De hoje até Sexta-feira as edições de posts incidirão sobre Teatro. Uma semana onde editarei excertos de peças de importantes dramaturgos contemporâneos, versando estas sobre temáticas da mais variada ordem e que, de uma forma ou de outra, acabam ou podem acabar por nos tocar.
Sublinho que esta "Semana no Teatro" é apenas a primeira de entre outras que se seguirão, no sentido de concretizar uma aposta na divulgação de um gosto muito pessoal, assim como no tornar "normal" a leitura de teatro, propondo(-vos) um envolvimento crescente com diferentes formas de exposição e de expressão da realidade (ou de realidades).
Ao longo desta semana passarão por aqui: Ester Gerritsen- cujo excerto de monólogo se segue- (Holanda), Judith Herzberg- também monólogo- (Holanda), Jon Fosse (Noruega), Anthony Neilson (Escócia) e Harold Pinter (Inglaterra). Futuramente, outros autores, de outras nacionalidades (ou das mesmas), estarão igualmente presentes. Avanço-vos já que a 2ª semana no Teatro acontecerá no próximo mês de Fevereiro.
Para não me alongar mais, uma breve informação sobre Esther Gerritsen:
nasceu em 1972, formando-se em Estudos Dramáticos pela Escola das Artes em Utrecht, no ano de 1995.
O excerto do monólogo que se segue estreou em 1999 no Teatro Gasthius em Amsterdão, percorrendo seguidamente a Holanda no âmbito de um programa de jovens dramaturgos.
Passando ao monólogo:
MULHER:

Uma batata.
Estou só com a batata.
Juntos formamos um universo.
...
De manhã a mulher descasca batatas.
É possível.
Desde que as ponha na água.
Às onze horas descasca as batatas para as cinco e
meia.
Assim juntam-se as onze horas e as cinco e meia.
O intervalo é um tempo suspenso.
É nesse tempo suspenso que ela existe.
É aí que ela vagueia.
São onze horas e está tudo pronto para as cinco e meia.
As roupas que foram passadas já não olham para ela.
As plantas que foram regadas só pensam nelas próprias.
As batatas que foram descascadas já não estão interessadas na mulher.
Tudo ocupou o seu lugar e ela ficou só.
Tudo espera pelas cinco e meia em silêncio.
O espaço cala-se.
São onze horas.
A mulher olha para a última batata por descascar.
Até às cinco e meia esta batata é a única coisa que ainda espera alguma coisa dela.
Juntas formam um universo.
Só com essa batata é que ela tem uma relação.
A batata espera alguma coisa dela.
Ela tem planos para a batata.
Ela pensa que a batata é um "ele".
E pensa nele.
Junto têm um futuro.
Ainda.
A casa é um mundo.
A mulher a única sobrevivente.
Ela é do tempo de depois da catástrofe.
Ela é a protagonista num desses filmes sobre o que
se passa depois da terceira guerra mundial.
Não há mais nada.
A não ser ela.
E o que resta do mundo.
E ele.
Claro.
O homem.
Mas ele há-de vir.
Vem daqui a pouco.
Mais tarde.
Ele tem um papel noutro filme.
É um filme sobre pessoas.
Um filme sobre relações.
Um "human interest film".
Um filme sobre sonhos e desejos.
Sobre conflitos interiores.
Ele é que tem uma vida emocional.
Tem uma vida de pensamentos.
Interroga-se sobre as coisas.
Ele duvida.
Ele espera.
Ele lamenta.
Ele deseja.
É um ser humano.
Não faz mal.
Ela gosta do seu ser humano.
Ela não tem nenhuma relação.
Ela tem-no a ele.
Ele é o marido dela.
(...)
Encontrou-o a ele.
O marido.
E então tudo parou.
Ela parou.
Porque gostava dele.
Era o suficiente.
Cobria tudo.
Ele interessava-se por ela.
Pela existência dela.
Pelas relações dela.
Pelos pensamentos dela.
Queria saber tudo dela.
Ela achava bem.
Ela também queria saber alguma coisa.
E ao mesmo tempo não.
Gostava dele.
Era o suficiente.
Ela não estava interessada.
Ela já o conhecia.
Ela era o marido dela.
Ela deixou de pensar em chegar a algum lado, em como lá chegar, com que meios, por que preço, as vantagens e as desvantagens, a ideia por detrás, a visão do porque é que a gente faz o que faz, e ela própria, sobretudo ela própria, quem era, quem viria a ser, o que achava dela própria e o que achava que devia achar dela própria, o que ela própria achava que ela própria achava que ela própria achava dela própria trocou o seu mundo de pensamentos por um mundo mais palpável, o mundo de que vestido, que prédio, que bolo, o tamanho da casa, em que bairro, qual a marca da misturadora, e viu as coisas à volta dela, viu efectivamente pela primeira vez as coisas à volta dela, e encontrava-se a ela própria nos armários, nas roupas, nos electrodomésticos, deixou de ser acessível às pessoas que pensavam nisso, que lhe sussuravam coisas, tais como materialista, dependente, limitada, ingénua, tornou-se completamente surda, porque as coisas já não representavam mais nada, a misturadora já não era igual a um electrodoméstico moderno, igual a: materialismo, igual a: presunção, burguesia, a misturadora não representava mais nada, a misturadora era a misturadora, era Braun a misturadora, era a misturadora dela, tal como as bonecas dela antigamente eram as bonecas dela.
(...)
Ele vem.
Vem salvar-me.
São cinco e meia.
Vem.
Tens de vir.
Chegar a casa.
(...)
Estou a ouvir-te.
Ouço-te chegar.
Vem!
Estou aqui.
Estou a olhar pela janela.
Estou à espera.
De ti.
Para que juntos.
Aguento.
Espero.
Vem.
Vem!
Bolas, vem!
Estou aqui.
Vem.
Vou. Vou. Não.
Vem!
Vens mas não vens.
Bolas, estou a ver-te.
Vejo que estás ao virar da esquina.
Estou a ver-te!
Anda.
Vem!
São cinco e meia!
Tens de vir para casa!
Tens de vir para ao pé de mim.
Vem! Vem!
(...)
A porta da garagem está aberta!
Aberta para ti!
Pronta!
Entra!
Entra cowboy!
Vem cowboy!
Estou aqui!
I-ha!
Vem cowboy.
Sai desse carro.
Vem buscar-me!
Pega-me!
Vem-me...
Vem.
(Esther Gerritsen- DONA DE CASA. Fotografias de Philippe Pache)
Jorge: muito, mas muito obrigada pelas tuas palavras. Estas são extremamente estimulantes para mim, atendendo às ideias de "aprender"/"aprendizagem" que aqui deixas. Espero não te desiludir e contribuir para que o teu gosto pelo Teatro surja ou se desenvolva.
Um grande beijinho :)
Afixado por: Sandra em janeiro 17, 2005 08:57 PM