Harold Pinter nasceu em Inglaterra no ano de 1930. De 1957 até ao presente a sua carreira tem-se pautado por trabalho ao nível da autoria de peças, como encenador, argumentista e actor, distribuindo-se toda esta actividade pelo Teatro, Cinema, Rádio e Televisão. Desde os anos 60 que é um dos dramaturgos mais representado em todo o mundo. A sua estreia em Portugal ficou a dever-se a Jacinto Ramos (falecido no ano passado), com a peça "O Monta-Cargas", em 1963.
A peça que aqui apresento parte foi escrita no ano de 1996. Passemos a ela:
Uma casa no campo.
Sala de estar no piso térreo. Uma janela grande.
Um jardim por detrás da janela.
Duas poltronas. Dois candeeiros.
Final da tarde. Verão.
A sala vai escurecendo durante o desenvolvimento da acção da peça.
A luz dos candeeiros intensifica-se.

Devlin está de pé, com uma bebida na mão. Rebecca está sentada. Silêncio.
REBECCA- Por exemplo... ele deixava-se ficar de pé, à minha frente, e cerrava o punho. E depois punha a sua outra mão no meu pescoço, agarrava-o e empurrava a minha cabeça até si. Roçava o seu punho... sobre a minha boca. E dizia: "Beija o meu punho."
DEVLIN- E tu beijavas?
REBECCA- Oh, claro. Beijava-lhe o punho. Os nós dos dedos. E depois ele abria a mão e oferecia-me a palma da mão... para eu beijar... e eu beijava-a.
Pausa.
E depois eu falava.
DEVLIN- E o que dizias? Dizias o quê? Dizias-lhe o quê?
Pausa.
REBECCA- Eu dizia: "Põe a tua mão à volta da minha garganta." Murmurava através da sua mão, enquanto a beijava, mas ele ouvia a minha voz, ouvia-a através da sua mão, sentia a minha voz na sua mão, ouvia-a ali.
Silêncio.
DEVLIN- E ele punha? Ele punha a mão à volta do teu pescoço?
REBECCA- Oh, claro. Punha. Claro. E mantinha-a ali, delicadamente, muito, muito delicadamente, tão delicadamente. Ele adorava-me, estás a perceber?
DEVLIN- Adorava-te?
Pausa.
E isso significa o quê, "ele adorava-te"? O que é que isso significa?
Pausa.
Queres tu dizer que ele não colocava qualquer pressão sobre a tua garganta? É isso que tu queres dizer?
REBECCA- Não.
DEVLIN- Então o quê? O que é que tu queres dizer?
REBECCA- Ele exercia alguma... pressão... sobre a minha garganta, claro. De tal modo que a minha cabeça começava a cair para trás, delicada, mas expressivamente.
DEVLIN- E o teu corpo? Para onde caía o teu corpo?
REBECCA- O meu corpo caía para trás, lenta, mas expressivamente.
DEVLIN- De tal modo que as tuas pernas se abriam?
REBECCA- Sim.
Pausa.
DEVLIN- As tuas pernas abriam-se?
REBECCA- Sim.
Silêncio.
DEVLIN- Sentes que estás a ser hipnotizada?
REBECCA- Quando?
DEVLIN- Agora
REBECCA- Não.
DEVLIN- A sério?
REBECCA- Não.
DEVLIN- Porque não?
REBECCA- Por quem?
DEVLIN- Por mim.
REBECCA- Por ti?
DEVLIN- O que é que tu achas?
REBECCA- Acho que tu és um cabrão.
DEVLIN- Eu, um cabrão? Eu! Deves estar a brincar.
Rebecca sorri.
REBECCA- Eu, a brincar? Deves estar a brincar.
Pausa.
DEVLIN- Tu percebes por que é que te estou a fazer estas perguntas, não percebes? Põe-te no meu lugar. Sou forçado a fazer-te estas perguntas. Há tantas coisas que eu não sei. Não sei nada... de toda esta história. Nada. Estou às escuras. Preciso de luz. Ou será que achas as minhas perguntas impróprias?
Pausa.

REBECCA- (...) Não consigo dizer-te como é que ele era.
DEVLIN- Esqueceste-te?
REBECCA- Não. Não me esqueci. Mas a questão não é essa. Seja como for, ele foi-se embora há muitos anos.
DEVLIN- Foi-se embora? Para onde?
REBECCA- O trabalho obrigou-o a partir. Ele tinha um emprego.
(...)
DEVLIN- (...) Estou a falar do teu amante. Do homem que tentou assassinar-te.
REBECCA- Assassinar-me?
DEVLIN- Matar-te.
REBECCA- Não, não. Ele não tentou assassinar-me. Ele não queria assassinar-me.
DEVLIN- Ele sufocou-te e estrangolou-te. A diferença não é muita. Segundo o teu relato. Não é verdade?
REBECCA- Não, não. Ele sentia compaixão por mim. Ele adorava-me.
DEVLIN- Tinha um nome, esse homem? Era estrangeiro? E onde é que eu estava na altura? O que é que tu queres que eu compreenda? Que me foste infiel? Por que é que não falaste comigo? Porque é que não confessaste? Ter-te-ias sentido muito melhor. A sério. Poderias ter-me tratado como um padre. Poderias ter-me posto à prova. Sempre quis ser posto à prova. Costumava ser uma das minhas ambições de vida. E agora perdi a grande oportunidade. A menos que tudo isto tenha acontecido antes de eu te ter conhecido. E, nesse caso, não tens qualquer obrigação de me contar seja o que for. Não tenho nada a ver com o teu passado. Quando se leva uma vida dedicada à investigação e à universidade, não nos podemos permitir ser incomodados pelas realidades mais frívolas, tu sabes, mamas, esse tipo de coisas.
(...)
Devlin aproxima-se de Rebecca. Fica de pé junto dela e olha para ela.
Cerra o punho e coloca-o em frente ao seu rosto.
Coloca a mão esquerda sobre o pescoço de Rebecca e aperta-o. Aproxima o rosto dela do seu punho. O seu punho aflora os lábios dela.
DEVLIN- Beija o meu punho.
Ela não se mexe.
Ele abre a mão e coloca a palma da mão sobre a boca de Rebecca.
Ela não se mexe.
DEVLIN- Fala. Diz. Diz: "Põe a tua mão à volta da minha garganta."
Ela não fala.
Pede-me para pôr a minha mão à volta da tua garganta.
Ela não fala nem se mexe.
Ele coloca a mão na garganta dela. Pressiona delicadamente.
A cabeça dela cai para trás.
Permanecem imóveis.
(...)
Longo silêncio.
Escuro.
(Harold Pinter- CINZA ÀS CINZAS. Fotografias relativas à representação levada a cabo por João Cardoso e Rosa Queiroga. Estreia da peça: Fevereiro de 2002 no Espaço A Capital/Teatro Paulo Claro- Lisboa-)
E com o excerto de peça editado dou por encerrada esta semana dedicada ao Teatro. Espero que tenham gostado e que esta minha paixão vos tenha, de certa forma, despertado para uma forma muito particular de expressão/comunicação. Para uma forma muito particular de Arte.
Deixei-vos alguns nomes da dramaturgia contemporânea. Deixei-vos alguns exemplos de peças. Deixei-vos a 1ª semana de uma iniciativa que pretendo alargar e aprofundar. Como disse na Segunda-feira passada, em Fevereiro volto. Volto com mais Teatro. Volto com mais um conjunto de nomes e trabalhos que tudo vou fazer para que vos prendam a este meu palco.
Até lá!
Adorei a semana dedicada ao teatro :)
Excelente ideia ó grande senhora,lol. Bom fim de semana ,beijinhos linda************
Para tristeza minha, não tenho muita oportunidade de ir ao Teatro, porque a única pessoa que me podia acompanhar, infelizmente, não pode. Por isso, acedo ao gosto do meu adolescente filho, e vou ao cinema! Mas não perdi a esperança de um dia ele gostar MESMO de Teatro. Bom fim de semana e jinhos :-)
Afixado por: menina_marota em janeiro 21, 2005 03:53 PMJorge: o cuidado das tuas palavras para balanço deste meu trabalho agradaram-me/sensibilizaram-me bastante. Sim, o próximo ciclo vai começar a ser já preparado. Já tenho mais alguns dramaturgos pensados, assim como peças. Há, neste sequência, de pensar ainda nos excertos a editar... o que nem sempre é fácil ou imediato, atendendo ao factor representatividade. Mas é um trabalho que me dá grande gosto.
Beijo grande para ti :))
Mónica: tu... tu.... enfim ;)
Obrigada tb pelo teu apoio e carinho.
Beijo grande :)
Menina_marota: já "falei" no teu blog ;)
Beijinho :)
Afixado por: Sandra em janeiro 21, 2005 05:45 PMOLA :D participa no meu desafio sorriso. Manda-me o teu sorriso para o meu mail, esta tudo explicadinho no meu blog. APARECE
Afixado por: Patricia em janeiro 21, 2005 07:42 PMInteressante esta semana de posts dedicada ao teatro! Já cá não vinha há bastante tempo ... coisas da gripe e das dores de "pinha" que ela provoca! Um beijo
Afixado por: Pink, the Lady em janeiro 21, 2005 08:58 PMTiveste uma óptima ideia com esta semana dedicada ao teatro. Nem sempre comentei mas li sempre e parece-me que chamaste a atenção para dramaturgos menos conhecidos a par doutros, como é o caso de hoje, mais divulgados. Um bom trabalho, no conjunto. Beijinhos, Sandra.
Afixado por: lique em janeiro 21, 2005 10:00 PME viva a alusão ao Teatro... consequentemente, Viva o Void.. Aquele beijinho Sandra......
Afixado por: Miguel em janeiro 21, 2005 10:17 PMPink, Lique, Miguel: muito obrigada pelas vossas palavras. Acreditem que são muito importantes para mim. Lique: para quem frequenta e lê Teatro todos os dramaturgos apresentados esta semana são mais do que da família ;)
Beijos a todos :))
Patrícia: para já, um grande sorriso a partir daqui :)))))
Jokas ;)
Afixado por: Sandra em janeiro 22, 2005 09:11 AMEncerraste esta semana dedicada ao teatro em beleza. Gostei imenso desta semana, pelos dramaturgos escolhidos, pelos excertos das peças. Um grande beijinho de Parabéns pelo projecto que espero continues. Beijinho e continuação de bom fim de semana ;)
Afixado por: Micas em janeiro 22, 2005 09:27 PMAdorei!!!
Afixado por: Pedro em janeiro 22, 2005 09:56 PM