
(Fotografia de Christopher Voelker)
HELMER (Torvald)- Nora... mas o que é? Essa expressão tão fria e decidida?
NORA- Senta-te aqui. Vai levar um certo tempo; tenho muito que conversar contigo.
HEL- (senta-se do outro lado da mesa, à frente dela). Estás a assustar-me, Nora! não te estou a compreender.
NORA- É precisamente isso. Não me compreendes, e eu também nunca te compreendi... até esta noite. Não, não me interrompas. Ouve apenas o que tenho para dizer. Torvald, isto é um acerto de contas.
HEL- Que queres dizer com isso?
NORA- (após um breve silêncio). Não achas que parecemos dois estranhos, sentados aqui desta maneira?
HEL- Que queres dizer com isso?
NORA- Há oito anos que estamos casados. Já pensaste que é a primeira vez que nós os dois, tu e eu, marido e mulher, tivemos uma conversa a sério?
HEL- Que queres dizer com "conversa a sério"?
NORA- Durante todos estes oito anos, até mais do que isso, desde o momento em que nos conhecemos, nunca falámos sobre qualquer assunto sério.
HEL- Deveria continuamente falar-te sobre preocupações que não me podias ajudar a resolver?
NORA- Não estou a falar de assuntos de negócios. O que quero dizer é que nunca nos sentámos a sério para tentar chegar ao fundo de qualquer questão.
HEL- Mas, minha querida Nora, isso teria sido importante para ti?
NORA- É precisamente isso; nunca me compreendeste. Fui sempre mal entendida, Torvald. Primeiro pelo papá e depois por ti.
HEL- O quê? Por nós os dois... por nós que te amámos mais do que ninguém no mundo?
NORA (abanando a cabeça). Tu nunca me amaste. Apenas achaste que era agradável estares apaixonado por mim.
NORA- Nora, que estás a dizer?
NORA- É absolutamente verdade, Torvald. Quando ainda vivia em casa do papá, ele contava-me todas as suas opiniões sobre todos os assuntos, e por isso eu tinha as mesmas opiniões; e se eu não concordava com ele, não dizia nada, porque ele não iria gostar disso. Dizia que eu era a boneca dele e brincava comigo da mesma maneira que eu brincava com as minhas bonecas. Quando passei a morar contigo...
HEL- Que palavras tão estranhas são essas em relação ao nosso casamento?
NORA (impassível). Quero dizer que fui simplesmente transferida das mãos do papá para as tuas. Fizeste as coisas todas ao teu gosto, e por isso eu fiquei com os mesmos gostos do que tu... ou pelo menos fingia que era assim. Não tenho bem a certeza qual era. Penso que umas vezes eram os mesmos e outras vezes fingia que eram os mesmos. Quando penso nisso, parece-me que vivi aqui como uma desgraçada... como alguma coisa apenas com alguma utilidade. Até agora existi apenas para fazer habilidades para ti, Torvald. Mas era assim que tu querias. Tu e o papá cometeram um grande erro comigo. A culpa é tua se eu não fiz nada da minha vida.
HEL- Estás a ser tão pouco razoável e tão pouco agradecida. Nora! Não tens sido feliz aqui?
NORA- Não, nunca fui feliz. Pensei que era, mas na verdade não era assim.
HEL- Não foste... não foste feliz?
NORA- Não, sentia-me apenas alegre. E tu trataste-me sempre tão bem. Mas o nosso lar tem sido como um quarto de brinquedos. Tenho sido a tua boneca, tal como em casa do papá era a boneca dele; e as crianças têm sido os meus bonecos. Achava muito divertido quando brincavas comigo, tal como eles acham muito divertido quando brinco com eles. É assim que tem sido o nosso casamento, Torvald.
(...)
HEL- Abandonares a tua casa, o teu marido e os teus filhos! E nem pensas no que as pessoas vão dizer!
NORA- Nem penso nisso. Só sei que isto é necessário para mim.
HEL- Isso é chocante. É desta maneira que vais negligenciar os teus deveres mais sagrados.
NORA- Quais te parecem ser os meus deveres mais sagrados?
HEL- Tenho de te dizer quais são? Não são os teus deveres para com o teu marido e para com os teus filhos?
NOTA- Tenho outros deveres tão sagrados como esses.
HEL- Claro que não. Que mais deveres poderia haver?
NORA- Deveres para comigo própria.
HEL- Acima de tudo és uma esposa e uma mãe.
NORA- Já não acredito nisso. Creio que antes de tudo isso sou um ser humano razoável tal como tu também és... ou, que para todos os efeitos, tenho de tentar ser um ser humano razoável. (...) Tenho de pensar por mim própria e chegar a entender-me a mim própria.
(...)
HEL- Falas como se fosses uma criança. Não compreendes as condições do mundo em que vives.
NORA- Não, não compreendo. Mas agora vou tentar compreender. Vou tentar descobrir quem é afinal que tem razão, eu ou o mundo.
HEL- Estás doente, Nora; estás a delirar; quase fico a pensar que enlouqueceste.
NORA- Nunca senti a minha mente tão clara e tão certa como esta noite.
HEL- E é com a mente clara e certa que abandonas o teu marido e os teus filhos?
NORA- Sim, é.
(...)
NORA- É assim mesmo. Agora está tudo acabado. Deixei ali as minhas chaves. As criadas sabem onde está tudo cá em casa... até melhor do que eu. Amanhã, depois de eu me ter ido embora, a Christine virá cá empacotar as minhas coisas, que eu trazia de solteira. Depois, farei que me as enviem.
HEL- Tudo acabado! Tudo acabado! Nora, nunca mais vais pensar em mim?
NORA- Sei que vou pensar muitas vezes em ti, nas crianças e nesta casa.
(...)
(Henrik Ibsen- CASA DA BONECA,1879)
A falta de diálogo num casamento arruina uma relação - tão certo como eu estar aqui sentada a teclar!!! Jinho, BS
Afixado por: blueshell em janeiro 11, 2005 11:26 AMDe facto, Blue, os resultados não poderão ser os melhores. Depois é preciso pensar no porquê da falta de diálogo, assim como na forma como o próprio casamento foi evoluindo (isto, num âmbito mais global).
Por outro lado: havendo consciência da situação (ou a partir do momento em que se faz o "clik"), o que fazer? que reflexões individuais e conjuntas a desenvolver? que perspectivas a ter em conta? etc, etc, etc.
Quanto a esta peça, em particular, dê-se particular atenção à época, e curiosamente ainda, o facto de ter sido um homem a escrevê-la.
Beijinho para ti.
Afixado por: Sandra em janeiro 11, 2005 01:02 PM{ ... messenger ... }{ beijos* }
Afixado por: © in[culto] em janeiro 11, 2005 05:38 PM