fevereiro 02, 2005

DAS RELAÇÕES HOMOSSEXUAIS E LÉSBICAS NA LITERATURA (3)

"É TUDO UM GRANDE MISTÉRIO E UMA GRANDE PROVOCAÇÃO... SOU SIMPLESMENTE"

Eduarda

E porque não? Esta dor não pode ser mais arremediável. Gosto dela quando se ri e me olha em silêncio. Sem nenhum compromisso a não ser a leveza. Finalmente percebi o que está aqui a fazer. Embora não tivesse pensado nisso antes. Os lábios, as mãos, a franqueza. A franqueza estonteante. Não me intimida, mas de certa maneira sim. Ele que se foda. Posso ir para outro lado. Não passar mais de manhã pela porta dele. Posso fazer com que ela me prenda à cama. Fazer com que ela me enevoe o olhar, me deixe cercada pela vontade de a comer. E, nesses instantes, deixar abandonar-me a uma situação desconhecida. Menos fatal, mais bela. A testa dela na minha mão ainda é só um desejo e, de repente, há um clique na minha cabeça que me diz que é possível. Mais possível que ele. Mais possível que uma verdade inabalável. Mais possível que a certeza que não me ias abandonar. Que ele não me ia abandonar. Reparo, então, nas mãos. Parecem-me suaves. Parece-me que ela era capaz de me levar daqui e experimentar esse prazer. Esse prazer que já não sei nomear sem ser sozinha, às escuras no quarto. Conversas sussuradas em sítios públicos. Viagens clandestinas à casa de banho. Expectativas insanas e bem-vindas. Apetece-me. Apetece-me muito. Não me despeço. Não me despeço já. Enfrento as coisas de outra forma. Aponto o dedo firme contra qualquer direcção menos na dela. Faz-me rir. Faz-me rir. E, depois, quero ver o que é embasbacar-me. Voltar a embasbacar-me sem nenhuma explicação, a não ser a alegre satisfação. E porque não? Porque não um beijo doce ? (...)

E, de cada vez que tentavas fugir, eu agarrava-te. Voltavas a ficar em cima de mim. Voltavas a pôr o desejo em marcha. Fiquei viciada na tua pele. Inesperadamente. No teu olhar na cama. Nessa tua incapacidade de dizeres não. Nessa tua vontade de me levares para outro lado, um lado melhor. Com todo o prazer. A tua segurança e a maneira como desvias os olhos quando a conversa se torna mais séria. Olho para ti e pergunto-me o que sou. O que estou aqui a fazer. O que tu me estás a fazer. Há mais de um ano que não sei nada disto. Que não sei quando esconder as minhas coisas, o meu ser. Quando mostrar. Mas tu és uma mulher e tudo parece diferente. Dizes que estás numa ordem diferente do resto, que já nada se encaixa aqui. Queres dar-me palavras novas. Eu aceito-as, porque tu me dás contentamento. Porque me puxas e eu vou. Porque se soltam as coisas cá dentro e eu vibro. Pasmas-me. Pasmo-me. E tudo se mistura no prazer. Não quero sair do quarto. Não quero sair do teu corpo. Quero ficar aqui e quero que estejas comigo. É maravilhoso. De onde isto surgiu? Esta capacidade de renovação que não sabia possível. Este leve esquecimento de tudo o que me atormentou e, por certo, ainda me atormenta. Para onde me levas?

Deixas-me um pouco atrapalhada, apesar de tudo. Essa tua tendência para a megalomania faz-me sorrir. A vontade de seres a melhor. Sinto a pressão do desconhecido, mas começo a saber por onde me levar. Não foi preciso ir muito longe, parece-me. Tudo isto me é familiar. Ainda estou confusa, apesar de contente. Ponho-me a olhar para a parede e penso nele. Mas tu vens-me buscar a esse sítio e fazes como se não fosse nada. Mas eu sei que sabes, porque eu leio o teu pensamento e sei que lês o meu. É tudo um grande mistério e uma grande provocação. A maior parte das vezes esqueço-me de tudo. Dele. Mas, principalmente, se sou mulher, se és mulher. Sou simplesmente. E depois tento lembrar-me e fico contente. Fico contente por ser mulher e por tu também seres. Começo a ver outros tons entre o preto e o branco. Começo a achar que nem tudo é garantido que permaneça por um dia termos acreditado que sim. Fico feliz, mas também desorientada, porque queria ter alguma coisa firme. Algo perene, que não se esvaísse nas minhas mãos sempre que as coisas se tornam mais frágeis. Vou, no entanto, saboreando estes momentos. Porque sim, porque me escapas e me atrais.

Nenhuma de nós confessa, mas estamos atrapalhadas. Atrapalhadas, depois do amor, atrapalhadas nas palavras que se devem dizer. Que se querem e não se querem dizer. Atrapalhadas. Não sabes bem onde pôr as tuas mãos ao dormir. Uns minutos antes de adormeceres, quando já estás mesmo quase, quase a dormir, deixas de ficar atrapalhada. Abraças-me por completo. Pões a tua perna por cima das minhas. Eu rio-me. Quer dizer que sou tua? E falas, dizes coisas, baixinho, que não entendo. Eu beijo-te. E tu sorris. Quando estou contigo assim, sinto-me maravilhada. Não compreendo o que me está a acontecer e apetece-me ficar para sempre assim. Dás-me novas direcções, mas tu própria pareces não conhecê-las. E penso que nada será alguma vez comparável a isto, aconteça o que acontecer. (...) Pergunto-me porquê. Se serás tu, com essa tua generosidade mascarada de pretensão. Se será este momento, com o renascer para o amor, o fim da dor. Se será por seres mulher, com toda a novidade e surpresa que isso implica. Pergunto-me. E não chego a nenhuma conclusão.

(Ana Vicente- EU BARRA TU BARRA MIM. Fotografias de Austin Feld, Igor Amelkovich e Giuseppe Sarcinella, respectivamente)

Publicado por void em fevereiro 2, 2005 06:56 AM
Comentários

Gosto bastante do tema desta semana e tenho acompanhado cada texto com muita atençao ,estou adorar :)
Como sempre optimas escolhas grande senhora .
Beijinhos****

Afixado por: Monica em fevereiro 2, 2005 02:01 PM

Temas muito interessantes parabéns.

Afixado por: Ofeliazinha em fevereiro 2, 2005 02:10 PM

Estou como a Monica. Estou a gostar imenso do tema semanal. Faz bem ler assim coisas diferentes do habitual.
Beijo
*A

Afixado por: Alexandre em fevereiro 2, 2005 03:52 PM

Mais uma excelente escolha. Gostei bastante deste texto. Não conhecia a autora. A minha lista de compras vai aumentando graças a ti Sandra ;).
Beijitos

Afixado por: Micas em fevereiro 2, 2005 05:02 PM

Ola a tds....tt tempo,tão pouca disponibilidade..Obrigada Sandra por fazer conhecer quem como eu ama no feminino.Bjs a todas...

Afixado por: Emanuela em fevereiro 2, 2005 10:05 PM

Simplesmente divino, as vezes é assim que me sinto. Grande poema

Afixado por: Lilia em fevereiro 3, 2005 05:13 PM