Pois continuem a acompanhar os pensamentos/lembranças de Y. Pois continuem a respirar a intensidade do que por ai vem (na sequência do que já foi). Pois continuem a vibrar com tudo. Pois continuem...
Pois...
O TEU CÃO

Vou falar-te de ti. Vou contar-te a tua história. Vou contar-te a história que me contaste sobre ti e a história que escrevemos juntos. Eu comecei por escrevê-la onde ela terminou. Comecei pelo fim. Já antes havia dito a razão; os porquês.
Todos os dias, pelo fim da tarde regresso a casa. É raro ter de ir a algum lado, e fazer compras é uma necessidade de última importância. Também não tenho aquilo que se pode chamar vida social e muito menos, agitada. Já me basta a agitação social durante o dia de trabalho; uma agitação forçada e insuportável pois cada vez tenho maior vontade de mandar tudo e todos para o Diabo e refugiar-me em casa. Esconder-me, enterrar a cabeça na almofada e chorar ou simplesmente, ficar uma tarde inteira no nosso jardim a brincar com o teu cão. Ele ainda é teu. Mais teu do que meu. E nem eu nem o cão fomos os mesmos desde então. Acredita. Mas ele mantém-se vivo. Apesar de tudo... sou tão forte como o teu cão. E ele mantém-se fiel a ti. Sou igual ao teu cão...
Pelo entardecer, quando regresso a casa, nunca venho pelo mesmo caminho. E para lá, de manhãzinha, é semelhante. As pessoas conhecem-me ao passar mas eu vario nas caras que vejo. Faço das caras a mesma coisa que faço com os caminhos. A mim parecem-me díspares, e eu tento não ser, ainda que por segundos, o mesmo homem na mesma estrada.
Assim que meto o pé em território nosso, território tão sagrado, o cão salta para cima de mim com aquele desânimo desesperante de querer encontrar-te, escondida e pequenina dentro de algum bolso da minha roupa; com aquele desânimo desesperante certo de que, embora lhe tenhas parecido uma fada, jamais tiveste o formato de um gnomo... e fareja-me, fareja-me muito, provavelmente pensando, com espécie de ciúme. Estiveste com ela e não queres dizer-me? Sabes onde ela está e não me dizes? Sabes onde ela se esconde e não ma trazes... E depois... ainda mais desanimado, retirando o seu focinho para fora do bolso do meu casaco, metendo o seu rabinho entre pernas, afasta-se lentamente para junto da tua espreguiçadeira; aquela onde passaste muitas tardes de Primavera a ler, e ao lado da qual o teu cão se deitava, na relva fofa e aquecida pelo calor do sol. Ele seguia-te para toda a parte. Nunca perdia uma oportunidade de se deitar ou sentar ao teu lado. Esperava-te. Ainda te espera. Sou igual ao teu cão...
Trato do cão, que espera pacientemente pela comida, com o focinho pousado em cima das patas cruzadas que se estendem na relva fresca destes dias de Novembro. Dou-lhe algumas festas na cabeça, e falo com ele durante um bom bocado enquanto as minhas mãos continuam a afagar-lhe o pêlo farfalhudo. E esse momento parece-me ser bom. Ele é o único com quem falo acerca de nós dois. E é com ele que falo mais acerca de tudo em geral. Porque a ti que me conheces bem, não pareço ser uma pessoa fechada. Mas tu sabes qual a verdade. Houve sempre essa certeza desde inicio.
E eu volto para dentro de casa. Esfrego as mãos uma na outra e noto, com algum pesar, que as noites começam a ser verdadeiramente frias.
Deixo a porta das traseiras aberta. Tu detestavas que o cão dormisse na casota de cão porque para ti ele não era um cão; era um cão filho adoptivo ou algo do género que, inicialmente não entendi muito bem. E continuo a penetrar dentro de casa e a meditar nestas coisas que me dizias. Tinhas muita piada quando te debatias, perdida em discursos pela defesa dos inocentes, dos desfavorecidos, dos miseráveis. E gesticulavas que te fartavas. Querias exprimir-te de todas as maneiras possíveis para me convenceres que os teus ideais estavam correctos. E era fácil convenceres as massas, já que o teu único público era eu e o teu cão. E ainda que não concordássemos, eu com as tuas ideias, e o cão com os teus gestos, tu saías sempre triunfante. Gostava de te ver feliz. Ainda gosto de te ver feliz.
Chego ao mesmo sítio onde te encontro, melhor e mais perto. E isto é assim todos os dias. A tua cadeira, a tua secretária. As coisas que escrevias e que chegaram a irritar-me uma vez ou outra, devido à sua negra e pesada tristeza; pois se por um lado eras alegre, feliz e segura de ti, sabendo bem aquilo que querias, noutros momentos eras a infelicidade e agonia em pessoa. E caías tantas vezes na confusão de um círculo vicioso, que eu questionava-me infindáveis vezes se tu sabias realmente aquilo que querias.
Era a tal locomotiva. A tal locomotiva que teimava com o fim de linha; que teimava em descarrilar de vez em quando. E eu sento-me aqui nestes fins de tarde e passo as mãos pela superfície de madeira maciça resistente da tua secretária. E vejo-te nua a avançar para mim metida dentro desse teu sorriso malicioso e olhar de raposa matreira. Vejo-te e sinto-te; as mãos a apoiarem-se nos meus ombros e através de uma força maior, não pelos braços mas pelo olhar que fazias, levarem o meu corpo a mover-se precisamente para onde o querias. E deitada em cima da secretária, numa posição muito oferecida e desavergonhada, dizias. Fode-me. Não dizias mais nada. Gritavas. Gemias. E mais nada.
A primeira vez que me fizeste isso fiquei completamente doido mas sem saber o que fazer. Não sabia se havia de avançar para ti com violência e explodir no teu corpo todo o desejo que me provocavas, se entrar na tua brincadeira, no teu jogo e esforçar-me por não te levar a sério. Era por essa razão que me metias doido. Por me fazeres hesitar entre a fragilidade do teu corpo e a provocação dos teus olhos.
(Texto de Alexandra Antunes. Fotografia de Naushér Benaji)
O próximo capítulo será editado dia 13, Domingo.