"CONQUISTADA"
Clarissa
Falou-me, então, dele directamente. Sem fingir que era um gajo qualquer. Falou-me dele com rancor. Com uma mágoa clara, que tentava disfarçar, mas que não conseguia. Falou-me dele e eu escutei-a. Porque sei ouvir. Faz parte das minhas qualidades. Não me entusiasmei, claro. Mas ouvi-a com atenção. Interessam-me as feições no seu rosto, a mudança de tom, o olhar e as mãos. As alterações repentinas. Ela estava um pouco bêbada. Não costuma falar muito sobre isto, vê-se. Estabeleceu comigo uma relação de confiança, baseada exclusivamente no facto de não nos conhecermos bem. É tão habitual, mas nunca perde o encanto. Ouvir alguém, falar com alguém, que conhecemos tão pouco. Aquele pequeno olhar que mostra que nos queremos conhecer, que não conseguimos evitar desejar estar com essa pessoa. No final da conversa, talvez ela tenha percebido o que é que eu estou aqui a fazer. Sim, penso que sim. Olhou-me de soslaio, percebeu. De repente, deve ter-lhe passado pela cabeça. É neste momento que as coisas se tornam mais frágeis. É aqui que qualquer movimento em falso pode arremessar tudo para longe. E eu quero esta mulher. Portanto não vou falhar. Vou deixar-me estar no meu canto, enquanto ela se martiriza com os seus pensamentos habituais. Até que, num instante, vai lembrar-se de mim, por qualquer coisa que pensou ou que viu, e vai pensar em mim um pouco mais. Porque já está na dúvida. E essa dúvida vai fazer com que ela me ligue e me procure. A curiosidade vai levá-la até mim várias vezes e de várias formas. Não, não sou convencida. Tenho a certeza do que estou a dizer, senão não o dizia. Elas gostam dessa coisa que lhes dou, essa leveza, essa ausência de penetração. Como se essa ausência significasse um menor risco, ou melhor, como se o facto de eu não ter pénis significasse uma menor invasão da minha parte. Se calhar têm razão, mas escapa-lhes o essencial. Além disso, não é uma coisa que me preocupe muito. Preocupam-me antes as mãos e as costas. Preocupa-me a suavidade e o encanto. Quero fazê-la feliz por uns momentos, dure o tempo que durar. Por isso, ela vem ter comigo mais do que pelo resto. Porque o resto não interessa assim tanto quando se trata de pele.

Está diferente, a minha menina. Está mais leve, menos rancorosa. Sorri para mim e pica-me descaradamente. Eu gosto. Aquela tristeza a descer toda para outro lado. Já lhe expliquei que a minha função é aproveitar-me da miséria dela. Ela ri-se, claro. Não, não é verdade, responde. Diz, eu é que estou claramente a usar-te. Eu rio-me, mas fico a pensar naquilo. De facto, as coisas também podem ser vistas assim. Nunca me tinha ocorrido. Ela insiste: a melhor maneira de não veres o que te acontece é pores-te por cima. E arremata: não penses que comigo vais ficar sempre por cima. A piada sexual tinha de lá estar, claro. É inteligente. Percebo que, afinal, é ainda mais difícil do que imaginei. Isso dá-me ainda mais ponta. Difícil no sentido que não é enquadrável, que me impõe novas estratégias, novos lances. Não é previsível nem monótona. Olho para ela e penso se devo dormir com ela. Se não será um desperdício perder este desafio, este picanço estimulante. Quero, quero muito, mas há qualquer coisa que se vai perder. E não quero o que posso ganhar. Porque não me apetece. Nem me apetece estar ao lado de alguém que acha que já perdeu o grande amor da sua vida. Quero sorrir-lhe e sentir esta coisa no sexo, na barriga, nos olhos.

Era inevitável, parece-me. Teria sido estúpido recuar. Foi inevitável. Telefonou-me, falámos durante um bocado. Depois disse para eu passar por casa dela para beber um café. Disse que sim e fui. Ela ainda não tinha jantado. Estava a fazer o jantar. Sentei-me no banco da cozinha e olhei-a. Tínhamos as duas um sorriso parvo. Ela estava embaraçada. Eu também, mas disfarço melhor. Não sei o que foi. A presença dela, o seu corpo tão perto, o olhar. Tive de agarrá-la. Agarrei-a e beijei-a. Uma, duas, três, muitas vezes. E ela respondia. Com toda a intensidade. A comida a fazer no fogão. Nós a beijarmo-nos durante horas sem parar. Até decidirmos ir para o quarto. Com a pele dela a misturar-se com a minha. Conquistada.
(Ana Vicente- EU BARRA TU BARRA MIM. Fotografias de Austin Feld)
Uau!!!!!!! :)
VOu linkar-te!
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Hoje passei por aqui por volta da 1h para ler as belas escolhas que tens feito, e que no caso desta autora não conhecia. Não consegui comentar, a cx de comentarios nem chegou a abrir, e agora também tive que esperar bastante
:( Beijinho e um bom dia para ti.