janeiro 26, 2005

DO OBSCENO NA LITERATURA: UMA SEMANA COM HENRY MILLER (3)

Pergunto por vezes a mim próprio se não será possível existir uma razão mais profunda para que sejam proscritos os livros "imorais". Tenho notado que, o mais das vezes, o autor de uma obra "obscena" é um homem que ama a verdade. Serviu-se frequentemente da sua condenável linguagem "licenciosa" para revelar a perversidade do nosso comportamento. As suas verdades chocam, porque a verdade anda sempre nua. A falsidade e a hipocrisia, que nos nossos dias prevalecem, são uma provocação para os homens honestos, levando-os a usar uma linguagem explosiva, uma linguagem chocante. Mas aqueles para quem a verdade é bemvinda e que acreditam na vida, não encontram nessa linguagem nada de repugnante. Para dizer a verdade, eu próprio não encontro na vida muita coisa que possa ser considerada "repugnante", à excepção da maldade pura, que é rara. E é para mim perfeitamente incompreensível que se possam condenar em si mesmos ou por si mesmos um tema, um estilo ou uma forma de tratamento. Se a nossa vida quotidiana está repleta de fealdade, é inevitável que surjam homens para a descrever e revelar nos seus múltiplos pormenores. É tão impossível calar a verdade da vida como impedir a difusão do saber. O máximo a que a censura pode aspirar é a retardar o inevitável. Porque os livros, como tudo o resto neste universo, são criados como resposta às nossas necessidades, às nossas necessidades mais profundas. Fazem parte do espírito do tempo. O pensamento precisa de se exteriorizar. Se não consegue encontrar forma de vir à superfície, através das várias formas de arte, escava o solo, segue vias subterrâneas, e acaba por envenenar as próprias fontes da vida. Para mais, não é muito crível que as ideias, mesmo quando aberrantes, sejam produto de alguns indivíduos monstruosos. As ideias andam no ar, como costuma dizer-se, e o artista não faz mais do que servir-se delas. É igualmente um fenómeno muitíssimo curioso a chamada literatura obscena ser a mais resistente de todas as formas de literatura. Existiu desde os tempos mais remotos, e persiste, sem protecção, sem fazer barulho, apesar de tudo o que contra ela se possa dizer. Só uma outra categoria literária é presumivelmente tão duradoura como ela: a literatura ocultista. A primeira corresponde, sem dúvida, a alguma necessidade vital que nem as mais severas admoestações morais ou penalizações conseguem irradicar, enquanto a segunda corresponde a esse sentido do mistério que há em nós e que nenhuma explicação moral ou religiosa jamais satisfaz.


Henry Miller- "A obscenidade na literatura", in O MUNDO DO SEXO E OUTROS TEXTOS)


As cartas de Tania acabam sempre por me alcançar, ande eu por onde andar. Chegam duas, uma de manhã e outra por correio expresso. Significa que ela se sente sozinha!... vou endoidecer, se passo mais outra noite sem dormir contigo. Não penso noutra coisa, senão nesse grande pénis e nas coisa maravilhosas que ele faz; dava tudo o que tenho para o sentir outra vez, para o ter na minha mão. Chego a sonhar com ele! (...)

A minha mãe também gostaria que tu estivesses aqui para a possuíres, posso dizer-to, pois ela fala tanto a teu respeito. Está sempre a perguntar o que é que nós fazíamos, o que é que se passava nas alturas em que estávamos na cama juntos, vai até ao ponto de querer saber o que dizíamos! Vai todas as noites para a cama comigo e com Peter e obriga-me a lembê-la. Eu não me importo, gosto de o fazer, mas gostava que estivesses aqui para que me possuísses mais vezes...
E por aí fora. "De Tania com amor", é assim que termina a carta. A segunda é mais longa.
Tania descobriu uma nova loucura e, escreve ela, "tenho de te contar tudo imediatamente. Estranho não é? É porque eu gostaria que fosses tu a fazê-lo. Julgo que é por teres uma ferramenta tão grande. Quando penso no tamanho dela, sinto uma excitação enorme.
Aliás, durante a maior parte do tempo em que ele me fez aquilo, eu estive a pensar em ti.
Sentia-me tão contente por ter novamente um homem para me possuir (...) que me despi, assim que chegámos ao quarto dele. Ele queria que nos deitássemos e brincássemos primeiro, mas eu sentia-me tão em brasa que não aguentei e ele teve de me montar. Estava tão doida que o tipo teve medo que eu saltasse pela janela. Oh! era maravilhoso sentir novamente um homem a possuir-me. (...)

Arrastou-me por todo o quarto! Já me tinha possuído duas vezes, quando me disse que me ia ensinar um truque novo, mas que precisava de uma nova erecção. Limitei-me a pô-lo na boca e a chupá-lo um poucochinho e, num minuto, estava pronto para outra!
Depois, ele deitou-me no chão, de barriga para baixo, sobre umas almofadas macias e começou a possuir-me por detrás. (...) Então, de repente, senti qualquer coisa diferente e esquisita. Primeiro, pareceu-me que ele estava a ejacular e que o seu esperma escorria dentro de mim, mas a seguir começou a correr em jorros e eu percebi que ele estava a urinar! Oh! que invulgar e maravilhosa sensação aquela! O seu grande pénis estava todo enterrado, não existia qualquer saída e assim, o líquido mantinha-se lá dentro. Era tão quente que toda eu ardia, sentindo, ao mesmo tempo, a urina a invadir todos os recessos íntimos do meu corpo. (...)
Não podes imaginar como me senti depois de ele ter retirado o pénis, ali deitada, com a urina de um homem no meu interior e fazendo pressão sobre o meu estômago. Em seguida, ele levou-me para a casa de banho e, aí, eu deixei sair a urina, litros e litros dela a saírem-me pelo cu e ele de pé, à minha frente, obrigando-me a chupar-lhe o pénis.


(Henry Miller- "Sous les toits de Paris", in OPUS PISTORUM)

Fotografias editadas: Vanessa Braun.

Publicado por void em janeiro 26, 2005 06:48 AM
Comentários

Podes crer! Só a maldade pura é que é obscena!...
(Não me sai da cabeça o 'Henry and June'; nem o Afrodite, da Isabel Allende, que também cita parte de Henry.)
As questões levantadas pelos textos que seleccionaste reportam num link directo à contemporaneidade - a violência! Repensá-la e associar o Poder contido na energia sexual ao Poder que aniquila nas várias formas de Pressão.
Seria Freud a interpretar, por um lado, e Henry a exemplificar, por outro. Pensar e fazer; fazer e pensar - dois sentidos na via de dois sentidos, dos sentidos.

Afixado por: MJM em janeiro 30, 2005 05:19 PM