fevereiro 07, 2005

O AMOR DE FEDRA ("UMA SEMANA NO TEATRO"- 2)

Inicia-se hoje, aqui no Abismo, a semana dedicada ao Teatro (edição de Fevereiro). Semana esta que, relativamente ao mês anterior, se vai prolongar por mais um dia, pelo que a apresentação de excertos de peças se verificará até Sábado.
Relativamente aos autores/dramaturgos vamos ter: Sarah Kane (Inglaterra), Sam Shepard (EUA), Albert Camus (França), Irmãos Presniakov (Rússia), Jean-Luc Lagarce (França) e Pier Paolo Pasolini (Itália).
Inicio a semana com Sarah Kane. A dramaturga nasceu em Londres em 1971, suicidando-se a 20 de Fevereiro de 1999. Escreveu cinco peças todas elas representadas em Inglaterra, mas não só. São elas: Blasted (Ruínas- estreia 1995), Phaedra's Love (O Amor de Fedra- estreia 1996), Cleansed (Purificados- estreia 1998), Crave (Falta- estreia 1998) e 4:48 Psychosis(4:48 Psicose- estreia 2000).
Relativamente à peça escolhida- "O Amor de Fedra"- para edição, foi lida publicamente pela 1ª vez n'a Capital, pelos Artistas Unidos, a 6 de Dezembro de 2000. Quanto à estreia: Centro Cultural de Belém e Teatro Taborda (Lisboa) em 2004 pelos mesmos Artistas Unidos.
Passemos ao excerto:


Um palácio real.

Hipólito está sentado num quarto, às escuras, a ver televisão. Está espojado num sofá, rodeado de brinquedos electrónicos caros, pacotes vazios de aperitivos e doces. Espalhadas pelo chão do quarto, peúgas usadas e roupa interior.
Come um hambúrguer, os olhos fixos na luz tremeluzente de um filme de Hollywood.
Funga.
Sente a aproximação de um espirro e esfrega o nariz para o evitar.
A irritação continua.
Olha à volta do quarto e pega numa peúga.
Examina-a cuidadosamente e assoa-se a ela.
Atira a meia para o chão e continua a comer o hambúrguer. O filme fica particularmente violento.
Hipólito assiste imperturbavelmente.
Pega noutra meia, examina-a e atira-a fora.
Pega noutra, examina-a e decide que serve.
Põe o pénis dentro da meia e masturba-se até se vir sem uma centelha de prazer.
Tira a meia e atira-a para o chão.
Começa a comer outro hambúrguer.

MÉDICO-Está deprimido.

FEDRA- Eu sei.

MÉDICO- Ele devia mudar de dieta. Não pode viver de hambúrgueres e manteiga de amendoim.

FEDRA- Eu sei.

MÉDICO- E lavar a roupa de vez em quando. Cheira mal.

FEDRA- Eu sei. Fui eu que lhe disse isso.

MÉDICO- O que é que ele faz durante o dia?

FEDRA- Dorme.

MÉDICO- Quando se levanta.

FEDRA- Vê filmes. E faz sexo.

MÉDICO- Ele sai?

FEDRA- Não. Telefona a pessoas. Elas aparecem. Fazem sexo e depois vão-se embora.

MÉDICO- Mulheres?

FEDRA- O Hipólito não tem nada de maricas.

MÉDICO- Ele devia arrumar o quarto e fazer algum exercício.

(...)

MÉDICO- Ele faz sexo consigo?

FEDRA- Desculpe?

MÉDICO- Ele faz sexo consigo?

FEDRA- Sou madrasta dele. Somos da família real.

(...)

Estrofe a trabalhar.
Fedra entra.

ESTROFE- Mãe.

FEDRA- Vai-te embora desaparece não me toques não fales comigo fica comigo.

ESTROFE- O que é que se passa?

FEDRA- Nada. Nada mesmo.

ESTROFE- Estou a ver.

FEDRA- Já alguma vez pensaste, pensaste que o teu coração se ia partir?

ESTROFE- Não.

FEDRA- Desejaste rasgar o peito arrancá-lo de lá para parar a dor?

ESTROFE- Isso matava-te.

FEDRA- Isto está a matar-me.

ESTROFE- Não. Só parece.

FEDRA- Uma lança no meu flanco, a arder.

ESTROFE- Hipólito.

FEDRA (Grita.)

ESTROFE- Estas apaixonada por ele.

FEDRA (Ri-se histericamente.) O que é que estás a dizer?

ESTROFE- Obsecada.

FEDRA- Não.

ESTROFE (Olha para ela.)

FEDRA- É assim tão óbvio?

ESTROFE- Sou tua filha.

(...)

FEDRA- Sinto-o através das paredes. Pressinto-o. Sinto o coração dele a bater a uma milha de distância. (...) Há uma coisa entre nós, uma coisa impressionante como a merda, sentes? Queima. Destinados. Nós. Destinados.

ESTROFE- Não.

FEDRA- A ficar juntos.

ESTROFE- Ele é vinte anos mais novo que tu.

FEDRA- Quero trepar para dentro dele, trazê-lo para o mundo.

ESTROFE- Isso não é saudável.

FEDRA- Ele não é meu filho.

ESTROFE- Estás casada com o pai dele.

FEDRA- Não vai voltar, anda ocupado de mais a ser inútil.

ESTROFE- Mãe. Se alguém descobre.

FEDRA- Não posso negar uma coisa tão grande.

Hipólito vê televisão com o som muito baixo. (...)
Fedra entra com vários presentes embrulhados. Pára, por uns momentos, a observá-lo. Ele não olha para ela. (...)
Hipólito não pára de ver televisão.
Fedra liga uma luz mais forte.

HIPÓLITO- Quando é que foi a última vez que deste uma foda?

FEDRA- Isso não é pergunta que se faça à tua madrasta.

HIPÓLITO- Então não foi o Teseu. Não me parece que ele a mantenha enxuta também.

FEDRA- Gostava que lhe chamasses pai.

(...)

HIPÓLITO- O que é que se passa contigo?

FEDRA- O que é que queres dizer?

HIPÓLITO- Nasci no meio desta merda, tu casaste com ela. Ele era uma boa foda? Deve ter sido isso foda-se. Toda a gente a cheirar-te a cona e tu escolheste Teseu, um homem do povo, que punheteiro.

FEDRA- Só falas comigo sobre sexo.

HIPÓLITO- É o que mais me interessa.

FEDRA- Pensei que odiasses.

HIPÓLITO- Odeio pessoas.

FEDRA- Elas não te odeiam.

HIPÓLITO- Não. Oferecem-me ninharias.

FEDRA- Eu queria dizer -

HIPÓLITO- Eu sei o que querias dizer. Tens razão. As mulheres acha-me mais atraente desde que fiquei gordo. Acham que eu devo ter um segredo.

(Assoa o nariz numa meia e atira-a fora.)

FEDRA (Não reage.)

Olham fixamente um para o outro.
Hipólito desvia o olhar.

HIPÓLITO- Por que é que não vais falar com a Estrofe, ela é tua filha, eu não. Porquê toda esta preocupação comigo?

FEDRA- Amo-te.

Silêncio.

HIPÓLITO- Porquê?

FEDRA- És difícil. Temperamental, cínico, amargo, gordo, decadente, mimado. Passas o dia na cama, vês televisão à noite, arrastas-te pela casa com o sono nos olhos e não tens um pensamento para ninguém. Sofres. Eu adoro-te.

HIPÓLITO- Não é muito lógico.

FEDRA- O amor não é lógico.

(...)

Olham os dois fixamente para a televisão.
Finalmente, Fedra chega-se a Hipólito.
Ele não olha para ela.
Desaperta-lhe as calças e faz sexo oral.
Ele olha para o ecrã durante todo o tempo e come os doces.
Quando está quase a vir-se emite um som.
Fedra começa a afastar a cabeça - ele agarra-lhe na cabeça e vem-se na boca dela sem tirar os olhos da televisão.
Liberta a cabeça dela.
Fedra senta-se e olha para a televisão.
Um longo silêncio, perturbado apenas pelo barulho do saco de doces de Hipólito.
Fedra chora

HIPÓLITO- Pronto. Acabou-se o mistério.

Silêncio.

FEDRA- Vais ficar com ciúmes?

HIPÓLITO- De quê?

FEDRA- Quando o teu pai voltar.

HIPÓLITO- O que é que isso tem a ver comigo?

FEDRA- Nunca tinha sido infiel. (...) Só o fiz porque estou apaixonada por ti.

HIPÓLITO- Não estejas. Não gosto disso.


(Sarah Kane- O AMOR DE FEDRA. Fotografias resultantes de representações pelos Artistas Unidos)


Esta peça foi recuperada e adaptada pela autora a partir dos autores clássicos (ex: Eurípedes), à semelhança do que vinha sendo feito ao longo dos tempos por outros dramaturgos. Sarah deu-lhe o seu toque muito especial, transformando-a em mais uma peça muito polémica, bem ao estilo dos seus trabalhos.
Registo que numa próxima semana de Teatro, outras versões da peça serão aqui trazidas para que, para vós, possa servir de ponto de comparação ou mesmo de complemento aos conteúdos agora editados.


Publicado por void em fevereiro 7, 2005 08:00 AM
Comentários

"O amor não é lógico"

Obrigada por iniciares esta semana com Sarah Kane, é fantástica!!
Gostei da peça que escolheste.

Beijinhas,

Cacau
Http://poesiaempedacos.blogspot.com

Afixado por: Cacau em fevereiro 7, 2005 01:38 PM

Sarah Kane... Um fugacidade nada igualada ao seu esplendor! Gostei imenso do excerto, e queria deixar algumas sugestões que gostava de ver nesta "semana no teatro": Fassbinder, Bernard Marie-Koltès e Enzo Cormann. (Ia dizer Camus, mas vejo que já está descriminado por ti para expor :P)

Aqui virei todos os dias dar uma espreitadela (como sempre, aliás...) para ver os excertos escolhidos! Como aprendiz e fazedor de teatro, tenho gosto em ver, neste blog, esta arte tão bem representada!

Beijinho!

NN

Afixado por: NN em fevereiro 7, 2005 09:31 PM

Esta semana começou da melhor maneira. Sarah Kane é excelente. Beijinho Sandra.

Afixado por: Micas em fevereiro 7, 2005 11:02 PM

Cacau e Micas: obrigada pelas vossas palavras de estímulo.
Beijinho para as duas :)


NN: vou ter em conta as tuas sugestões. O registo está feito. Aguardemos o futuro. O teu acompanhamento é muito importante. Obrigada. Beijo grande :)

Afixado por: Sandra em fevereiro 8, 2005 08:24 AM