As emoções fortes (gritando sobre a forma de lembranças) continuam na estória da Alexandra. Na estória da autora que, com uma intensidade crescente, se envolve no ser e no sentir de duas personagens. E o respirar de todos num todo é inevitável. É já inevitável. Os três são um. E esse um somos também nós. Individualmente e em colectivo. Simultaneamente. Ora sintam... ou continuem a sentir...
O TÉDIO

Eu quero falar contigo. Mesmo que não me oiças; que já não me oiças. Acredito nisso. Que partiste da tua morte também; e não me ouves, não me vês e não me sentes porque eu nunca mais te senti cá em casa. Nunca mais senti nenhuma espécie de abraço espectral, ou um roçar de ti que eras desde então, uma espécie de aragem, de vento criança recém-nascida que não chora e apenas respira; nem os teus sussurros vindos sem som e unicamente em presença. Eu sentia que eras tu, e somente aquilo que eu sentia contava. Tu também eras assim. A verdade, segundo me dizias vezes intermináveis, era o teu sentir. E para ti, o teu sentir afastava todas as nuvens negras no céu que ameaçava chorar desesperado uma noite inteira, e mostrava-te o caminho a seguir. Era essa a tua verdade e o teu verdadeiro sentir, e foi assim que me amaste. Até ao fim do teu corpo; essa locomotiva de emoções que descarrilavam constantemente. Essa locomotiva que não descansou até chegar ao final da linha e parar, completamente avariada.
Tu, X, tu não nos deixaste qualquer hipótese de consertarmos esse motor que movia tudo à tua volta. Mesmo quando me zangavas. Tu tinhas o poder de me fazer reagir das maneiras mais inesperadas e por vezes patéticas ou violentas; mas todas elas me faziam reagir e essa reacção dizia-me numa palavra gesticulada: tu estás vivo e ela faz-te viver sobre o tédio do tempo e dos dias.
Esse pó chamado tédio, dizias tu, que se instala nas casas de famílias inteiras, cobrindo mobiliário, paredes e candeeiros, instalando-se sobre a mesa onde tomas as tuas refeições todos os dias, e na mesma cadeira de sempre no emprego ou na pastelaria habitual que te serve o mesmo chá, ou o igual café de todos os dias; esse pó chamado tédio, que anda por todos os lados, por toda a parte onde existam pessoas e resíduos de cidade, vestígios de uma vida activa, do chamado stress que não tem outro nome, sim, dizias tu, o stress também tem outro nome!, chama-se tens de ser o mais rápido e o mais forte se quiseres sobreviver. E sobrevives na vida acabando por morrer num tédio que é este tem de ser maquinal de todos os dias. Esse pó chamado tédio, dizias-me, nunca conseguirá instalar-se em nós; na nossa vida. E tinhas razão. Esse pó nunca teve tempo de poisar entre nós. A tua locomotiva emocional, em momentos mais calmos, de cansaço, melancolia ou de criatividade enfraquecida, avançava pelas horas com espírito felino, de gato doméstico que, nem em fases de preguiça aguda, perde a elegância.
Esses momentos susceptíveis ao pó, e a todos os vírus consequência que ele traz debaixo do braço, à maneira de presente de Natal metido dentro da caixa colorida, despertando a tua curiosidade através da sua voz vermelha acesa para abrires uma coisa vazia de nada e cheia de aborrecimento e distância; de silêncio desnecessário. De um silêncio que muitas vezes é a poluição sonora para lá das janelas na nossa casa, ou um silêncio casal que partilha uma vida há demasiado tempo, para que somente as respectivas costas, conversem uma noite de curto descanso. Quando voltam costas ao diálogo infectado pela rotina, porque dizer a mesma palavra todos os dias, no mesmo local à mesma pessoa é previsível. E a previsão moldada pela boca habitual expelindo letras caracóis ao sol, no passeio sobre a relva, aborrece e cansa e destrói vagarosamente. É propositado. Não te apercebes que já foi quando desejas o agora que é tarde demais.
A tua morte é, actualmente, esse tédio que descrevias nas nossas conversas elásticas que esticavam línguas pertencentes a duas bocas, desmesuradamente habituadas uma à outra, para se cansarem na maré do desânimo.
E era assim que nos deitávamos. Numa cama constante que acolhia dois corpos em noites sempre diferentes.
Recordo-me de ti, aninhada em mim, a preguiçar, a preguiçar no conforto quente dos meus braços. Por vezes bocejavas. Arrastavas as palavras acompanhadas de espantosa moleza e dizias. Estou cansada e não me apetece fazer nada. Nada de nada. Só quero ficar aqui nos teus braços para sempre e deixar-me morrer, adormecida, num sonho belo, muito belo e meigo. Sem dor. Sem estar só. Sem estar contigo; longe de ti é a vida solidão e nada mais além disso. Para trás da solidão, e muito dentro de mim, estando longe de ti, só dor e dor e dor. Porque tristeza perante semelhante dor, é uma leve brisa e pena de patinho feio que flutua num lago que reflecte a escuridão e a morte do sol.
E o vento era mão fechada lá fora. Vinha do mar furiosamente, e subia a montanha com passadas de gigante, fechando a sua mão colossal e batendo nos vidros da janela do nosso quarto. Entre cada bocejo teu, de vez em quando davas um pulinho na cama; o teu corpo estremecia de susto, e tu exclamavas, oh!, tenho medo... tenho medo, muito medo. Medo e frio. E eu chamava-te tolinha e patetinha; criança adorável com muito medo e pouca vergonha.
(Texto de Alexandra Antunes. Fotografia de Naushér Benaji)
O próximo capítulo será editado Sábado, dia 5 de Fevereiro. Até lá!
Ao fim de semana eu tou ca sempre a grande senhora sabe,lol. Peço desculpa por andar desaparecida mas ja me redimi e li os posts todos em atraso ,deixa me ja dizer te k nao conhecia a escrita de HENRY MILLER mas fascinou me :)
Agora aproveito para matar saudades da minha maninha com os textos dela .
Beijinhos as duas ,espero k a grande senhora esteja bem***************
Finalmente acabou o tédio,voltei à WEB,e fico novamente sem palavras contigo kida amiga e como não podia deixar de ser,com mais um texto inevitável da Alexandra.continuas a produzir um bom trabalho no teu blog,uma critica literária construtiva e plena de pertinência,continua o teu bom exercício.Fica bem,linda amiga,Beijokas!
Afixado por: Joao em janeiro 29, 2005 06:55 PMMais um excelente texto da Alexandra. Só te posso agradecer Sandra, não conhecia nada dela.
Mil beijos e bom fim de semana.
Denso. Tenso. Imenso.
Mas continuo a achar injusto não ter tudo à minha frente.
Sempre que posso vou passando por cá.
Já manifestei a minha opinião sobre os textos da Alexandra e acho que ela continua paixão, medo,dor,esperança, abismo ...
Gosto deste blog e da coragem com que enfrenta desafios :)
Beijinhos