
(Henry Miller)
E chego agora ao fundo desta tirada aparentemente gratuíta. Pensando como penso, sentindo o que sinto sobre a guerra, eu recusar-me-ia, no entanto, a destruir os livros que tratam do fabrico de material de guerra ou de máquinas de guerra, ou da confecção de gases tóxicos ou da criação de bactérias mortíferas, ou de qualquer outra das invenções diabólicas dos espíritos militares: não destruiria os livros que se ocupam de estratégia ou das regras e convenções que regem a arte da guerra "civilizada". Pelo contrário, gostaria de ver intensificada a distribuição e circulação de toda essa literatura. Desejaria ver informadas sobre estas questões tanto as crianças como os adultos. Faria com que todos os homens, mulheres e crianças de toda a terra se familiarizassem com essas palavras, e as conhecessem tão bem como se pretende que conheçam a Bíblia Sagrada. Iria mais longe ainda. Colocaria a Bíblia numa estante, e, noutra, toda essa literatura homicida. Diria: se olham para uma, têem que olhar também para a outra. Faria uma distinção clara entre o livro onde se ordena que não matemos e todos os outros livros onde a matança dos homens, a matança maciça, é ensinada, explicada, aprovada e exemplificada. Lançaria família contra família, irmão contra irmão, em torno desta questão simples. Recomendar-lhes-ia: ajam de acordo com a vossa consciência. Em breve se decidirá a sorte do mundo: continuará a existir ou deixará de existir. Se são pelo mundo da guerra, alistem-se imediatamente para a guerra! Não nos confundam com a vossa indecisão. Não falem de moral se o vosso objectivo final é colaborar na destruição do nosso mundo.
Entre a Bíblia e os manuais do matadouro, situa-se o mundo da literatura, criado pela paixão, pela sede e pela imaginação do homem, e ocupando-se do pensamento, das acções, dos sonhos e das aspirações do homem. É um mundo extraído da vida, interessado apenas na vida, e que alimenta a vida. Se nele há morte, é só na medida em que lhe falta chama, profundidade, liberdade e capacidade de escolher. Se esse imenso produto da energia criadora fosse uma celebração da morte, não passaria de uma caricatura. (...)
Monstro, robot, escravo, ser maldito - pouco importa o termo utilizado para transmitir a imagem da nossa condição desumanizada. Nunca a condição da humanidade no seu conjunto foi tão ignóbil como hoje. Estamos todos ligados uns aos outros por uma ignominiosa relação de senhor e servo; todos presos no mesmo círculo vicioso entre julgar e ser julgado; todos empenhados em destruir-nos mutuamente quando não conseguimos impor a nossa vontade. Em vez de sentirmos respeito, tolerância, bondade e consideração, para já não falar em amor, uns pelos outros, olhamo-nos com medo, suspeita, ódio, inveja, rivalidade e malevolência. O nosso mundo assenta na falsidade. Seja qual for a direcção em que nos aventuremos, a esfera da actividade humana em que nos embrenhemos, não encontramos senão enganos, fraudes, dissimulações e hipocrisia. (...)
É minha convicção que estamos hoje a atravessar um período a que se poderia chamar de "insensibilidade cósmica", um período em que Deus parece, mais do que nunca, ausente do mundo, e o homem se vê condenado a enfrentar o destino que para si próprio criou. Num momento como este, a questão de saber se um homem é ou não culpado de usar de uma linguagem obscena em livros impressos parece perfeitamente inconsequente. É quase como se eu, ao atravessar um prado, descobrisse uma erva coberta de esterco e, curvando-me para a ervilha obscura, lhe dissesse em tom de admoestação: "Que vergonha!".
(Henry Miller- "A obscenidade na literatura", in O MUNDO DO SEXO E OUTROS TEXTOS)

Ann rola-se para trás e para a frente no divã enquanto eu a acaricio. Oh, o que não pensaria Sam, o que não faria ele, se a visse neste momento! (...) O que não pensaria Sam! Isto é realmente vergonhoso, da sua parte... vir aqui para ser fodida por mim, abandonando o pobre Sam. Devia estar em casa a foder com o marido, em vez de estar aqui a dar-mo... Eu não a desiludo... mas pelos meus cálculos, a estas horas Sam e Alexandra já se deve ter tornado bons amigos.
Ann puxa-me as calças para baixo e entretem-se com os meus pintelhos. Oh, aquele cabelo! Passa os dedos pelo meio deles e titila-me os tomates. (...) Ponho os meus braços em volta daquele cu enorme e encosto a cabeça às suas coxas. Rebola-se... está tão em brasa que não consegue falar acertadamente... mas ainda tem receio de meter aquela coisa na boca...
Diabo, suponho que a podia obrigar a engoli-lo... Qualquer gaja, desde que esteja aquecida, abre a boca ao sentir a cabeça dum caralho encostada aos lábios... mas eu quero que a iniciativa parta dela... ou pelo menos que ela assim o pense. Começo a lamber-lhe o ventre e as coxas... ela afasta as pernas e beija-me timidamente a barriga. Faço movimentos com os quadris, como se estivesse a foder compassadamente... e Ann acompanha-me.
Estas gajas! O que elas gostam de apanhar alguma coisa em troca de nada! Do que Ann mais gostaria, agora, era que eu lhe enfiasse a língua naquela fenda e a lambesse até ficar seca, mas não se quer familiarizar com a minha piça mais do que o faz até ao momento... Mas eu posso ser tão teimoso como ela... Lambo-lhe as bordas da cona, mordo-lhe as coxas, com o nariz titilo-lhe a pintelheira. Quando me aproximo muito da nêspera ela sussura excitada... aí... beija-me aí... porque é que não meto a língua agora...
(Henry Miller- "A França entre as pernas", in OPUS PISTORUM. Fotografia de Vanessa Braun)
Com este post dou por concluída a semana dedicada à abordagem da literatura obscena ou da obscenidade na literatura, partindo do exemplo de Henry Miller. Um exemplo que desdobrei em duas formas de tratamento: o pensamento do autor (a teorização sobre a temática em causa) e excertos de trabalhos seus (focalizados sobre episódios determinados).
Não pretendi com esta semana e com as minhas opções em termos de edição, esgotar ou mesmo "estafar" o assunto. Nada disso! Pretendi, tão só, lançar pistas de/para leitura, releitura ou mesmo reinterpretação da obra global de Miller. Abrir um caminho, foi o que desejei, também, para uma abordagem futura de outros autores. E claro, contribuir para tornar normal/mais comum a edição/contacto com um tipo de literatura com características muito próprias, permitindo sobre si um posicionamento absolutamente descomplexado.
O trabalho que desenvolvi ao longo desta semana deu-me um gosto muito particular, precisamente, por tudo o que disse. Se vos consegui tocar e, em vós, fazer encetar um olhar ou despertar um olhar diferente sobre estas temáticas, os meus objectivos foram atingidos. Obrigada pelo vosso acompanhamento :)
Já o disse e volto a confirmar, este espaço prima pela qualidade. Excelentes as tuas escolhas Sandra, nós é que temos que te agradecer. Beijinho e bom fim de semana.
Afixado por: Micas em janeiro 28, 2005 01:35 PMLi alguns livros do Henry Miller, mas não me lembro se li os 2 dos quais transcreveste passagens que são paradigmáticas do autor.
Muito menos recordo os textos que, como é óbvio, são intensos e até provocadores, como HM muito bem fazia.
A abordagem/selecção que fizeste é excelente. Parabéns pelas escolhas.
Beijinho e bfs.
Lamento pela minha prolongada ausência... mas não é só por aqui, não. O meu pc pifou... mas agora parece já estar bom...
venho aqui ler-te sempre que posso...
um beijo e vai dando notícias... :)
Ainda bem que trouxeste este tema. Gostei . Abraço e bom fim de semna :-)))
Afixado por: menina_marota em janeiro 28, 2005 11:20 PMGostei!Vou tentar ler mais alguma de Henry Miller!Gosto da forma como ele escreve,crua e nua. Gostei!
Beijinhos