"... FOI A COISA MAIS PARECIDA COM AMOR QUE ME ACONTECEU NA VIDA"

Chegou-se à janela, encostou-se ao parapeito baixo, entre as namoradeiras, marcas de antigas pudicícias. (...)
Tentou afastar o pensamento dessa época em que fora mais feliz que nunca, sem razão talvez, porque não tinha então nada que agora não tivesse, a não ser talvez a esperança. Ergueu os olhos para as montanhas ao fundo, e suspirou. (...)
Suspirou de novo e apoiou-se mais no parapeito, o tronco inclinado quase em ângulo recto. Sentiu passos mas não se virou, concentrando-se na paisagem como se tentasse prendê-la toda no olhar, captá-la para a levar consigo para onde quer que fosse, fazer das suas memórias mais que uma sombra difusa que só ali, naquele lugar, parecia tornar-se real. Sentiu que se aproximava e se lhe encostava de forma pouco habitual, em bicos de pés quase, era imaginação ou sentia por baixo do linho grosso um botão que ameaçava tornar-se alguma coisa mais, ou sugeria...
- Que estás a fazer?
- Nada, gostava só de te ver gemer, achas que consigo?
Cumprimiu-o contra o parapeito, insinuou-se entre as nádegas, roçou-se um pouco por puro gozo e pressionou, mais e um pouco mais...
- Está quieta, pareces parva! O que é que queres provar, desta vez?
- (...) mas qual é o mal? Achas que é assédio? Violência psicológica? Afinal sou uma mulher, nada mais normal, só se for por isso... é preconceito? Até aposto que não te estava a saber mal de todo...
- Não tem nada a ver, é só isso, sabes perfeitamente que não é preconceito, andei com gajas muito tempo mas agora não me interessa, pronto! E muito menos dessa maneira, se não reagi logo é porque estava a pensar noutras coisas, noutros tempos...
- (...) Mas pronto, deixa lá, esquece, prometo que não te chateio mais, foi só uma vontade que me deu, estavas tão a jeito... Em que estavas a pensar, diz lá, era no Rodrigo, não era? Ainda não te passou?
- Nem passa, podes crer, foi a coisa mais parecida com amor que me aconteceu na vida, tirando talvez uma história de puto, que não deu em nada nem criou raízes... Não consigo esquecê-lo, sobretudo quando estamos aqui, devo ser masoquista porque só quero voltar aqui, é o único sítio em que consigo ver a cara dele com nitidez, os olhos muito azuis e a cicatriz pequenina no canto da boca... Acreditas que aqui consigo sentir o cheiro dele, o cheiro a mar e a chuva no meio dos pinheiros, que consigo ouvir a voz dele...

Nos olhos de António brilhavam lágrimas que conseguia já reter, não como no princípio quando a simples lembrança de Rodrigo o fazia chorar a ponto de ter que se esconder, fugir para a casa de banho; afinal um homem não chora, muito menos o arquitecto Tavares, ainda para mais no atelier ou em reunião com clientes... António nunca assumira a sua homossexualidade a não ser em meios muito restritos, com os amigos ou em meios de ocasião em que o implícito imperava, gente que tinha necessidade de se dar a conhecer mas não queria fornecer argumentos para a crucificação pública (...).
- Tenho tantas saudades do Rodrigo, Ana, mesmo tantas...
- Saudades porquê, ainda anteontem se foi embora, estiveste três dias inteirinhos com ele! E pelo que se ouvia do lado de lá da casa, não estiveste mal de todo... Conta lá!
- Não, nesse aspecto é a melhor cama que já tive, sei lá, é a liberdade total, não há horas nem regras, outro dia tenho a impressão que nem dormimos, mas não é isso, acho que até devia evitar estar com ele, envenena-me pensar que não o tenho sempre, fico com vontade de o manter colado a mim... Um dia destes queixou-se que quase sufocava, estive não sei quanto tempo abraçado a ele, a apertá-lo e a sentir o meu peso cada vez maior nas costas dele, queria entrar por ele dentro e nunca mais sair, esmagá-lo até sermos só um... Tu não percebes! (...) Mas o Rodrigo, sabes, é diferente, mexe comigo de uma maneira que não estou habituado, faz-me desconfiado, estou com ele e sinto o cheiro dos outros, juro-te que é verdade, o cheiro de todos com quem ele esteve, misturado com aquele perfume dele, e com o meu cheiro... E nos olhos vejo mais um, sou só mais um... O que pensas que anda ele a fazer quando não está comigo?

- E depois? Achas que se fosses como ele alguém tinha alguma coisa a dizer? O Rodrigo adora-te, se não está contigo a toda a hora é porque tu lhe dás muita seca, comporta-te, não faças isso, não faças aquilo, olha as pessoas a olhar... E claro que se não está contigo tem que estar com mais alguém, o homem não é de pau e aliás era um desperdício! Mesmo que estivesse contigo, quer dizer, se vocês vivessem juntos, não estavas livre de ele filar o gajo mesmo ao lado, se lhe apetecesse, se fosse a altura certa, o Rodrigo é uma alma livre e parece que é mesmo isso que não consegues engolir.
(António Pedro- MAÇAS DE ADÃO. Pinturas de Sebastian Moreno)
Outra excelente escolha. Não conhecia este autor.
Sandra desculpa o atrevimento, mas não queres colocar mais um sistema de comentários em simultaneo? tenho sempre imensa dificuldade em aceder a este sistema e nem sequer é do Sapo!!! não percebo!! Beijinho grandeeeee
Micas: obrigada pelo teu acompanhamento e apoio constante. Qto ao resto (sobre o sistema de comentários): de vez em quando essas falhas acontecem. Não é preciso o sistema ser da SAPO. Mas vou considerar a tua sugestão. E quanto ao atrevimento: disparate! Esquece isso ;)
Beijinho :)
Afixado por: Sandra em fevereiro 1, 2005 12:29 PM