As minhas palavras não se justificam perante o que vem a seguir. Leiam. Leiam e sintam. Leiam e sintam as vivências e as lembranças ou memórias de duas personagens tão, mas tão significativas.
Fiquem com elas que eu... vou-me...
TUDO, MENOS A MORTE

Y disse a X que o mundo está cheio de sombras. Ela também era uma sombra quando o sol abraçava o céu pela manhã e quando se deitava sobre os mares e sobre as terras ao entardecer.
Encontram-se na rua. X não o reconhece. Ele pergunta, porque te mataste. Não Y, eu não morri. Morri no futuro e o futuro está tão longe de nós.
Tolices. Não passam de tolices Y, mas o que é certo é que ela morreu porque tu deixaste-a morrer.
E agora, ao levar aquela chávena de café frio aos lábios ele recorda o pressentimento que teve naquela manhã. Uma manhã igual a tantas outras. Uma manhã que nascia e eu a morrer mais um dia sem a poder abraçar.
Ela. Ela estava completamente louca. Ouvia vozes. Via sombras. Uma criança, noites e noites seguidas gritava-lhe dentro do ventre. E eu aqui. Eu aqui sem nada poder fazer. Ou podia? Podia ter feito? Nada podemos fazer quando não existe crença nem vontade; quando a esperança foi a primeira que morreu. Dentro de mim X, dentro de mim... e quando eu entrava dentro de ti, X... quando eu entrava dentro de ti eu era tudo; nós éramos tudo!, éramos uma família inteira num só! Eu era teu pai e teu irmão, eu era todos os teus amigos num gesto apenas. Quando eu te tinha nos meus braços e ouvia os teus gemidos de doce criança... oh... não me importava de ser o teu brinquedo, não me importava de ser o teu boneco ao qual arrancavas pernas e braços só porque gostas de mudar a normalidade das coisas. E as coisas são assim mesmo; tu morta X e eu aqui, já tão velho, tão vazio... tornei-me igual a ti?
Eu também vejo as sombras que tu vias. Também oiço as vozes que me dizias ouvir. Também vejo essa criança mas morta no teu ventre. E vejo-te, vejo-te tão viva, tão viva! Passas por mim na rua e eu pergunto-te porque te mataste. Tu dizes que é mentira, que isso ainda não aconteceu. Dizes-me que falta tanto tempo para morrermos!, dizes que vais para casa fazer o jantar. Ligas-me no caminho e perguntas se quero que vistas aquela lingerie especial. Que vamos ver os filmes que eu gosto, abraçadinhos no nosso sofá amarelo; que vamos rir e conversar até às tantas da madrugada. Dizes que me amas... dizes... Y, amo-te mais que à vida! E és uma mentirosa!!! És uma mentirosa porque mataste aquilo que mais amavas. Mataste aquilo que eu mais amava!!! E aquilo que mais amo é uma vida que se foi no suspiro da morte.
Estou cansado. Penso, como te sentiste naquele dia. Que gozo te deu fazê-lo. Pergunto-te, fizeste-o para me aborrecer? Foi isso? Porque eu sei que adoravas aborrecer-me com as tuas tolices. Tu dizias muitas vezes, um dia quando chegares a casa estou estendida no chão; e sorrias. E depois, com tamanho descaramento, sugerias, podia ser mais engraçado chegares a casa completamente arrasado do trabalho e apetecer-te tomar um banho de imersão com sangue e o meu corpo ali, descansado no seu sono eterno a contrastar com a pureza de uma banheira branca. E fazíamos uma festa os dois. Podias discutir comigo, podias gritar, chorar, bater-me. Eu no silêncio imortal e tu sem nada poderes fazer; como eu estou agora neste momento.
É tudo tão vago... eu que não fumava... fumo o ar onde tu respiras. Tenho-te aqui. Vejo-te, sinto-te. Tu longe. Mas eu consigo ver-te. Falar contigo. O teu riso. Já não choras X, nunca mais te vi chorar. Tu vens durante a noite limpar as lágrimas dos meus olhos fechados para o mundo. E passas a tua mão pelos meus cabelos, sentas-te à beirinha da minha cama virada do avesso e dizes-me, estou sempre aqui, sempre. Desde o início que estou. Nunca me havias visto? Entra dentro de mim agora. Eu quero fazer renascer a nossa família toda morta. E dás-me as mãos. Sinto as tuas pernas e os teus braços envolverem-me o corpo todo e torcê-lo como se eu fosse “aquilo” a que tu chamavas “aquilo” e era “aquilo” que nunca soubemos o que era.
O mundo está cheio de sombras X, dizia-te eu, e eu que era a tua única luz, consegui reduzir-te a isso. A uma sombra que se move à minha volta; a uma sombra que faz o meu mundo retroceder cada vez mais para dentro de uma concha... uma concha velha, triste, cansada e perdida. E assim espero pela morte; vendo os dias passar sem nada fazer porque já não existe nada que possa ser feito. Tudo tem solução... menos a morte X, menos a morte...
(Texto de Alexandra Antunes. Fotografia de Naushér Benaji)
O próximo capítulo será editado Sexta-feira. Até lá!
Quando leio o que a Alexandra escreve perco toda a vontade de escrever. Não é bom nem mau, é assim.
Adoro ver escrito por ela o que penso, o que sinto.
Tenho vindo a acompanhar o que a Alexandra escreve. E a vida tem destas coisas, "sentires" partilhados.
Afixado por: Silent Girl em janeiro 10, 2005 02:39 PMJá eu, Luis, qd leio o que a Alexandra escreve, sabe-me sempre a pouco. É como que um vício: só me apetece + e + e + e +... :) Creio que é bom: significa, no mínimo, que a Alex me puxa para ela através da sua própria escrita (independentemente de algo, em termos de significados de conteúdo, mais profundo).
Beijinho para ti :)
Silent Girl: tenho pena que não te tenhas manifestado há mais tempo. Espero que daqui para a frente seja diferente.
Beijinho para ti tb :)
Afixado por: Sandra em janeiro 10, 2005 03:32 PM{ … “ando cansado deste vai e vem, ler e achar ( comentar ), nesta falta de tempo e parecer, neste querer dizer e não poder ( sair ), … por isso quando aqui estiver ( em silêncio por vezes ) tento (tentarei) deixar uma pequena frase para que possas entender, que aqui me prendo a ler ( gostar ).” © o5elemento … }
Afixado por: o5elemento em janeiro 10, 2005 10:17 PMContinuo a ler os textos da Alexandra, algumas vezes em silêncio, embora ambas me mereçam todo o carinho pelo excelente trabalho que fazem neste blog. Beijo
Afixado por: Monalisa em janeiro 10, 2005 10:20 PMàs vezes fico impressionada com a possibilidade de transmitir tanto sentimento através de palavras... e por vezes palavras tão banais! E a Alexandra sabe faze-lo tao bem!
Afixado por: missantipatia em janeiro 11, 2005 12:06 AM5ºelemento (e quem está por trás de ti): só te posso agradecer toda a atenção e carinho demonstrados. Com ou sem frase, sei que estás presente. Deixa: também gosto dos teus silêncios.
Beijo grande :)
Monalisa: foram importantes essas tuas palavras de valorização de um trabalho conjunto que está a ser desenvolvido. Sem dúvida que o é e ainda bem que o está a ser, na medida em que permite concluir determinadas coisas quer relativamente à Alex quer relativamente a mim quer relativamente a ambas. Até ao momento o resultado têm-me agradado bastante, mas isto significa, apenas, motivação para fazer melhor. Qualidade é o que me/nos exigimos.
Beijinho :)
Missantipatia: a Alexandra consegue fazer com que nada seja banal... ou que a junção das palavras deixe do o ser. Sendo que, no entanto, eu compreendo o que queres dizer, só posso concordar com o facto dela o fazer tão, mas tão bem.
Beijoka :)
Afixado por: Sandra em janeiro 11, 2005 07:02 AM