"ATÉ DOÍA"

O Alexandre foi o primeiro. Era meu primo... afastado! Não faça essa cara!...
Eu tinha dezoito aninhos e estava de férias da faculdade que na verdade estava fechada, ou sem aulas, ou lá o que era aquilo que se passava. O Alexandre veio de visita no Verão de 74. Morava na Suiça, os meus tios tinham emigrado antes da revolução e deram-se bem por lá. Eram os únicos da família que tinham mesmo dinheiro. Nós, era só fachada...
O Alexandre naquela altura era uma personagem quase mítica para mim. Eu não o conhecia, mas já ouvira tudo acerca dele. Das infindáveis namoradas, da pizzaria que abrira e fechara, do sótão onde vivia independente por cima dos pais, da mota...
Ele tinha uma mota fantástica, daquelas que só um emigrante compraria, mas que não havia por cá na altura e que davam imenso nas vistas... não me lembro do nome daquilo, mas era uma máquina linda...
Foi de mota que ele veio naquele Verão. Atravessou a Europa montado nela e tornou-se no meu herói instantâneo. Eu nunca tinha saído daqui, e Portugal para mim era basicamente entre Cascais e Lisboa, passando pelo Estoril... fino, não era?
Foi um grande Verão aquele. O Alexandre era para vir por um mês. Ficou três.
Logo no primeiro dia perguntou-me, tu é que és pintor? Mostra lá essas merdas.
E eu tremia. Mal me tinha nas pernas a pensar que se calhar ele achava mesmo os meus quadros uma merda... que eram!... mas não. Espalhou-os pelo meu quarto e ficou a vê-los. Depois olhou para mim. Olhou-me nos olhos, eu com os joelhos em manteiga, e perguntou, queres pintar-me?


Nos primeiros dias ele saía sozinho. Ia à praia, à discoteca, e nem sequer me perguntava se eu queria ir. Mas também os meus pais tinham-me debaixo de cerco, não fosse eu sair com os freaks da faculdade que andavam de comício em comício e por tudo o que era manifestação nesse Verão. O Alexandre parecia que era a única pessoa em férias neste país. Todos os outros estavam a lutar pelo futuro da nação e a cantar canções de protesto.
Uma tarde eu estava no jardim quando ele se montou na moto para sair. Queres vir miúdo?, perguntou-me.
Aonde vais?
Queres vir? Ou sim ou sopas...
Eu disse que sim.
Pôs-me o capacete e eu montei-me na moto atrás dele. Disse-me que a melhor maneira de me aguentar era abraçá-lo pela cintura. E eu abracei-o. Saímos de Cascais em direcção a Lisboa, eu com a maior camada de tesão que alguma vez tive. Até doía.
Passámos a ponte que já não era Salazar e eu perguntei aonde vamos? Logo vês, foi a resposta. Eu estava embriagado com tudo. O rio a voar lá em baixo.
Acabámos na Arrábida, às voltas pela serra, e quando o Sol já se estava a pôr chegámos a uma praia. Não havia ninguém por ali, era um Verão esquecido. A revolução ardia mais que o sol.
Vamos ao banho?
Não tenho calções.
E é preciso?
Despiu-se até ficar em cuecas e correu a mergulhar. Eu segui-lhe o exemplo antes que a tesão me voltasse.
Nadámos até o Sol se pôr e quando saímos da água já era de noite. Eu tremia de frio. Ele foi à mota e trouxe uma toalha que tinha num saco.
Secou-me com ela de alto a baixo, devagar, com cuidado, com ternura mesmo. E não disse nada do tesão enorme que me levantava as cuecas molhadas e transparentes enquanto o fazia. Só disse, anda, vamos embora, quando terminou.
Eu chorei nas costas dele, abraçado a ele no regresso a casa. As lágrimas sem secarem dentro do capacete.


No dia seguinte ficámos sozinhos em casa. A minha avó estava com medo da reforma agrária e tinha-lhe dado um treco qualquer. Os meus pais foram acudir e ficámos só os dois. Ele dormiu a manhã toda. Eu pus-me a pintar, só para acalmar os nervos.
A meio da tarde entrou-me em cuecas pelo quarto adentro, olhou-me sem dizer nada e foi-se deitar na cama. Põs-se nu.
Acha que pintei mais alguma coisa nessa tarde?
Foi muito bonito. Ele tratava-me como se eu fosse de loiça. Mesmo depois, mais tarde, quando começou a entrar em mim.
A partir daí falávamos muito. Tínhamos uma catedral de silêncio e murmúrios durante o sexo. Depois ficávamos deitados a suar juntos, a falar, a sonhar em voz alta.
O Alexandre convenceu os meus pais a deixar-me ir. Pôs-me montado atrás dele na mota, com uma tenda de campismo às costas e fomos correr Portugal. Começámos pela Batalha, Tomar, Nazaré e fomos por aí acima até ao Gerês. Cada dia uma eternidade, cada noite...
No Porto entrámos numa manifestação e fez todo o sentido andar pelas ruas infestadas de gente a gritar liberdade. Os meus pais morreriam se soubessem.
Fizemos planos. Ele voltava à Suiça, a terra dos chocolates, dos relógios e da Julie Andrews a cantarolar que os montes estão vivos com o som da música. Voltava a abrir a pizzaria para fazer dinheiro. E no Natal eu ia lá fazer visita, teoricamente. Mas depois já não voltava. Depois ficávamos os dois na pizzaria, entre o queijo e as enchovas. E íamos ser felizes. Íamos ser amantes, amigos e irmãos. Estava decidido.
Foram três meses. Ainda deu para o Alentejo, para o Algarve, Salamanca e Badajoz.
Chorei quando se foi embora. Chorei ainda mais quando soube que tinha morrido num desastre com um camião numa estrada de Espanha.
(Daniel J. Skramesto- OLHOS DE CÃO. Pinturas de Raphael Perez)
Gostaram? Espero sinceramente que sim. Mas espero, sobretudo, que esta semana temática tenha servido de sensibilização para os aspectos que abordei no post inicial, significando isso, um salto qualitativo para o entendimento de tudo aquilo que no seu âmbito está em causa. Obrigada pelo vosso acompanhamento :)
Passei para dar um abraço! Excelentes posts.
Afixado por: Distante em fevereiro 4, 2005 07:56 AMEste é um daqueles textos que não consigo comentar... Intenso, ele é... mas verdadeiramente, não está, para já, ao alcance do meu imaginário... (E eu, só sei opinar o que me diz algo, desculpa...)
Um abraço e bom fim de semana :-)))
Bom... devo dizer que por muitas vezes passo no void... esta semana foi muito gratificante, e uma enorme coincidencia: estive toda a semana a a falar com uma amiga minha sobre a homossexualidade, ela escreve sobre isso algumas vezes, eu também... e é um tema importante por demais na minha vida, a par com outros, e que vi aqui muito bem retratado! Sabe que todos os dias já vinha aqui, mas esta semana foi muito intensa, estive mesmo com ansiedade de vir a casa e ler o que de novo havia. Coloque alguns dos textos no meu blog, anunciando, obviamente, a fonte de onde os retirei... espero que não te importes, mas por ser demasiado importante, não consegui ser indiferente! :D
Obrigado!
Este blog espanta-me a cada dia!
******* NN
Gostei muito. São bonitas as histórias de amor e esta está bem contada. Termina mal, mas se calhar todas terminam mal. Beijo
Afixado por: Monalisa em fevereiro 5, 2005 01:00 AMLiteratura é, simplesmente, isto! Conseguir transformar as palavras em arte independentemente das orientações sexuais ou das convenções sociais! Parabéns pelos textos, estão realmente excelentes!
Afixado por: Assumida Mente em fevereiro 5, 2005 02:04 AMAcho esta tua iniciativa muito interessante e folgo em ver que tem sido um sucesso. De facto, é preciso cada vez mais quebrar tabus e encarar a homosexualidade com naturalidade e não como uma aberração! Estes teus posts foram um contrin«buto nessa direcção. Como não tive tempo de cá aparecer durante a semana e depois tive umjas dificuldades técnicas ... li tudo hoje e foi ... intenso! Um beijo.
Afixado por: Pink, the Lady em fevereiro 6, 2005 12:37 AM