Jon Fosse nasceu em 1959 em Haugesund, no Oeste da Noruega. Iniciou-se no campo da literatura no ano de 1983, tendo publicado romances, poesia, ensaio, novelas e livros para crianças. A sua primeira obra para teatro foi escrita em 1994. Desde ai o seu trabalho tem sido representado na Noruega, mas também no estrangeiro.
Quanto à peça que seguidamente edito excerto, foi escrita em 1998.
Passemos a ela:
Escuro. A luz aumenta. Uma sala, um sofá, uma poltrona e uma mesa baixa à frente, ligeiramente para a direita. Atrás, um pouco à esquerda, uma grande janela, lá fora claridade. À direita da janela, um pouco acima, está um relógio de parede que indica um quarto para as três horas. (...) O Jovem está deitado no sofá a ler um livro.
A JOVEM
Entra pela porta da direita

Eu não posso mais
Pausa curta
Não eu não aguento
Não podemos viver assim
O Jovem ergue-se lentamente, fecha o livro, mas entala o indicador entre as páginas, a marcar
Tu ficas para aí deitado a ler
Não sais
Não fazes nada
Debita de enfiada
Não temos dinheiro
Tu não tens trabalho
Nada
Não temos nada
Vai sentar-se na poltrona
E tu sais cada vez menos cada vez menos
Antes em todo o caso ainda ias às compras
ainda ias ao correio
Nunca quiseste ir passear
Eu sempre gostei de dar passeios
Sim antes de te conhecer
Eu dava sempre grandes passeios
Todos os domingos dava um passeio
E muitas vezes até nos outros dias
E tinha amigos
Podiam não ser muitos
mas pronto tinha amigos
e amigas
Mas elas nunca mais cá vieram
Já nem sequer a Marta aqui vem
Ela pode tocar à porta
e ficar lá fora a falar comigo
mas entrar é que ela não quer
Porque tu ficas para aí sentado
e transpiras mal-estar
As minhas amigas vieram cá algumas vezes
mas tu ficaste para aí sentado
rígido e tenso
sem dizer palavra
Ri, abatida
Que ambiente
Não
Era insuportável
e por isso
olha para ele
é claro que elas não vêm mais vezes
Ninguém vem
Pausa curta
Tu estás doente
É
Tu já nem as pessoas suportas
O Jovem suspira, olha para ela
Não eu não aguento mais
O Jovem acena que sim com a cabeça. Pausa
E depois quando finalmente alguém vem visitar-nos têm logo de ser os teus pais
(...)
Sim sim.
Pausa curta
E já era tempo
De virem ver o bebé
Até parece que não se interessam por ele
Bem podiam ter vindo mais cedo
Sinceramente
O Jovem baixa os olhos.
O JOVEM
Eles só não nos querem incomodar
A JOVEM
É eles têm de vir
Eu percebo
Eu percebo que eles têm mesmo de vir
Olha à volta da sala, suspira
E agora tenho de pôr-me a arrumar a casa
Antes de os teus pais chegarem
Tem de estar tudo limpo e asseado
Quando a sogra vem de visita
não é verdade
O Jovem pousa o livro na mesa, levanta-se, anda um pouco pela sala
Poupa-me
Em voz alta
Poupa-me
Eu não aguento mais ver-te a andar assim
Resignada
Eu vou limpar e arrumar a casa
Portanto tu
Não
Tu não te incomodes
O Jovem volta para o sofá, senta-se
Eu vou fazer tudo
Fica à vontade
tu
Continua a ler o teu livro
Tu
Podes continuar a ler o teu livro
Ela ri um pouco
Ou talvez possas pensar em ir às compras
Um pouco assustado ele olha para ela
Ou também tenho eu de fazer isso
Tenho de ir às compras
Tenho de arrumar a casa
Tenho de fazer a comida para os teus pais
Em voz alta
Não
Tu é que podes ir às compras
O JOVEM
contrariado
Sim

BASTE
Deixa-te disso agora
Foste tu que telefonaste
A JOVEM
Pois eu sei
Mas
Que tu e eu
olha para ele
somos um do outro
sim disso não há a mínima dúvida
Mas ele e eu
Olha para Baste
Sim sempre
E sempre foi muito bom para o bebé
cuidou sempre muito dele
e assistiu ao parto
ajudou-me em tudo o que podia
Sim
E então
Ela levanta as mãos e esconde a cara nelas
BASTE
Queres que me vá embora
A JOVEM
Retira as mãos da cara, olha para ele
Não não
Não vás
Eu não aguento
Eu sinto tanto a tua falta
Quando não estás comigo
Eu não aguento
Tu não te podes ir embora
Baste vai sentar-se no sofá. A Jovem vai sentar-se na poltrona
Só que
Pois é tudo tão difícil e tão triste
É tudo tão horrível
Foi tão de repente
Tem sempre de acontecer alguma coisa
(...)
BASTE
Não sei
Mas não podemos ir embora
Podemos conversar depois
A JOVEM
Quase a chorar
Sim
Pausa
Sabes no que estou a pensar
Ele abana a cabeça
Eu sou mesmo parva
Estou a pensar nas panelas
lá dentro na cozinha
Desolada
Eu estou a pensar que agora vou deixar
As panelas lá dentro na cozinha
É o que estou a pensar
Estou completamente doida
BASTE
um pouco abatido
Queres
Ou não queres
vir
Tu tens
interrompe-se, olha para ela
Sim tens
Tu e eu
Temos de ir viver juntos
É temos
Não é verdade
A Jovem acena com a cabeça
Pois é
Vá então
Vamos embora
(...)
A JOVEM
Fala para o bebé
E agora vamos os dois mudar de casa
Vamos morar para outro sítio
E tu
Olha para Baste
De certa maneira vais ser pai
Ele faz que sim com a cabeça. Pausa. Para Baste subitamente
Não eu não posso ir agora
não posso
Ele
pausa curta
foi sempre bom para mim
ele só não sabia que mais fazer para ajudar
E depois ele é tão desajeitado
Não ousa sair
passam-se dias e dias sem que ele ouse sair
nem sequer à loja da esquina
ele ousa ir
E aquela escrevinhação dele
não presta para nada
tudo o que ele escreve
Tenho a certeza que não presta para nada
É a única coisa que ele diz que consegue fazer
ficar em casa a escrever
Mas é evidente que ninguém quer publicar
o que ele escreve
Ele não tem talento que chegue
Ele não tem talento de todo
Era um aluno miserável na escola
Reprovou a várias disciplinas no liceu
Nós andámos juntos no liceu
(...)
BASTE
(...)
Ouve-se um forte estampido de espingarda. A Jovem olha, assustada, para Baste que deu um salto em frente assustado
Matou-se
Parece-me que ele se matou
Foi um tiro
Eu acho que ele se matou
(...)
A JOVEM
Muito baixinho
Só ficou um bocadinho da cabeça
Começa a chorar
BASTE
Temos de
O bebé começa a chorar
Ele matou-se
Eu
Pois
Temos de
Não sei bem
Vou telefonar à polícia
A um médico
Vou telefonar
Sai pela porta da direita
A JOVEM
grita
Não vás embora
Pausa longa. A luz diminui. O bebé deixa aos poucos de chorar. Escuro.
(Jon Fosse- A NOITE CANTA OS SEUS CANTOS. Fotografias tiradas aquando da representação levada a cabo pelos Artistas Unidos no Teatro Taborda- Lisboa- em Fevereiro/Março de 2004. Actores: Joana Bárcia -A Jovem-, António Simão -O Jovem-, Américo Silva -Baste-. Como personagens existem ainda o Pai e a Mãe do Jovem, aqui não incluidos.)
Vim por a minha leitura em dia :) estes dias tem sido terriveis :(
Não conhecia nenhum dos dois autores aqui apresentados, gostei e fiquei com curiosidade de conhecer mais.
Este espaço prima pela variedade a grande qualidade do que partilhas connosco. Obrigada Sandra. Beijinho e um bom resto de tarde para ti ;)
De facto, há fases da/na nossa vida (ou nossas) que são mesmo (mais) terríveis, também em termos de trabalho. Eu compreendo :)
Quanto aos dramaturgos: o que aqui trago é apenas uma amostra que, note-se, quero fazer crescer, crescer e crescer ;)
Quanto às tuas restantes palavras: obrigada. És uma querida :)
Beijinho.
Afixado por: Sandra em janeiro 19, 2005 05:40 PMTenho andado desaparecido com trabalho. Mas arranjo sempre maneira de dar uma espreitadela. Fico a espera do próximo capítulo.
Afixado por: Distante em janeiro 19, 2005 06:14 PMAguardo a entrada da próxima cena!
Beijinho.
Distante: pois, há períodos assim. Mas cá continuo e tu és sempre muito bem vindo.
Beijinho :)
João: aguarda e vem ao seu encontro, pois... o que se segue é bastante forte. Diferente de tudo o apresentado até agora e muito forte. Perturbador. Inquietante.
Beijinho :)
Afixado por: Sandra em janeiro 19, 2005 08:18 PM