
(Fotografia de Alberto Monteiro)
Podia dizer: uma mãe nasce a embalar o filho no berço e morre embalada por este no leito da morte. Mas não o disse. Não o disse porque estava pensado a itálico, como podia estar a tracejado, e não devia ser proferido.
Resta o silêncio. No fim, sempre o silêncio. As águas amortalham-me os pés num rebuliço de silêncios cansados, os grãos de areia agrupam-se numa série de calendários amarrotados através dos milénios, sou embalada pela melodia das ondas.
Os cabelos gastam o brilho contra as ranhuras salgadas das rochas, enroscam-se nas algas, livres de ascenderem entre verdes e negros, impelidos pela continuidade, a maré.
O mar.
Solto o meu rosto dentro de mim, a transparência duvidosa do ser, ela abre os lábios e parece formular a questão desenrolada na razão, eu nada entendo, volto a cair, descair, desviar algo, algo que interpõe a claridade lúcida da aurora ao despertarmos e a treva abismal da noite quando as estrelas nos fogem.
Podia tê-lo dito, olha-me nos olhos, vê além da terra onde perfurei raízes, cumpre a paixão das horas, ama-me agora que o momento se esvai. Mas não o disse. Não o disse nem o pensei.
As histórias ressaltam-me do bolso, rebolam com os fungos da palidez serena de que a pele se veste, e devastam retalhos incolores na cegueira da decomposição. As gargalhadas gráceis da infância percorrem a cova nos limites do corpo e ilimitados pensamentos. O céu encarna um vestido de morangos em trapalhices com o vento, sinto a menina que pinta as cores do horizonte e que esconde os sorrisos na algibeira. O passado roga um último suspiro.
O chão, pedra, rocha, pedra, é quente. A luz aquece a água sobre o cadáver gélido, os dedos são espinhas de peixes sem nome que desaparecem e reaparecem na berma da praia. A luz também é quente e tu sorriste no quente como se sussurrasses a itálico na impossibilidade de ser pronunciado. A luz é quente. Pequenas conchas prendem-se nas dobras musgosas do vestido, agarram-se à defunta vazia esperando fixar ninho no embrião abortado da concha-mãe. A morte confia-me à vida, sou sepultada como a filha das águas e amada como a mãe dos seres. Só me resta o silêncio, o silêncio embrionário do tempo.
(Dina- VIRGENS SUICIDAS)
A Dina tem sem duvida uma escrita inconfundivel,sabe bem o k faz :)
Adorei o texto ,beijokas as duas****
Só posso concordar contigo, Mónica. Só posso. Aliás a minha "atracção"/"iman" em relação à Dina começou precisamente com/pela escrita dela. Depois veio o resto. Eheheheh...
Obrigada pela beijoka. Outra para ti também :))
Afixado por: Sandra em janeiro 13, 2005 01:42 PM{ ... não comentei[-TE] mas tratei[-TE] © in[culto] ::: vai ver em: [ http://www.mgrande.com/weblog/index.php/luzdetecto/prominences_2/void.weblog.com.pt ] ::: espero que gostes :) ... }
in[culto]: amei! muito mas muito obrigada. És um querido. Mesmo! Fiquei deveras surpreendida ;)
Beijo do tamanho do mundo :)
Afixado por: Sandra em janeiro 13, 2005 08:01 PMVenho só deixar um beijo e o meu muito obrigada por tudo! BShell
Afixado por: blueshell em janeiro 13, 2005 10:10 PM" o passado roga um último suspiro"
Profundo. Excelente.
Vida e morte no cíclo da água, mãe das mães. Eterno sofrimento da mulher mãe.
Afixado por: João Norte em janeiro 14, 2005 05:04 PM