
(Henry Miller)
Ah, a palavra "moral"! Sempre que aparece, penso nos crimes que foram cometidos em seu nome. As confusões que este termo engendrou abarcam quase toda a história das perseguições movidas pelo homem ao seu semelhante. Para além do facto de não existir apenas uma moral, mas muitas, é evidente que em todos os países, seja qual for a moral dominante, há uma moral para o tempo de paz e uma moral para a guerra. Em tempo de guerra tudo é permitido, tudo é perdoado. Ou seja, tudo o que de abominável e infame o lado vencedor praticou. Os vencidos, que servem sempre de bode espiatório, "não têm moral". Pensar-se-á que, se realmente glorificássemos a vida e não a morte, se dessemos valor à criação e não à destruição, se acreditássemos na fecundidade e não na impotência, a tarefa suprema em que nos empenharíamos seria da eliminação da guerra. Pensar-se-á que, fartos de carnificina, os homens se voltariam contra os assassinos, ou seja, os homens que planeiam a guerra, os homens que decidem das modalidades da arte da guerra, os homens que dirigem a indústria de material de guerra, material que hoje se tornou indescritivelmente diabólico. Digo "assassinos", porque em última análise esses homens não são outra coisa. A sangue-frio, anos antes de estalar qualquer conflito, preparam-se para obrigar os outros a obedecer-lhes; enumeram mentalmente todas as formas concebíveis de horror e destruição, e dedicam-se à sua tarefa calmamente, deliberadamente, implacavelmente, esperando apenas pelo momento certo para levarem à prática os seus planos. Os homens que são chamados a pegar em armas, os homens que são obrigados a fazer funcionar esta maquinaria inumana, embora não possam considerar-se inteiramente inocentes, não são, pelo menos, responsáveis pelo planeamento e pela preparação da carnificina. São simples vítimas que, mais tarde, e segundo os acasos do destino, serão apelidadas de cobardes ou de heróis. O seu papel é obedecer. E, mesmo que as suas vidas sejam poupadas, mesmo que não sofram, na carne, mutilações, os que sobreviverão ficarão, sem dúvida, com o espírito aleijado. Confrontados com uma nova guerra - porque uma guerra engendra sempre outras - não poderemos esperar que estas "vítimas" se mostrem caridosas e magnânimas. Tendo sofrido, contravontade, exigirão inevitavelmente que os seus filhos e filhas paguem o mesmo tributo... Portanto, o que eu digo é que, se esta escravidão de sacrifício e vingança não é imoral, se não é a forma mais absoluta de imoralidade, então essa palavra não tem sentido. Não estamos a ser destruídos e corrompidos pelos escritos pornográficos ou obscenos; estamos a ser destruídos e condenados, em todos os sentidos, pela guerra e pelo planeamento da guerra.
(Henry Miller- "A obscenidade na literatura", in O MUNDO DO SEXO E OUTROS TEXTOS)
Sendo fã do Henry Miller só posso mesmo aplaudir esta rubrica que escolheste para esta semana :)
Beijinhos
*A
{ ... que trabalho excepcional fazes tu aqui neste "canto de cisne" [no seu todo] ... bravo ...
do melhor que tenho visto © biquinha ... }{ beijos* }
Alexandre e o5elemento:
:))))))))))))
Beijinho para os dois.
Afixado por: Sandra em janeiro 27, 2005 08:21 PMQualquer coisa a dizer seria pouco. Um grande autor. E tu um requintado bom gosto no que colocas neste local tão especial, ao qual o tempo n me têm permitido dedicar toda a atenção que mereçe.Em breve voltarei com mais tempo.beijos
Afixado por: Contador de Histórias em janeiro 27, 2005 11:00 PMTenho seguido com atenção estes ultimos posts,e ainda bem que o tenho feito,porque não conhecia nada da obra de henry Miller.
Afixado por: Art Of Love em janeiro 28, 2005 02:40 AMFinalmente hoje consegui entrar!!!, há 2 dias que aqui vinha e não conseguia aceder aos comentários!!!!
Sandra adorei, adorei mesmo esta semana fantástica com Henry Miller. As tuas escolhas são excelentes. Beijinho grande e uma boa 6ªfeira.