janeiro 15, 2005

POESIA DE ADOLESCÊNCIA: A.A (2)

Dando continuidade à edição iniciada a semana passada, deixo-vos com outros três poemas escritos pela Alexandra, naquele que foi o seu período de adolescência.
Sendo que fui já bastante generosa em palavras no post que inaugurou esta mostra, hoje não me vou alongar mais. Julgo que o melhor é passar-vos para o trabalho da autora para que nele se possam envolver. Assim:


O MEU JARDIM

No meu jardim não existem flores
Apenas sons e algumas cores
No meu jardim não existem plantas
Apenas pecados de pessoas santas
No meu jardim não existem árvores nem arbustos
Porém, existem sentimentos bastante robustos
No meu jardim não existem cactos; não é um deserto
Apenas existe o que está errado e o que está certo
No meu jardim não se ouvem pássaros a cantar
Ouvem-se somente vozes de pessoas a falar
No meu jardim existe alegria e tristeza
Por vezes sabe-se o que se quer, outras não se tem a certeza!
No meu jardim não há folhas caídas no chão
Mas nele existe a palavra sim e a palavra não
No meu jardim existe ódio e amor
E também alguma coisa, como que, seja lá o que for!
O meu jardim não é vedado
Permite-se a saída a quem lá tenha entrado
O meu jardim, o meu jardim! Por vezes é mal tratado
Outras vezes vejo que com amor dele têm cuidado
O meu jardim, é o meu jardim!
Quem manda nele sou eu, até chegar o seu fim.


SEM MEDO

É sim, afirmativo
Por vezes sou um brinquedo inofensivo
Pois sim, pois bem
O sentimento vai, o sentimento vem
Sem reacção
Sem ilusão
Solta o barco e deixa-o à deriva
Não olhes para trás nem impeças que ele siga.
Deixa-o andar, deixa-o correr
Deixa-o no mar para ele se perder
Deixa-o no mar, deixa-o no mar
Deixa-o, deixa-o, deixa-o lá ficar
Nada irá acontecer e se acontecer...
Quem quererá saber!
Ninguém se irá importar
Se o barco se afundar.
Pois sim, pois não
Temos sempre que dar a mão
Querendo ou até sem querer
Temos que dar o braço a torcer.
Sobe, sobe, sobe o que for mais alto
Mas depois, não tenhas medo de dar o salto
Sobe, sobe, porque o caminho é sempre a subir
Olha para cima, não tenhas medo de cair
Voa, voa, voa sem as asas
Encara a vida que não é um conto de fadas.
Cai e levanta-te
Não percas a corda, agarra-te, manda-te
Vai de cabeça, não percas nenhuma oportunidade
São poucas na vida assim como os momentos de felicidade.
Luta sempre sem parar
Não durmas hoje, não vás descansar.
Olha-te ao espelho da alma
Vês que não podes ficar calma?
Põe a mão na consciência
Vês que não podes perder a paciência?
Luta sem medo, sempre sem medo
Porque para ti, o perigo já não é segredo
Muita coragem, muita coragem
Porque a vida não é só uma passagem.


SOU O QUE SOU

Sou o que eu quiser
A vida é um risco...
Sou homem ou mulher
O predador, a presa ou o isco.
Sou inocência ou vingança
Bondosa ou a maldade
Sou a espera da esperança
Por vezes presa em liberdade!
Sou fiel ou traidora
Consoante as provas que me vão dando
Um pouco tímida ou provocadora
Dependendo de como, quem ou quando!
Fraca ou resistente
Com sabedoria ou ignorante
Por vezes triste, outras contente
Garantindo a quem me garante.
Vou amando sem pensar
Vou agindo sem sentir
Para trás não posso voltar
Não quero chorar, apenas rir.
Sou vulgar ou a invulgaridade
Mas passo sempre despercebida
Comigo há sempre rivalidade...
Mas também ando sempre prevenida!!!
Esta é a verdade, para quem queira acreditar
Sou o que eu quiser e bem me apetecer
Sou tentação para quem me desejar
E se existo é porque não quero desaparecer.


(Poemas de Alexandra Antunes. Fotografias de José Marafona)


O próximo conjunto de poemas será editado dia 23, Domingo. Mais um conjunto que, espero, vos permita continuar a consolidar opinião sobre o estilo e as temáticas abordadas pela Alexandra, já agora (e porque não?), arriscando um exercício de comparação com as suas produções actuais, inclusive em Prosa. Difícil? Ora vá lá: tentem! ;)


Publicado por void em janeiro 15, 2005 08:50 AM
Comentários

o jardim dela é o seu coração? :/ *

Afixado por: Rita em janeiro 15, 2005 11:27 AM

A sua prosa actual deixa trasparecer uma ideia forte de sentimento poético. Não espanta que tenha tentado explorar essa sua vertente de uma forma mais crua, directa, numa fase puril da sua escrita e da sua vida.
Estes poemas têm um valor relacionado com a sua honestidade. São sinceros.
Há ramos da sua poesia adolescente que desistiu de explorar na actualidade (parece-me). Se for assim, tenho pena.

Afixado por: Luís em janeiro 15, 2005 11:37 AM