janeiro 18, 2005

O CARACAL ("UMA SEMANA NO TEATRO")

Judith Herzberg é a dramaturga que hoje aqui apresento. Tendo nascido em Amsterdão no ano de 1934, Judith inicia a sua escrita para Teatro nos inícios dos anos 70, sendo que até ai a Poesia assumia pleno destaque em termos de produções. Para além de peças e de poesia, tem escrito ensaios, argumentos cinematográficos, obras dramáticas para televisão, versando igualmente o seu trabalho sobre traduções. A dramaturga encontra-se traduzida em várias línguas e tem sido representada, em particular, na Alemanha.
O monólogo que seguidamente apresento parte, é datado de 1987. Para além de uma mulher (da qual nunca se sabe o nome) a outra grande personagem é um (o) telefone. Quanto ao título do monólogo: caracal é um animal semelhante a um lince que é a companhia doméstica desta mesma mulher.

Mas ... passando à peça:


Um monólogo. Noite
Mulher de 30-40 anos numa sala. Fala ao telefone.

MULHER

Robbert , meu anjo, queres trabalhar no cinema?
Nesse caso tens de sair comigo na passagem de ano.

Uma pessoa sobre quem vão fazer o filme. Uma amiga da minha mãe, mais velha do que ela, que tem dons sobrenaturais e caracóis que se lhe colam à cabeça e um bigode com cera. Eu acho mesmo que ela tem orgulho no bigode porque põe cera, ou será que já to disse, e frisa-o. Mas ainda não sei se eu própria lá vou, passei toda a noite, toda a semana à espera dum telefonema e não suporto quando o telefone não toca por isso eu própria começo a fazer chamadas porque estou à espera. Mas no fundo já estou há um ano à espera, Robbert.

Então é assim. Tens mesmo tempo? É uma história comprida.

Apaixonada pela primeira vez, há um ano.
Casado claro. Casamento falhado etc. Ficou louco por mim, imediatamente, quer divorciar-se, promete, suplica, etc. Eu digo: não, nada disso, se daqui a um ano estiveres divorciado, telefona-me, entretanto nada de contactos. Nada de nos vermos, nada de telefonemas, nada de cartas. Isto foi há um ano e por isso agora passo a vida colada ao telefone.

Telefono a toda a gente, podem-me despedir ou assassinar, tudo bem, desde que ele me telefone. Já não aguento mais, Robbert.

Talvez ele se tenha reconciliado. Ou morrido. Talvez se tenha divorciado e entretanto se tenha casado outra vez. Não sei nada mas já não aguento mais. Pela primeira vez na minha vida um verdadeiro amor.

Dura há um ano...

Na minha cabeça, sim, na minha cabeça fui fiel como um cão. E agora, Robbert, eu já não aguento mais.

é uma boa pergunta.
(Pensa)
Que finalmente eu podia deixar de adiar tudo,
Acabar com o provisório, que as coisas já não precisavam de ser sempre tão provisórias.

Não, não faço isso. Aguentei um ano inteiro e não é agora no último momento que eu lhe vou telefonar.
Tu também não farias isso

sim, depois de meia hora

mas se te tens dominado um ano inteiro, todos os dias, agora não vais estragar tudo no último momento

Pois, mas eu não.

Eu não sou moralista, eu simplesmente não quero ter um peso desses na minha consciência. Dorme bem meu querido.

eu não me vou deitar já.
(Desliga)

(...)

(Marca um número.)

Peço desculpa de lhe telefonar tão tarde, mas posso
Falar com o seu marido?

Oh... então telefono noutra altura.

Sou colega dele. Passei em frente ao escritório e vi a luz acesa e achei estranho, por isso estou a telefonar-lhe para ter a certeza

bem, eu... não sou bem do escritório dele, eu... sou de outro escritório, mas temos muitos negócios e o que é que está a dizer, fechou? Não sabia disso, ainda não ouvi dizer nada. Deve ter sido há pouco tempo.

O quê?

Como?

há um problema?

Não, não me importo nada (que a senhora chore)

Sim, claro que é chato para si, mas

O que é que está a dizer? A empresa foi vendida?

É lá que ele mora agora?

Ah, no antigo escritório dele, mas onde é que é isso

Ah claro, é onde sempre foi, e ele tem lá telefone?

O mesmo número?

E com que nome vem na lista?

Da empresa? Ah sim

o que é que ele já não tem?

O telefone?

Não, eu, ah, eu acho que já é muito tarde, não a acordei, pois não?

O que é que quer dizer com já não. Mas então a senhora deve dormir durante o dia!

Bem, eu não acredito nisso. Eu acho que a senhora dorme mas que não dá por isso. Porque ninguém consegue viver assim tanto tempo sem dormir. Ainda agora ouvi falar num náufrago que tinha ficado três dias sem se afogar

Está, está, está!
(Desligaram)

(...)

(Sem poisar o auscultador telefona imediatamente para outro número.)

Estou a ligar de novo porque a chamada caiu e eu pensei que a senhora talvez pudesse pensar que fui eu quem desligou

Ah, foi a senhora quem desligou

Se quiser, eu não a quero

Mas também não queria

não, não precisa de me contar nada

ninguém a quem possa contar?

Por causa de outra mulher, quando é que foi que

Então há um ano que a senhora está assim tão desorientada?

E ele vive lá com essa outra melhor?

(...)

Há quanto tempo é que ele a conhecia?

(...)

sim. Claro que não sei, mas eu sinto que ele vai voltar. O que a senhora me está a contar dessa namorada, a descrição que ele faz dela... Não há ninguém assim.

Não.

sim

não

Boa noite.

(Desliga)
(Olha para o relógio)
(Marca um número para saber as horas – acerta o relógio.)
(O telefone toca. Ela já não atende.)


(Judith Herzberg- O CARACAL. Fotografia de Jorge Gonçalves. Representação com Sofia Aparício, Teatro Taborda- Lisboa-, 2003)


Publicado por void em janeiro 18, 2005 06:47 AM
Comentários

este e, nao minha opiniao, dos blogs mais completos (de todos os q visito). Gosto sandra. Beijinhos

Afixado por: Ana em janeiro 18, 2005 03:10 PM

Anokas: obrigada pelas tuas palavras. Também gostei ;) Beijinho :)

Afixado por: Sandra em janeiro 18, 2005 05:44 PM

É muito bom sentir esse teu interesse por aquela que é uma grande paixão minha. Acredita que é muito bom. Quanto a desilusões: parece que estamos os 2 com os mesmos receios ;) Bom, pensemos que vai tudo correr pelo menor e que as partilhas vão acontecer.

Beijinho :)

Afixado por: Sandra em janeiro 18, 2005 08:46 PM

Ainda não te disse, mas adoro teatro. Já fiz até parte de um grupito amador. É uma área da vida onde se pode expressar muito para além daquilo que vivemos. Este post... este post de casadoiras e afins, enfim... lá está... onde podemos expressar para além da vida real.
Beijos do "confessionário"

Afixado por: Confessionário em janeiro 19, 2005 12:53 AM

Amigo Padre: confesso que me surpreendeste por teres dito teres pertencido a um grupo de teatro amador :))
Quanto ao Teatro: tem um potencial enorme para traduzir imensas realidades da vida, por mais "metafórica" que seja a forma adoptada ou escolhida para as levar à cena. E tudo, mas tudo é fundamental: os ritmos, as músicas, as luzes, os cenários...
Quando vou ao Teatro viajo para outra dimensão, naquela que é a reflexão sobre a realidade (esta dimensão) na qual me integro.

Beijinho para ti :)

Afixado por: Sandra em janeiro 19, 2005 06:58 AM

clap..clap..clap
Que delícia! Que bem lembrada esta rubrica! Não estranhes se ao apagares a luz persistir um vulto negro na 3ªfila central.

Afixado por: MJM em janeiro 20, 2005 12:54 AM