janeiro 24, 2005

DO OBSCENO NA LITERATURA: UMA SEMANA COM HENRY MILLER (1)

De hoje até Sexta-feira darei, aqui no Abismo, particular destaque ao tema "Obscenidade na Literatura" (designação que não entendo como estática, antes discutível), sendo que neste contexto sobressairão as opiniões do escritor americano Henry Miller (1891-1980), pela representatividade que teve/tem tido/tem no "tipo" de escrita que naquela designação tem cabimento. Mas para além das opiniões, darei também atenção particular às suas estórias, ou seja, ao terreno onde tais opiniões tiveram/têm tido aplicabilidade, ou melhor, como o tiveram/têm tido. Entendo, pois, que este é o formato mais completo para melhor se conhecer e compreender o trabalho global do autor e, a partir dele, pensarmos e opinarmos sobre a temática. No entanto, Miller será apenas o primeiro autor do género que aqui trarei. Outros se seguirão no sentido, também, de consolidarmos e aprofundarmos o debate.

Durante muito tempo, incluindo no próprio presente (e/ou passado muito recente), a literatura de carácter erótico (ou acentuadamente erótico), onde o sexo é abordado de forma particularmente explícita e numa linguagem especialmente crua, raiando ou chegando mesmo ao pornográfico, tem sido entendida como uma espécie de "contracultura", distanciada dos "normais" cânones literários.
Foram muitos os anos, ou melhor, os séculos em que a censura foi incisiva sobre esta forma de escrita: reportando-nos ao Mundo Moderno e Contemporâneo, desde o século XV (em particular com a Inquisição e, posteriormente, outras instituições) até ao século XX, as obras proibidas foram imensas e os seus autores afastados dos núcleos literários, abrindo-se assim terreno para a denominada "literatura clandestina" (igualmente conhecida por literatura licenciosa ou obscena). Henry Miller, no século passado, teve que esperar anos até ver as suas obras livremente traduzidas e publicadas não só na Europa (tradução e publicação), mas também nos EUA (publicação). Por isso ser uma referência aqui. Por isso ser a primeira referência aqui, com um enquadramento próprio e distinto (recordo que neste blog já foi editado Sade).

Não quero alongar mais esta minha introdução. Propositadamente não o vou fazer. Prefiro que ao longo desta semana, e com o deparar dos textos, façamos todos as nossas reflexões e emitamos as nossas opiniões. Julgo, pois, ser o mais indicado. E para isso, passemos, pois, a Miller:

É indubitável que o sexo constitui parte essencial da vida. É também um facto geralmente reconhecido que o papel do sexo, ou a sua importância na vida de cada um, varia segundo o indivíduo. O problema parece ser o seguinte: até que ponto pode a verdade da vida, naquilo que se relaciona com o comportamento sexual, ser utilizado na literatura? Talvez não resida sequer aqui o problema, mas antes na maneira como o sexo é apresentado. Em suma, talvez a questão pudesse ser assim formulada: Haverá uma maneira certa e uma maneira errada de tratar o sexo numa obra de arte? O que nos conduz imediatamente à questão seguinte: A maneira certa será a do moralista, a do censor, a do polícia? Ou, se preferirem, será o Estado, por intermédio dos seus legisladores, o árbitro em última instância sobre o que está certo e errado, o que é bom e mau, em matéria de arte?
Parece-me a mim que o pressuposto em que se baseiam as acções restritivas dos nossos guardiãos morais é simplesmente o de que o acesso à literatura proibida nos pode levar a comportar-se como animais. Mas pensar assim é insultar o reino animal. E, ao mesmo tempo, transformar a paixão, o maior atributo do homem, numa caricatura. (...) De todas as criaturas da terra, o homem é a única de comportamento imprevisível. Há em nós alguma coisa de toda a criação. Quando nos é negada a menor parcela de liberdade, ficamos espiritualmente limitados e mutilados. É a plena consciência da nossa natureza múltipla e a integração da miríade de elementos de que somos compostos que nos faz completos, que nos faz humanos. A religião faz de nós santos, ou apenas bons cidadãos; mas o que faz de nós homens, o que nos faz humanos até ao âmago é a liberdade. É uma palavra terrível, a liberdade, para aqueles que viveram toda a vida mentalmente algemados. (...)
Estou honestamente convencido de que o medo e o horror que o obsceno inspira nos dias de hoje, deriva mais da linguagem utilizada do que do pensamento. É como se lidássemos aqui com tabus primitivos. O facto de certas palavras, certas expressões, geralmente - mas nem sempre - associadas ao sexo, terem passado a ser consideradas "proibidas" é, no fundo, perfeitamente enganador. Aqueles a quem estes símbolos escritos chocam, desgostam, ferem ou horrorizam estão familiarizados com eles na língua falada. Todos ouvimos diariamente essas expressões "indecentes", "ordinárias", "feias", do berço à sepultura. Como e porquê, então, não nos tornámos imunes a elas? Que sortilégio possuem, de que não sabemos proteger-nos? Note-se que é, em particular, contra o seu uso na literatura que lutam os virtuosos. Mas porque há-de a literatura ser mais sacrossanta do que a fala? Não será a escrita uma outra forma de fala? Será que a juventude é corrompida - venerável termo de que constantemente nos servimos - apenas pela linguagem obscena? Os corruptores da juventude têm sido, ao longo dos tempos, objecto de tantas e tão variadas acusações que é difícil imaginar como seria possível ampliar a lista dos "males". E é sempre o próprio espírito da vida que constitui o alvo dessas acusações. A vida, porém, como tantas vezes tem sido demonstrado, não aceita ser restringida ou diminuída por códigos morais, por leis ou ditames de espécie alguma. O que rege a vida é o espírito, e o espírito do homem, divino por essência, permanece inviolável.


(Henry Miller- "A obscenidade na literatura", in O MUNDO DO SEXO E OUTROS TEXTOS. Fotografia de Vanessa Braun)

Publicado por void em janeiro 24, 2005 06:53 AM
Comentários

Não sei se gostei mais da tua introdução ou do excerto do livro (que já li). Henry Miller é um dos meus escritores de eleição, uma referência para mim. Concerteza que já te deste conta que muitos dos seus livros são quase autobiográficos na sua totalidade. Fico fascinada pela sua lucidez, pela sua escrita que vai alternando entre o lírico e as suas anotações directas, por vezes quase obscenas. Pelo seu talento para a ironia. Já por várias vezes coloquei pequenas citações de Miller no meu espaço. Bem, mas acho melhor parar por aqui, isto já não é um comentário, já se pode considerar quase um testamento ;), ADOREI Sandra, adoro H.Miller e adorei ver Miller retratado por ti. Obrigada por este belo momento. Beijinho grandeeeeeeee

Afixado por: Micas em janeiro 24, 2005 09:13 PM

{ ...

venho só deixar um mimo [que bem mereces]

deixa que te beije*deleite em palavras por ti perfumadas,
deixa que te cheire*doçuras em palavras por ti aromatizadas,
deixa que te goste*saboreie em palavras que em mim agradas
© o5elemento

beijos*

... }

Afixado por: o5elemento em janeiro 24, 2005 11:31 PM

Bem eu vim deixar um olá! =) **

Afixado por: xana em janeiro 24, 2005 11:44 PM

Micas: sim, tenho perfeita consciência desse cunho autobiográfico na obra de Miller. Este é como que um auto-eroticista. E não o esconde. Concordo com a ideia de lucidez que apresentas e com a de ironia também. Aliás, ambas perpassam quer em termos de opiniões, quer nas próprias estórias. Miller é um escritor que merece ser lido, não só porque abana consciências, mas também porque a partir desse abanar nos permite reconsiderar determinado tipo de realidades: nossas (relacionadas connosco), dos outros (relacionadas com os outros), de nós com os outros (que estabelecem relações entre nós e os outros) e relativas à sociedade/mundo em geral.
ADOREI o teu testamento ;) Obrigada pelas tuas palavras finais.
Beijo grandeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeee :)))


5º elemento: obrigada pelo mimo. Mais um. Gosto muito de os receber. Deste, tal como dos outros, gostei muito.

Jokas ;)


Xana: e fizeste muito bem ;)

Beijinho

Afixado por: Sandra em janeiro 25, 2005 08:54 AM