Deixo-vos com mais um capítulo desta estória. Mais um capítulo cujo conteúdo não é de todo para crianças. Deixo-vos com um capítulo... mais um, onde as lembranças e a saudade se abraçam num aperto de (quase) tirar a respiração. Deixo-vos com mais um capítulo com uma grande carga emotiva. Fiquem bem... aguentando-o.
CRIANÇA INOCENTE

Pouso o cigarro aceso no cinzeiro. Inclino o meu corpo até ao parapeito da janela do escritório. Desvio os cortinados lentamente e alargo o horizonte da minha memória ao contemplar a neblina que se forma ao longe... lá ao longe onde o sol repousa. Lá ao longe onde os pássaros deixaram de se ouvir. Lá ao longe onde a lua te murmura segredos. Segredos que só tu e ela conhecem. Talvez ela te conte segredos que só eu e ela conhecemos. Talvez seja esta uma das formas possíveis que eu encontro para partilhar a minha vida contigo. O resto de vida que me resta. O pedaço de vida que conseguiste deixar em mim. A minha vida miserável. E penso em ti X. Penso em ti X. Penso em ti desde o nosso começo até ao teu fim X. Até ao teu fim já longe, lá longe.
Eu sei que não consegues ouvir-me neste preciso momento. Neste momento que tão pouco preciso. E estes dias têm sido tão difíceis. Estes dias que se puseram há dias. Estes dias que se puseram iguais ao dia em que te conheci. Ao nosso começo X. Ao nosso começo que terminou no teu fim. Estes dias tão diferentes dos dias em que partiste. Do dia em que largaste tudo e foste embora.
Esses dias doeram-me. O dia em que partiste foi o que mais doeu. E os dias que se seguiram doeram tanto quanto o primeiro; mas a cólera, a raiva, os nervos cegam-nos ao ponto de julgarmos que não dói. Não dessa maneira. Dói mas é uma dor diferente. É uma dor de querer partir tudo à nossa volta, de querer agredir toda a gente que se meta no nosso caminho. É uma dor de querer bater com a cabeça nas paredes até que aquela pessoa entranhada em nós até aos ossos, sair pelas raízes dos cabelos em direcção às pontas encrespadas de irritação.
Eu fiquei pior que estragado nesse dia. Digamos que, fiquei mesmo de cabelos em pé. Creio que perdi uma enorme quantidade de cabelo nesses dias de fúria, e mais tarde, quando as coisas atenuaram um pouco, notei, numa manhã em que fazia a barba frente ao espelho da casa de banho, que já tinha um batalhão de cabelos brancos, em pleno exercício no meio de uma floresta brava. E julguei vê-los perdidos uns dos outros, na escuridão de uma noite de temporal, a procurarem abrigo. Eram as minhas ideias, primeiramente, em conflito. Diziam-me. Tu não estás velho. Não, não. Tu não estás velho. Ainda és um jovem rapaz. Ainda és um jovem e belo rapaz. E depois, as minhas ideias em conflito a perderem-se; a perderem-se na ideia que eu tinha que ainda era novo. Que os meus cabelos escurecidos pela idade não estavam a aclarar novamente pela mesma razão. Pelo tempo que se desenrolou como uma passadeira verde e dourada, que brilhava muito e cheirava a fresco. Eu era novo. E agora estou velho. Velho de corpo. Velho de espírito. E velho porque tu, minha criança, davas-me vida mesmo quando me tiravas do sério. E tu foste isso. Sempre. Nasceste e morreste criança.
(Texto de Alexandra Antunes. Fotografia de Naushér Benaji)
O próximo capítulo será editado Domingo, dia 16. Conto convosco!
Arrebatador. São muitos os sentimentos, as emoções e os sentires aqui deixados. Não tenho muita capacidade para comentar. Gosto de ler, em silêncio, e de sentir. Sentir os pedaços de alma aqui deixados. Beijos Sandra e bom fim de semana.
Afixado por: Micas em janeiro 14, 2005 11:16 AMExcelente como sempre Alexandra. Não é de todo para crianças. Intenso como já nos habituaste.
Beijinhos às duas e bom fds
*A
Mais um texto extraordinário da Alexandra que nos agarra do princípio ao fim num remoínho de emoções. Muito bom. Beijos
Afixado por: lique em janeiro 14, 2005 03:12 PMExcelente texto.
Afixado por: João Norte em janeiro 14, 2005 04:56 PMSim. quem nos der ainda ter por perto essa pessoa...
Afixado por: Confessionário em janeiro 14, 2005 05:02 PMSim. quem nos dera ainda ter por perto essa pessoa...
Afixado por: Confessionário em janeiro 14, 2005 05:03 PMSubscrevo e sublinho todas as apreciações que aqui deixaram sobre mais este capítulo da estória da Alex. Subscrevo e sublinho, ao quadrado, o "Sentir os pedaços de alma aqui deixados" registados pela Micas. É, de facto, muito disso que aqui está. E é por o ser que a estória
é tão forte, tão intensa, tão arrebatadora, tão cheia de remoinhos de emoções, tão extraordinária. Ela é tudo isto... porque é da Alex (fala a pessoa mais suspeita: eu! eheheh).
Beijo grande para todos :)
Afixado por: Sandra em janeiro 14, 2005 05:37 PMÉ indiscutivelmente vibrante! Lamento, Sandra, não poder acompanhar (como tanto desejaria) os teus lançamentos mas, tanto quanto a disponibilidade me permite, vou marcando presença. Desejo-te um bom fim de semana e prometo (a mim mesmo) visitar-te a 16. Um grande beijinho querida amiga.
Afixado por: Miguel em janeiro 14, 2005 09:07 PMMeu querido Miguel: eu sei que estás presente sempre que isso te é possível. Mais! Sei que essa presença tem sempre uma tradução em palavras (pelo menos na sua grande maioria). Assim sendo, só te posso agradecer mais este reforço de interesse e carinho (demonstrados). És sempre muito, mas muito bem vindo.
Beijo grande :)
Afixado por: Sandra em janeiro 15, 2005 09:01 AMOs capítulos também são escritos semanalmente? Ou estão em fila, à espera de serem publicados?...
Gosto mesmo muito desta história (não me consigo habituar a escrever "estória"!).
Luís: há um conjunto de capítulos já escritos, prontos para serem editados. Mas a estória continua a ser escrita. Neste sentido: só parte dela está passada para "papel".
Eheheh... eu optei pela diferenciação feita pela língua inglesa: "story" e "history", sendo que esta última respeita à História como ciência.
Enfim, um particularismo para mim. Nada mais ;)
Obrigada pela tua participação :)
Afixado por: Sandra em janeiro 15, 2005 04:41 PM