Depois de uma semana de interregno, eis que retomo a estória escrita pela Alexandra. Uma estória... a estória... onde o "eu masculino" se continua a impôr com as suas lembranças/recordações/memórias. De-mos-lhe, pois, toda a atenção:
VER-ME NELA

Continuo aqui a olhar para mim num presente que já é futuro, embora passe tão devagar que dói como nunca me doeu na vida; uma dor igual à dor do dia em que deixaste a nossa casa, e uma dor igualmente terrível ao dia em que morreste e me deixaste perdido na casa que abandonaste. E quando eu me vejo criança, no dia em que olhei para ti pela primeira vez, e compreendo a razão do poder que sempre tiveste em fazer de mim eu, parece que dói mais. Porque é a dor de querer tanto, tanto voltar àquele dia, e encontrar-me criança nos teus olhos. É a dor do querer tanto, tanto voltar ao dia em que me senti eu mais que nunca, nunca tão completo como naquele momento e a partir daquele instante de desejo e travessura embrulhados num papel inocente de rebuçado.
Os teus olhos ávidos de vida e esperança. E eu a olhar para ti e a visualizar projectos de pontes que nos fariam chegar a outra margem completamente diferente do que tinha sido a minha vida até ali, até esbarrar com a linha negra de pestanas farfalhudas que adornavam um olhar que me disse. Acredita em ti, porque ao fazê-lo, acreditarás em mim também. E eu hoje sei, eu hoje sei que nesse momento, ainda que, inconscientemente cego pela paixão, eu vi-me em ti e tu viste-te em mim.
Tu morta nestes dias. E eu a reviver o dia que menos doeu, quando foi aquele dia, e que agora dói mais por sabê-lo tão longe, tão fechado. O meu coração caixa-forte. O dia caixa-forte sem código de acesso. O código marcado nas impressões digitais nos teus dedos e dos teus pensamentos. E toda tu impressão digital código mortos e desaparecidos para sempre. E a impossibilidade de aceder ao dia que menos doeu na minha vida e que agora dói mais porque já não posso começar-te de novo. Começar-te toda em mim e construir-me todo em ti. Porque agora só posso acabar-me; acabar em mim, o eu incompleto, o eu que já não sou eu. Um eu cigarro tuberculoso que morre sentado numa cadeira cinzeiro de mármore. É assim que me vejo do lado de fora com os olhos fixos num cemitério de filtros retorcidos e manchados de nicotina.
(Texto de Alexandra Antunes. Fotografia de Vanessa Braun)
O próximo capítulo será editado Sábado, dia 29. Amanhã, o retomar da poesia de adolescência da autora. Fiquem bem!
A história de X e Y começa-me a violentar. Adorei o início, mas agora (pradoxalmente) diz-me DEMAIS! Agride-me.
De qualquer forma, não consigo parar de ler.
Parece que o espelhar ou reflexo para o íntimo/pessoal se está a acentuar, Luís. Assim sendo, dizer-te exactamente o quê? Para já: que a agressão (emocional) não seja dolorosa ao ponto de te fazer sofrer para além de... enfim... estabelece o melhor possível as tuas fronteiras. Se optas por te desafiar... bem...
Beijinho.
Afixado por: Sandra em janeiro 22, 2005 06:28 PMDelicio-me com cada palavra de cada capítulo... Tento arranjar a banda sonora para cada capítulo que leio, para assim o reler ao som de uma música... Elisa - simplicity é a minha sugestão para este capítulo... Beijinhos
Afixado por: missantipatia em janeiro 22, 2005 06:49 PMMissantipatia: um esforço teu bastante interessante. Relação que pode, sem dúvida, estimular ainda mais quem lê, numa envolvência enriquecida dos sentimentos/emoções em jogo ou susceptíveis de o serem.
Um grande beijinho para ti :)
Afixado por: Sandra em janeiro 22, 2005 08:04 PM