janeiro 09, 2005

EXPRESSÕES E IMPRESSÕES (NOSSAS)


(Fotografia de José Marafona)

O entusiasmo é uma grosseria.
A expressão do entusiasmo é, mais do que tudo, uma violação dos direitos da nossa insinceridade.
Nunca sabemos quando somos sinceros. Talvez nunca o sejamos. E mesmo que sejamos sinceros hoje, amanhã podemos sê-lo por coisa contrária.

Por mim não tive convicções. Tive sempre impressões. Nunca poderia odiar uma terra em que eu houvesse visto um poente escandaloso.

Exteriorizar impressões é mais persuadirmo-nos de que as temos do que termo-las.


(Bernardo Soares- LIVRO DO DESASSOSSEGO)

Publicado por void em janeiro 9, 2005 09:35 AM
Comentários

"Nunca sabemos quando somos sinceros. Talvez nunca o sejamos. E mesmo que sejamos sinceros hoje, amanhã podemos sê-lo por coisa contrária." - esta frase deixou-me a pensar... e pensei q existe nela uma pontinha de verdade!Às x dou cmg a ser simpática e no fundo a pensar "Ai... será q esta simpatia é de ocasiao...? Será q sou assi tão simpática pq espero algo em troca?" É tao complicad tentar perceber a razao e o coraçao! Tao complicado...


Afixado por: missantipatia em janeiro 9, 2005 01:06 PM

"nunca sabemos quando somos sinceros" porque acreditamos que somos sinceros, e então, somos sinceros. Mas se não acreditarmos na nossa sinceridade, como poderemos então ser sinceros?
Querida Sandra, um beijo grande para ti linda. Bernardo Soares é sempre uma boa escolha ;)****

Afixado por: alexandra em janeiro 9, 2005 02:00 PM

De facto, uma belíssima escolha que nos deixa a pensar no que dizemos e porquê. Isto de se ser expectador de nós próprios, não é fácil. beijos, Sandra.

Afixado por: lique em janeiro 9, 2005 04:32 PM

Tenho reparado q o jose marafona tem fotos bonitas.Beijinhos

Afixado por: Ana em janeiro 9, 2005 06:51 PM

Extrínsecamente impressa como uma segunda pele.Essa sinceridade é a realidade da coisa em si.Agora pode ser uma,de fora,logo pode-se internalizar.O que está aqui em jogo é pois uma dialéctica entre o ego e o alter e é essa reciprocidade ao mesmo tempo fora/dentro que faz o desassossego entre essa realidade racional e a sua auto-realização em termos absolutos.Beijinhos!

Afixado por: Joao em janeiro 9, 2005 07:12 PM

Acredito na espontaneidade e sinceridade humanas.
Nunca gostei de cinismos.

Afixado por: Luís em janeiro 10, 2005 12:54 AM

Uma forma simpática de dizer muitas verdades.
Os paradoxos não são menos interessantes: tão verdadeiros quanto as outras verdades.

E o bom selvagem do Rousseau, sem calculismos, já lá vai há anos: é o que temos.

cumps.

Afixado por: PmA em janeiro 10, 2005 01:22 AM

Concordo contigo PmA. Aliás, não sou rousseana. Isso seria um erro e a máxima da ingenuidade. Seria, aliás, suicidário integrar-me na sociedade com essa convicção. É de lamentar é verdade, embora evidentemente existam pessoas sinceras, verdadeiras, com escrúpulos. Agora, temos de pensar em tudo com uma grande dose de relativismo.

Luís: eu tb acredito, mas com as tais limitações que falei anteriormente. Não dá para vivermos de olhos vendados. Para a nossa própria sobrevivência, não dá. Isto não é ser negativista, é ser realista. A hipocrisia, o cinismo, as facadas nas costas são um lugar demasiafdamente comum. Vivemos numa sociedade que explora o individualismo de forma crescente, não pela positiva, mas muito pela negativa: competição pode ter o seu interesse e ser estimulante, mas... cuidado... há limites e esquemas de enquadramento... ou melhor, deveria haver... não o salve-se quem puder.

João: de facto, somos, sentimos e vivemos os paradoxos, as contradições, os desassossegos. O nosso quotidiano interior é feito disso mesmo. Se dai resultar crescimento/evolução/amadurecimento, tudo bem. O pior é quando isso não acontece e nos vemos atolados num lamaçal emocional que, por vezes, nos diminui.


Alexandra: realmente, nós podemos acreditar no que quisermos, mesmo que por vezes essa verdade para nós, seja a melhor e mais bem estruturada das mentiras. Mas acreditar é importante. E por em prática também. Agora: mesmo que as práticas e os resultados sejam pouco "agradáveis" ou "recomendáveis", à luz de determinados padrões, mas se isso vier de muito dentro de nós... bom... estamos a ser sinceros. Seja qual for o tipo de sinceridade, a sua relação connosco e com o mundo, esta implica sempre um preço e esse importa que seja considerado/avaliado.


Missantipatia e Lique: de facto, estas palavras de Bernardo Soares dão muito que pensar, permitem olhar-nos e, sem qualquer dúvida, não é fácil sermos espectadores de nós. Depende. Pode haver casos em que será até bastante doloroso.


Um abraço a todos :)

Afixado por: Sandra em janeiro 10, 2005 07:11 AM