Ao longo desta semana (até Sexta-feira) serão editados, aqui no Abismo, excertos de obras incidindo sobre relações de carácter homossexual e lésbico.
O meu objectivo com tal abordagem (complementada com pinturas e/ou fotografias que consigo se harmonizem), é fazer ler/incentivar à leitura de trabalhos onde tais realidades surgem, evitando resultar dai (ou contribuindo para pôr fim a) qualquer tipo de complexo ou preconceito, no meu entender, sem qualquer sentido e descontextualizado daquela que deve ser a apreciação global da Literatura, onde compartimentos de natureza variada devem ser cada vez mais diluídos (ainda mais se forem castrantes ou condicionantes das escolhas a fazer/que são feitas), independentemente das/de áreas de focagem. Procuro igualmente tornar possível uma maior familiarização/entendimento natural com/das concepções/formas de envolvimento(s) e formas de expressão entendidos para além do que é maioritariamente aceite e praticável ou mesmo representado artisticamente.
Será também propícia esta semana, se assim o entenderem, para abordagens mais aprofundadas em torno da questão das relações em destaque, servindo os textos, as pinturas e fotografias editados/a editar como ponto de partida para tratamentos de ordem mais geral ou de ordem mais particular, inclusive, fazendo-os relacionar com iniciativas levadas a cabo em Portugal ou no estrangeiro e com discussões levantadas em seu torno.
Para arranque desta nova semana temática, deixo-vos com um escritor e poeta português já falecido. Espero que gostem:
"AQUI TENS AS MINHAS MÃOS"

... Mas, naquele instante em que deixara o seu olhar afundar-se no rapaz, sentia-se estremecer, e desse estremecimento crescia, do fundo de si, um fogo misterioso. Um fogo que Beno jamais suspeitaria existir. Qualquer coisa que até àquele momento se conservara, interdita para ele e que, subitamente, tomava forma, comovia, e o fazia estremecer e sucumbir.
Calado, Beno, pegou no copo e bebeu. Depois como alguém que varre, e cola, os pedaços de um objecto quebrado, sentiu todo o seu corpo comprimir-se e ficar como uma peça única, extraordinária, outra vez inteira. Viva.
Nesse mesmo instante, abriu as mãos e estendeu-as ao rapaz, como se acabasse de regressar da sua própria morte.
Sorriu, ao descobrir que a paixão, seja ela qual for, é efémera também, como ele, como o rapaz sem nome ali sentado, como a vida, e tem de ser partilhada como um dom - sem demora!
- Aqui tens as minhas mãos - disse Beno, lentamente - elas estão sujas de outros corpos e de noites sem felicidade, estão turvas porque ninguém as quer há muito tempo. Têm o sarro e o esperma e o cheiro azedo do sangue incrustados nas unhas. E gastaram-se, mas se as quiseres, mesmo assim, por pouco tempo que seja, pertencem-te... e... - ia continuar, mas o rapaz interrompeu-o.
- Como te chamas? E dás-me um cigarro?
- Chamo-me Beno. Queres lume? E tu, como te chamas?
O rapaz acendeu o cigarro com o fósforo que Beno lhe estendia e depois disse:
- Vou guardar as tuas mãos na paixão que tenho por ti, mas não te posso revelar o meu nome, nem precisas de o saber. Chama-me o que quiseres, dá-me um nome para que possamos amarmo-nos. Aquele que tinha perdi-o no caminho até aqui. Pertencia a outra paixão, e já a esqueci. Dá-me tu um nome, para eu poder ficar contigo.
- Se assim o queres, teremos as noites e os dias para nomear a nossa paixão.
- E vais dar-me um nome de planta, de objecto, ou de pássaro?
- Não sei, não sei ainda.
Calaram-se. Beno e o rapaz começavam a estar bêbados. O rapaz encostara o seu corpo ao corpo de Beno. Olhavam-se. O rapaz erguera a mão, aberta, pousando-a com leveza no ombro de Beno.
- Medo de viver? - sussurou o rapaz.
E Beno estremeceu outra vez, mas não disse nada.

A noite vestia-se lentamente de branco. A neve ia estendendo o ligeiro véu sobre a cidade adormecida há muito. Nenhum ruído, tudo estava branco e cintilava.
Beno e o rapaz caminharam, deixando pegadas que segundos depois se apagavam, como se ninguém tivesse alguma vez trilhado aquele caminho. Nevava, e Beno pressentiu que também o rapaz, um dia, se apagaria da sua vida.
Mais tarde, muito mais tarde, talvez se lembrasse das mãos dele sobre as suas, como um ferimento no peito; então desejou que a neve também apagasse esse ferimento ainda distante.
Caminharam, os ombros tocando-se, e, de cada vez que era preciso atravessar uma rua, o rapaz agarrava-se ao braço de Beno. A noite transformara-se num deserto branco, sem um único som, sem o mais pequeno sinal de vida. A cidade dormia a sono solto. Beno sorriu e deu-lhe a mão.
A neve atingira alguns centímetros de espessura e eles deixaram de ouvir o barulho surdo das botas no asfalto. Longe dali, na noite desconhecida de outro bairro, vibrou uma sirene. (...) Entretanto, o silêncio apressara-se a regressar.
Beno metera a chave à porta. O dia rompía, tímido, ou seria apenas a cintilação das luzes da noite libertando-se do coração fresco da neve?
- Senta-te, vou fazer chá para aquecer... - disse Beno, dirigindo-se para a cozinha.
- Beno!
- Sim.
- Vives aqui sozinho?
O rapaz sentara-se na cama e descalçara as botas.
- Porquê? - perguntou Beno, espreitando à porta do quarto.
- Agrada-me este quarto, fico aqui para viver contigo.
Beno voltara à cozinha, deitara água a ferver no bule e esperava que o chá abrisse. Quando regressou ao quarto, o rapaz estava nu, estendido sobre a cama.

Beberam o chá a escaldar e fumaram. O quarto balouçava como um navio, e Beno pôs-se a olhar com minúcia e desejo para o rapaz nu. A pele branca, o cabelo caído para os olhos, escondendo-lhe as pálpebras sonolentas, quase fechadas. Os lábios húmidos de saliva, entreabertos, num início de sorriso. O sexo em repouso, as mãos sobre o peito, as pernas. Outra vez o sexo, os pêlos, os braços e os ombros, a curva do pescoço, os cabelos, o rosto, os olhos fechados, a pele, a pele... Beno não se cansava de olhar. (...)
Beno estava sentado na cama. Por fim, o rapaz apoiou os joelhos nas suas costas e passou-lhe os braços à roda dos ombros. Sentiu todo o seu corpo encostado ao do rapaz, e a sua respiração, e um beijo, no pescoço.
Lentamente, Beno desprendeu-se e, dobrando-se para trás, deitou a cabeça no peito do rapaz. Ouvia-lhe o bater do coração, fechou os olhos e deixou-se ficar, sem se mexer, naquela posição, paralisado e vazio. E, durante um tempo que ele não soube, afastou de si o mundo e todo o pensamento.
A madrugada roçou a janela, clara e fria, misteriosamente branca. Continuava a nevar.
Beno despiu-se. O rapaz puxou-o para si. Beijaram-se e amaram-se sem descanso manhã adiante.


A neve parara de cair, e tudo era silêncio e lassidão, quando desceram à íntima cumplicidade do sono.
(Al Berto- LUNÁRIO. Pinturas de Raphael Perez)
{ … [copy and past] “cansado, deste falta de tempo e parecer, neste querer dizer e não poder, … por isso quando aqui estiver, tentarei deixar um pequeno silêncio para que possas entender, que aqui me prendo a ler” © o5elemento … }{ beijos* }
Afixado por: o5elemento em janeiro 31, 2005 05:03 PMNão conhecia estes textos pois nunca li nada do autor.
Mais uma vez a tua selecção é óptima.
Estou a ler um livro da Inês Pedrosa (não me lembro do título assim de repente) que fala do assunto e é interessantíssimo para perceber melhor a temática.
Beijos***
Nao gosto mto de ter de lidar tanto com este tipo de questoes que fazem parte do meu dia a dia*
Afixado por: Ana em janeiro 31, 2005 05:20 PMGostei de passear pelo teu blog e especialmente do teu último post :)
Beijinho,
Http://poesiaempedacos.blogspot.com
Afixado por: Cacau em janeiro 31, 2005 11:07 PMSó hoje consegui vir (o tempo anda curtinho...)
Gostei imenso desta tua abordagem ao tema. Fiquei agradávelmente surpreendida com o autor que escolheste, Al Berto. É um dos autores que gosto de ler e que penso pouca gente conhece. Acredites ou não esteve para ser post hoje!
Beijinho e boa semana
Ana: surpreendeu-me a tua resposta. Exactamente qual é o teu problema?
Beijinho :)
Cacau: muito obrigada pelas tuas palavras. Volta sempre ;)
Beijinho :)
Micas: Al Berto- um excelente escritor/poeta. Esta obra é extremamente interessante, não só por abordar a questão da homossexualidade, mas tb por fazer referência àqueles cujo estilo de vida é um tanto ao quanto marginal face ao que é considerado normal: estilo hippie. Quanto à personagem de Beno: é apaixonante. Fazer o seu acompanhamento literário é absolutamente delicioso.
Jokas :))
Nilson: aconselho-te a ler e a aprofundar Al Berto. Acredita que vale a pena.
Beijinho :)
O5ºelemento: ok, ok... :)
Beijinho
Afixado por: Sandra em fevereiro 1, 2005 12:35 PM...Nunca deixem de amar quem são e como são.Nunca prescindam da vossa felicidade em prol de uma sociedade retrógada.bjs
Afixado por: Emanuela em fevereiro 2, 2005 10:08 PMTodo este projecto temático "Homossexualidade vs Lesbianismo in Literatura" está interessante e para além do mais é muito actual e pertinente. Tão pertinente e actual quanto a heterossexualidade. Nada a comentar em relação a isso. Apenas enaltecer a selecção literária que é, indiscutivelmente, fantástica. Uma vez mais, os meus aplausos ao Void. E um especial carinho à sua idealista, Sandra, Sandra...
Afixado por: Miguel em fevereiro 4, 2005 10:57 PM