janeiro 16, 2005

"X E Y: A ESTÓRIA"- CAPÍTULO 5

Na persistência destes dias que nos envolvem a persistência, também, de uma estória que se nos entranha. E nesse entranhar, um emaranhar de nós connosco, numa calma agitação de sentimentos pelo que lemos e pelo que nos vem ou é susceptível vir de fora.
Persistências várias, em nós, nos espaços e no(s) tempo(s) que as percorrem, que nos percorrem, que nos tranquilizam ou que nos agitam.
E mais um capítulo se segue:


A PERSISTÊNCIA DOS DIAS

Estes dias têm doído mais. Estes dias, estes dias que arrastam meses e anos atrás de si. Dois velhos chinelos sem solas que se arrastam pelo chão, enfiados em dois pés que rangem ossos por baixo da pele ausente de carne firme. São estes os meus dias. E eu encosto-me novamente nas costas da tua cadeira, desvio os olhos do horizonte, do oceano longínquo e aqui tão perto de mim, e sinto o cheiro a maresia que sobe pela montanha tão devagar como se viesse descalço e a ondular numa dança do ventre em camera lenta. A música está lá. Está aqui. E toca tão baixinho, tão suave que é impossível magoar os ouvidos. Este silêncio dói. Este silêncio, e esta raiva que agora não arde, camuflada de azul acizentado. A névoa ao longe vai caindo e confunde-se com as ondas e as ondas deixam-se embalar pela música que não me magoa os ouvidos.
O cigarro repousa, apagado, sobre o cinzeiro de mármore branco. E o seu corpo, agora transformado num cilindro anoréctico de cinzas, descansa em paz, enquanto o fumo paira pelo ar deste espaço cheio das tuas mãos, dos teus pés, dos teus olhos, dos teus pensamentos, da tua respiração que era tão viva e depois, nestes dias, tão morta. E eu paro mais um pouco e revejo-me neste cigarro que morreu após o primeiro toque de dedos e de lábios. Que morreu, lentamente, após a primeira inspiração e o primeiro sopro de desejo, de prazer, de necessidade quase amor e quase paixão e quase qualquer coisa que nos degrada de dia para dia porque faz mal mas sabe-nos bem. Revejo-me assim, a morrer sentado nesta cadeira cinzeiro de mármore duro e frio e desconfortável, a ver o tempo passar, a ver o tempo a arder lentamente; as minhas ideias a subirem entre ondulações e vales de uma vida; e eu cá em baixo sentado entre as ameias de um castelo cadeira de mármore posto ao contrário pelas mãos de uma criança; esquecido numa praia ao fim do dia. Imóvel, preso, fundido ao chão a observar as pessoas que abandonam o sol, a água, a areia, toda uma praia ao final de um dia. Estes dias que me doem.
E sentado nesta cadeira, a tua cadeira, a observar o defunto, eu vejo-me a morrer sentado, de braços cruzados em cima de um peito caixa-forte, cujo código apenas tu conhecias; apenas tu possuías. Vejo um homem que desliza pelo tempo perdido e pelo tempo que se perde, pelo tempo que o fez perder-se, absorto em divagações de fumo que sobem e morrem no ar silencioso, misturados com o aroma a oceano; misturados com a essência do mar, com a pureza das ondas que adormecem num embalo fraterno. Uma passadeira verde e dourada que se estende aos pés de um homem pequenino, de cabelos claros e pés a sonhar que saltitam de nuvem para nuvem. E tudo brilha, e tudo sorri. E ele, com os seus olhos abertos numa alegria temperada de inocente curiosidade, corre para os braços do caminho vida e tempo infinitos. Era eu criança. E era eu outra vez naquele dia, quando os meus olhos encontraram os teus. E nesse momento, nesse momento desse dia, o dia que menos me doeu em toda a vida, eu revi os meus pés pequeninos que corriam na passadeira verde e dourada; eu vi essa passadeira desenrolar-se do interior dos teus olhos. Duas lágrimas que brilharam de alegria e esperança, e se uniam num misto de desejo e travessura, transformados agora em passadeira, na direcção dos meus olhos que te fitavam alucinadamente inocentes. Desejo e travessura, habilidosamente embrulhados num papel de rebuçado que para mim se estendia. E eu ali naquele dia que menos doeu em toda a minha vida; eu ali outra vez criança grande, homem pequenino. Com duas mãos muito grandes carregadas de histórias perdidas e de sonhos acabados; duas mãos que se estendiam novamente às mãos da vida e do tempo. E tudo me parecia sorrir novamente. Só porque tu sorrias para mim; só porque tu sorrias para mim com os teus olhos, as tuas mãos, os teus pés e toda tu sorrias e brilhavas. E toda tu eras vivacidade, a vivacidade de uma criança.


(Texto de Alexandra Antunes. Fotografia de Naushér Benaji)


A edição do próximo capítulo terá lugar dia 22, Sábado. Até lá, fiquem bem. Muito bem.

Publicado por void em janeiro 16, 2005 08:40 AM
Comentários

Haja algo que anime esta minha condição...

Afixado por: m. h. AdamastoR em janeiro 16, 2005 06:05 PM

E não há nada mais belo do que um sorriso de uma criança. Excelente texto. Venha a semana de teatro:) Beijinho e boa semana

Afixado por: Micas em janeiro 16, 2005 11:20 PM

Ainda estou de ferias mas dei um pulo a internet para ver as novidades.. Estive a actualizar-me na historia de X eY. Continuo envolvida de uma maneira viciante! Um abraco e ate breve!

Afixado por: missantipatia em janeiro 18, 2005 01:14 PM