janeiro 20, 2005

PENETRADOR ("UMA SEMANA NO TEATRO")


(Anthony Neilson)

Deixo-vos com um excerto de "Penetrador", peça da autoria de Anthony Neilson, datada de 1993.
Relativamente ao dramaturgo: nasceu na Escócia em Março de 1967. As suas primeiras peças datam de finais dos anos 80 e em 1991 o seu trabalho é particularmente reconhecido no Festival de Edimburgo atendendo ao êxito de "Normal: o estripador de Dusseldorf". Estas mesmas peças (e toda a sua produção) têm sido traduzidas e representadas por toda a Europa, incluindo em Portugal, particularmente "Cicatrizes" (escrita em 2002), pelos Artistas Unidos.
Neilson é um dos percursores da denominada geração In Yer Face, que se caracteriza por uma escrita directa, musculada e bastante preocupada com os problemas da actualidade. A peça aqui editada (parte) é prova disto mesmo. Passemos, pois a ela, para que tal possa ser devidamente percebido:


PIÇA [Soldado que desertou]- Estou metido em problemas, pá. Têm andado a perseguir-me.

MAX (pausa)- Quem?

PIÇA (pausa)- Os Penetradores.

Uma longa pausa. Max olha para Alan, que encolhe os ombros intrigado.

MAX- Os Penetradores?

Pausa. Piça aquiesce. Ruídos abafados vindos da televisão da porta ao lado.

PIÇA- Vai até ao topo da hierarquia. Descobri-os. Queriam que eu me alistasse mas eu não quis e agora querem matar-me.

ALAN- Matar?

PIÇA (aquiesce. Pausa)- Vão descobrir-me e matar-me para que eu nunca possa contar. E depois eliminam as fichas como se eu nunca tivesse existido. Podem fazer isso. São muito poderosos. Podem fazer com que nunca lá tivesse estado.

ALAN- Mas nós sabemos, Piça.

PIÇA (pausa)- Talvez também vos matem.

Pausa. Alan olha para Max.

ALAN- Ele disse aquilo que eu penso que ele disse?

MAX aquiesce.

MAX- Mas que raio de merda é que eles fazem, esses... terminadores ou lá o que é?

PIÇA- Penetradores.

MAX- Penetradores

PIÇA- Penetram.

ALAN- Pergunta imbecil.

MAX- O que é que eles são uma... unidade disfarçada ou... ?

PIÇA diz que não com a cabeça.

PIÇA- Enfiam-te coisas. (Pausa.) Pelo cu acima.

MAX- Pelo cu acima?

PIÇA- Enfiam-te coisas. Toda a espécie de coisas. Descobri-os e eles mantiveram-me num... quarto escuro, era um... apenas um quarto escuro. Drogaram-me. Nunca vi as caras deles. Acordavam-me de vez em quando para me poderem fazer mais coisas. Devem ter passado semanas. Não sei quanto tempo. Talvez meses.

Uma longa pausa.

ALAN- Não me surpreende.

MAX- Não?

ALAN (diz que não com a cabeça)- Já ouvi coisas assim. Nós não sabemos nem metade daquilo que acontece nesses sítios. Era o que eu estava a dizer.

MAX- Mas fugiste...?

PIÇA- Só queria tomar os meus comprimidos. Esperei por eles no quarto escuro. Dessa vez vieram três. Tinham um pau de madeira. Iam-mo enfiar.

Levanta-se, tentando lembrar-se. Começa a mimar os acontecimentos, mais ou menos, como se não estivessem bem claros na sua memória e procurasse clarificá-los.

Disseram-me para eu... me inclinar...?

Inclina-se.

Por isso inclinei-me mas depois eu...

Olha à volta, e depois para Alan.

Alan, tu fazes o tipo.

Pausa. Alan olha para ele.

ALAN- Eu estou a beber chá...

Piça fá-lo levantar-se gentilmente.

PIÇA- Não te faço mal.

Alan olha para Max que o tranquiliza. Ele permite, relutantemente, que Piça o manipule. Piça inclina-se, colocando Alan atrás dele.

PIÇA- Portanto eu estou inclinado. Alan, finge que tens um pau.

MAX- Não vai ser fácil.

Alan sorri com sarcasmo.

ALAN- O que é que tu queres dizer?

PIÇA- Finge que tens um pau e que mo vais enfiar.

Sentindo-se idiota, Alan fá-lo. Lentamente, Piça passa em revista os movimentos.

Virei-me ao contrário... (...) Agarrei no pau... (...) E eu -

Mima partir o pau nas pernas dele. Um movimento brusco.

parti-o ao meio... (...) E depois eu -

Dá uma volta sobre si próprio rapidamente, dando um soco no olho de Alan.

No olho dele.

Alan encolhe-se.

PIÇA- E -

Mais um movimento rápido e agarra Alan pelo cabelo. Alan uiva e Max pára de rir.

Agarrei no outro e -

Puxa a cabeça de Alan para trás. Ele morre. Piça mima atingi-lo com o pau três vezes na garganta. Cada pancada aproxima-se perigosamente mais

assim e ouviu-se um som e -

Força Alan a ajoelhar-se. Tudo isto acontece em segundos.

o terceiro no chão e -

Puxa o cabelo de Alan até ele rodar sobre si próprio.

UACK!

Max dá um salto com o grito. Piça mima bater nos tomates de Alan com o pau. Alan reage instintivamente a cada pancada.

PIÇA- UAC! nos tomates
UAC! chamando-lhe maricas de merda
UAC!
UAC!
UAC! e já havia sangue
UAC! UAC! UAC! UAC!
UAC!

(...)

Deixou de se mexer. Deixou de respirar. (Pausa.) Eu saí, saltei a rede. Apanhei a estrada. Vim para aqui.

(...)

Piça remexe no saco que tem no colo e quase imediatamente tira de lá uma enorme e feia faca de caça: uma faca que acaba com todas as facas. Max e Alan ficam um bocado perturbados.

ALAN- Foda-se!

MAX- Por amor de Deus caralho!

Piça estende-a orgulhosamente, olhando para ela.

PIÇA- Terei-a a um deles. Ia espetar-ma no cu.

(...)

MAX- Caralhos ma fodam. Isto é material do exército. (Pausa.) Isto é mau. (Pausa.) Molda-se perfeitamente à mão, não é?

(...)

ALAN- (...) Quer dizer, se tu tiraste realmente a faca a alguém que te queria apunhalar com ela... é claro que a devias levar a alguém...

PIÇA- Quem?

ALAN- Bom, ao teu... superior no exército ou a alguém...

PIÇA- Mas eles fazem todos parte do mesmo!

ALAN- Então à polícia...

PIÇA- Não eles estão por todo o lado, não só no exército, não só... os Penetradores, eles estão... vocês não sabem...


(Anthony Neilson- PENETRADOR)

Publicado por void em janeiro 20, 2005 06:53 AM
Comentários

Não conhecia e gostei muito de ler esta passagem. Obrigado pelo despertar da curiosidade que criaste :)
Beijo
*A

Afixado por: Alexandre em janeiro 20, 2005 02:39 PM

A peça é muito interessante, Alexandre. Recomendo-te a leitura integral. Obrigada pelas tuas palavras.

Beijinho :)

Afixado por: Sandra em janeiro 20, 2005 06:25 PM

Gostei de ler este excerto.

Afixado por: Art Of Love em janeiro 20, 2005 06:56 PM

Art of Love: gostaste? Ainda bem? ;)
Não é por nada, mas tb te recomendo os já editados e o de amanhã. Não é por nada, claro! ;)

Beijokas :)

Afixado por: Sandra em janeiro 20, 2005 07:52 PM

Não ando com muita disposição para comentar, mas venho visitar-te sempre que posso. Não conhecia este autor. Achei interessante. Fez-me lembrar de alguma forma a crítica latente no Big Brother do George Orwell. A nossa pouca liberdade e a forma como somos espiados, manipulados, enganados. Beijo

Afixado por: Monalisa em janeiro 20, 2005 08:32 PM

Olá Sandra obrigado pela sugestão Maria Teresa Horta!beijinhos Um optimo fim de semana Cheio de coisas boas! :)

Afixado por: xana em janeiro 20, 2005 11:13 PM

Achei bastante interessante este excerto. Mesmo vindo tarde, vale pelo prazer que levo daqui. Beijinho Sandra e uma boa noite.

Afixado por: Micas em janeiro 20, 2005 11:14 PM

Tou aqui todo encolhidinho :-))
Obrigado por dares a conhecer parte da peça com um fantástico i de permeio.

Afixado por: Anjo élico em janeiro 21, 2005 12:57 AM

Monalisa, Xana, Micas, Anjo: fico muito contente com a vossa visita e registo de opinião/palavras.
Fico contente por a minha escolha vos ter, de alguma forma, tocado.
Anthony Neilson é um dramaturgo que vale a pena aprofundar. E claro: não procurem "leveza" nas suas peças. Pelo que eu disse na sua apresentação, dá para entender que é precisamente o contrário. Assim sendo, para quem gostar ... ;)

Um grande beijinho a todos :))

Afixado por: Sandra em janeiro 21, 2005 07:05 AM