumina de repente a janela ao fundo. Depois ouve-se o som de cavalos a relinchar selvaticamente, de cascos a galopar sobre o pavimento, o som vai desaparecendo, por fim o silêcio total. (...) Durante isto tudo Eddie e May continuam agarrados um ao outro. Ninguém se mexe. Depois Martin levanta-se, vai até à janela ao fundo, olha através das persianas. Pausa.)

MARTIN (ao fundo, junto da janela, olhando lá para fora para as chamas) O carro que está lá fora com o atrelado para cavalos é teu?

EDDIE (continua com May) É.

MARTIN- Está a arder.

EDDIE- Está.

MARTIN- Os cavalos soltaram-se e fugiram.

EDDIE (afasta-se de May) Já calculava.

MAY- Eddie...

EDDIE (para May) Vou só lá fora ver o que é que se passa. Eu tenho pelo menos de ver o que é que se passa ou não?

MAY- O que é que interessa?

EDDIE- Não posso deixar que ela faça isto e se ponha a andar. Não achas que eu tenho de fazer qualquer coisa? (vai em direcção à porta da direita) Não me demoro nada.

MAY- Eddie...

EDDIE- Não me demoro nada. Vou só ver o que se passa e volto já. Está bem?

(...)

MAY- Ele foi-se embora.

MARTIN- Ele disse que voltava já.

MAY (Pausa) Foi-se embora.


(Sam Shepard- LOUCOS POR AMOR)


Publicado por void em fevereiro 8, 2005 08:11 AM
Comentários

Mais uma semana que promete. Não conhecia este dramaturgo, só tenho a agradecer-te. Beijinho Sandra.

Afixado por: Micas em fevereiro 8, 2005 10:27 PM

Sam Sheppard tem rosto. É também actor e participou em diversos filmes, na sua maior parte como artista secundário. Foi actor principal em "Os Eleitos", de Philip Kaufman. Recomendo a leitura do seu livro de short stories "Histórias Americanas".

Afixado por: JAP em fevereiro 9, 2005 12:53 AM