
(Anthony Neilson)
Deixo-vos com um excerto de "Penetrador", peça da autoria de Anthony Neilson, datada de 1993.
Relativamente ao dramaturgo: nasceu na Escócia em Março de 1967. As suas primeiras peças datam de finais dos anos 80 e em 1991 o seu trabalho é particularmente reconhecido no Festival de Edimburgo atendendo ao êxito de "Normal: o estripador de Dusseldorf". Estas mesmas peças (e toda a sua produção) têm sido traduzidas e representadas por toda a Europa, incluindo em Portugal, particularmente "Cicatrizes" (escrita em 2002), pelos Artistas Unidos.
Neilson é um dos percursores da denominada geração In Yer Face, que se caracteriza por uma escrita directa, musculada e bastante preocupada com os problemas da actualidade. A peça aqui editada (parte) é prova disto mesmo. Passemos, pois a ela, para que tal possa ser devidamente percebido:
PIÇA [Soldado que desertou]- Estou metido em problemas, pá. Têm andado a perseguir-me.
MAX (pausa)- Quem?
PIÇA (pausa)- Os Penetradores.
Uma longa pausa. Max olha para Alan, que encolhe os ombros intrigado.
MAX- Os Penetradores?
Pausa. Piça aquiesce. Ruídos abafados vindos da televisão da porta ao lado.
PIÇA- Vai até ao topo da hierarquia. Descobri-os. Queriam que eu me alistasse mas eu não quis e agora querem matar-me.
ALAN- Matar?
PIÇA (aquiesce. Pausa)- Vão descobrir-me e matar-me para que eu nunca possa contar. E depois eliminam as fichas como se eu nunca tivesse existido. Podem fazer isso. São muito poderosos. Podem fazer com que nunca lá tivesse estado.
ALAN- Mas nós sabemos, Piça.
PIÇA (pausa)- Talvez também vos matem.
Pausa. Alan olha para Max.
ALAN- Ele disse aquilo que eu penso que ele disse?
MAX aquiesce.
MAX- Mas que raio de merda é que eles fazem, esses... terminadores ou lá o que é?
PIÇA- Penetradores.
MAX- Penetradores
PIÇA- Penetram.
ALAN- Pergunta imbecil.
MAX- O que é que eles são uma... unidade disfarçada ou... ?
PIÇA diz que não com a cabeça.
PIÇA- Enfiam-te coisas. (Pausa.) Pelo cu acima.
MAX- Pelo cu acima?
PIÇA- Enfiam-te coisas. Toda a espécie de coisas. Descobri-os e eles mantiveram-me num... quarto escuro, era um... apenas um quarto escuro. Drogaram-me. Nunca vi as caras deles. Acordavam-me de vez em quando para me poderem fazer mais coisas. Devem ter passado semanas. Não sei quanto tempo. Talvez meses.
Uma longa pausa.
ALAN- Não me surpreende.
MAX- Não?
ALAN (diz que não com a cabeça)- Já ouvi coisas assim. Nós não sabemos nem metade daquilo que acontece nesses sítios. Era o que eu estava a dizer.
MAX- Mas fugiste...?
PIÇA- Só queria tomar os meus comprimidos. Esperei por eles no quarto escuro. Dessa vez vieram três. Tinham um pau de madeira. Iam-mo enfiar.
Levanta-se, tentando lembrar-se. Começa a mimar os acontecimentos, mais ou menos, como se não estivessem bem claros na sua memória e procurasse clarificá-los.
Disseram-me para eu... me inclinar...?
Inclina-se.
Por isso inclinei-me mas depois eu...
Olha à volta, e depois para Alan.
Alan, tu fazes o tipo.
Pausa. Alan olha para ele.
ALAN- Eu estou a beber chá...
Piça fá-lo levantar-se gentilmente.
PIÇA- Não te faço mal.
Alan olha para Max que o tranquiliza. Ele permite, relutantemente, que Piça o manipule. Piça inclina-se, colocando Alan atrás dele.
PIÇA- Portanto eu estou inclinado. Alan, finge que tens um pau.
MAX- Não vai ser fácil.
Alan sorri com sarcasmo.
ALAN- O que é que tu queres dizer?
PIÇA- Finge que tens um pau e que mo vais enfiar.
Sentindo-se idiota, Alan fá-lo. Lentamente, Piça passa em revista os movimentos.
Virei-me ao contrário... (...) Agarrei no pau... (...) E eu -
Mima partir o pau nas pernas dele. Um movimento brusco.
parti-o ao meio... (...) E depois eu -
Dá uma volta sobre si próprio rapidamente, dando um soco no olho de Alan.
No olho dele.
Alan encolhe-se.
PIÇA- E -
Mais um movimento rápido e agarra Alan pelo cabelo. Alan uiva e Max pára de rir.
Agarrei no outro e -
Puxa a cabeça de Alan para trás. Ele morre. Piça mima atingi-lo com o pau três vezes na garganta. Cada pancada aproxima-se perigosamente mais
assim e ouviu-se um som e -
Força Alan a ajoelhar-se. Tudo isto acontece em segundos.
o terceiro no chão e -
Puxa o cabelo de Alan até ele rodar sobre si próprio.
UACK!
Max dá um salto com o grito. Piça mima bater nos tomates de Alan com o pau. Alan reage instintivamente a cada pancada.
PIÇA- UAC! nos tomates
UAC! chamando-lhe maricas de merda
UAC!
UAC!
UAC! e já havia sangue
UAC! UAC! UAC! UAC!
UAC!
(...)
Deixou de se mexer. Deixou de respirar. (Pausa.) Eu saí, saltei a rede. Apanhei a estrada. Vim para aqui.
(...)
Piça remexe no saco que tem no colo e quase imediatamente tira de lá uma enorme e feia faca de caça: uma faca que acaba com todas as facas. Max e Alan ficam um bocado perturbados.
ALAN- Foda-se!
MAX- Por amor de Deus caralho!
Piça estende-a orgulhosamente, olhando para ela.
PIÇA- Terei-a a um deles. Ia espetar-ma no cu.
(...)
MAX- Caralhos ma fodam. Isto é material do exército. (Pausa.) Isto é mau. (Pausa.) Molda-se perfeitamente à mão, não é?
(...)
ALAN- (...) Quer dizer, se tu tiraste realmente a faca a alguém que te queria apunhalar com ela... é claro que a devias levar a alguém...
PIÇA- Quem?
ALAN- Bom, ao teu... superior no exército ou a alguém...
PIÇA- Mas eles fazem todos parte do mesmo!
ALAN- Então à polícia...
PIÇA- Não eles estão por todo o lado, não só no exército, não só... os Penetradores, eles estão... vocês não sabem...
(Anthony Neilson- PENETRADOR)
Não conhecia e gostei muito de ler esta passagem. Obrigado pelo despertar da curiosidade que criaste :)
Beijo
*A
A peça é muito interessante, Alexandre. Recomendo-te a leitura integral. Obrigada pelas tuas palavras.
Beijinho :)
Afixado por: Sandra em janeiro 20, 2005 06:25 PMGostei de ler este excerto.
Afixado por: Art Of Love em janeiro 20, 2005 06:56 PMArt of Love: gostaste? Ainda bem? ;)
Não é por nada, mas tb te recomendo os já editados e o de amanhã. Não é por nada, claro! ;)
Beijokas :)
Afixado por: Sandra em janeiro 20, 2005 07:52 PMNão ando com muita disposição para comentar, mas venho visitar-te sempre que posso. Não conhecia este autor. Achei interessante. Fez-me lembrar de alguma forma a crítica latente no Big Brother do George Orwell. A nossa pouca liberdade e a forma como somos espiados, manipulados, enganados. Beijo
Afixado por: Monalisa em janeiro 20, 2005 08:32 PMOlá Sandra obrigado pela sugestão Maria Teresa Horta!beijinhos Um optimo fim de semana Cheio de coisas boas! :)
Afixado por: xana em janeiro 20, 2005 11:13 PMAchei bastante interessante este excerto. Mesmo vindo tarde, vale pelo prazer que levo daqui. Beijinho Sandra e uma boa noite.
Afixado por: Micas em janeiro 20, 2005 11:14 PMTou aqui todo encolhidinho :-))
Obrigado por dares a conhecer parte da peça com um fantástico i de permeio.
Monalisa, Xana, Micas, Anjo: fico muito contente com a vossa visita e registo de opinião/palavras.
Fico contente por a minha escolha vos ter, de alguma forma, tocado.
Anthony Neilson é um dramaturgo que vale a pena aprofundar. E claro: não procurem "leveza" nas suas peças. Pelo que eu disse na sua apresentação, dá para entender que é precisamente o contrário. Assim sendo, para quem gostar ... ;)
Um grande beijinho a todos :))
Afixado por: Sandra em janeiro 21, 2005 07:05 AM