janeiro 08, 2005

POESIA DE ADOLESCÊNCIA: A.A (1)

O conjunto de poemas que se segue é o primeiro de vários que concretiza a divulgação/edição do trabalho de adolescência desenvolvido pela Alexandra, no campo da Poesia.
Escrevendo desde os 8/9 anos de idade, a Alexandra sempre foi percorrendo o caminho do auto-conhecimento e da auto-descoberta sustentando-o através de vários tipos de escrita, inclusive no campo da diarística. Desde essa idade apostou, de facto, numa aturada relação entre o seu crescimento e desenvolvimento como pessoa e a passagem de palavras para o papel que significavam, "tão só", um imenso grito íntimo de si em tudo aquilo que este pudesse expressar de tentativa de compreensão e enquadramento, também, do Mundo e, neste, do Outro/dos outros.
A poesia de adolescência da Alexandra mostra-nos já essa opção, esse percurso criativo. Um percurso absolutamente nada linear, como não o é, aliás, a própria Vida, sendo que se assumem de forma absolutamente relevante as tristezas, os sofrimentos, as dúvidas, as angústias, os receios, os anseios, mas também a vontade, a esperança, o desejo/a necessidade do Amor e de amar, a necessidade de pertença (apesar da não abdicação, igualmente, da Liberdade).
Independentemente desta poesia ter um contexto temporal específico, não deixa de forma alguma de ser indicadora dos tempos que ainda virão. Há prolongamentos de formas de estar, de estados de espírito, de posturas no mundo que são ainda hoje muito válidas, não ultrapassadas ou em termos de personalidade, descartáveis. Existem pensamentos, vozes interiores que se vão mantendo para além da passagem dos dias, dos meses, dos anos e que continuam a caracterizar um "Eu" que, apesar de mais amadurecido pelas experiências de vida, continua a manter muito do que fazia parte do substracto de um passado que só morreu naquilo que não foi de todo capaz de reter ou fazer reter. Passado e Presente, duas dimensões do Tempo confundem-se, pois, numa forma de expressão, onde a aposta foi sempre, mas sempre uma realidade.
Para não me alongar mais, concluo sublinhando que estamos perante uma dimensão muito pessoal e personalizada da escrita, num percurso também de posicionamento mais universalizante, onde a excepcionalidade afinal mostra-se como não o sendo tanto ou sendo-o mais relativamente, naquilo que isso significa de identificação, aceitação e acolhimento por um número bastante mais alargado de eus.

Seguem-se os primeiros poemas:

SOU EU, SOU ASSIM

As pessoas à medida que crescem
Vão mudando de pensar;
Eu cresço, mudo as ideias
E os pensamentos...
Mas tiro sempre a mesma conclusão!


LIBERDADE

Observo a ave rara solitária
Numa gaiola trancada
E na sua liberdade imaginária
Perde-se no vazio do nada.
Sinto pena
Que poderei por ti fazer!
E assisto a esta triste cena
Na dispersão do meu ser.
Vou tirar-te
Vem comigo
Vou soltar-te
Voamos sobre espigas, sobre trigo.
Vamos voar, voar, voar...
Sobre rios, sobre mares
Vamo-nos salvar
Eu acompanho-te, voes para onde voares.
Porque a liberdade
É voar, esvoaçar
A libertação é a verdade
E o nosso espírito é apenas ar.
Ar liberto
Como o de todos os pássaros, andorinhas, pardais!
Ave prisioneira mostra-me o lado certo
Leva-me para onde agora vais.


A DERROTA

Vou a correr
Em sacrifício das coisas da vida
Sem temer...
Lutar até morrer...
Para quê?!
O mundo só acaba para aqueles que morrem
Até lá... sofrem.
O mundo...
Esta ou aquela coisa miserável.
Míseros
São aqueles que condenam os miseráveis.
Vou a correr...
Tropeço,
Caio,
Levanto-me.
Vou a correr...
Caio,
Depois de tropeçar.
Levanto-me
Ele corta-me uma perna,
E eu caio.
Caio,
Sem uma perna...
Consigo levantar-me novamente
Mas ele corta-me a outra
E eu não me levanto mais.
Rastejo,
Sem as duas pernas
E sem um braço...
Ele vem e tira-me outro braço.
Agora sem pernas e sem braços...
Sem rastejar...
Só me resta a cabeça para pensar.
Ele aparece, e eu consigo derrota-lo.


MUDANÇAS DA VIDA

A vida é cheia de mudanças
Algumas são inesperadas
Mas ainda tenho esperanças
Sobre estas mudanças não desejadas.
Para trás tantas coisas deixei...
Coisas do meu coração!
E só agora me lembrei
De como por tudo aquilo tenho paixão!
A minha única companhia
É a tristeza e a solidão
Sinto-me dentro de uma triste melodia
Afastada de uma alegre canção.
Sempre soube dar valor
E agora à distancia
Apesar da dor
Mas sempre com muita ânsia.
Ansiedade de ter
Vontade de estar
De novo poder viver
De novo poder sonhar.
Tudo muda neste mundo
A noite para dia
E eu para um buraco sem fundo
Escuro e sem alegria.
Se o sol se for embora
Mais tarde a lua aparece
Se no outro dia a nuvem não chora
Os céus pedem-lhe que ele regresse.
Assim como o sol, também hei-de regressar
Porém, tal como a nuvem chorosa
As minhas lágrimas terei de derramar
Sobre a vida que já não é cor de rosa.


(Poemas de Alexandra Antunes. Fotografias de Elena Vasilieva)


Mais um conjunto de poemas de adolescência serão editados daqui a uma semana: Sábado, dia 15 de Janeiro. Espero que tenham gostado o suficiente para nos encontrarmos nessa data.


Publicado por void em janeiro 8, 2005 09:35 AM
Comentários

Eu não gostei, ADOREI. Um bem haja para ti Sandra por nos dares a conhecer o trabalho excelente da Alexandra. Beijinho Grande e bom fim de semana

Afixado por: Micas em janeiro 8, 2005 01:05 PM

Nem imaginas, Micas, o respeito que eu tenho pelo trabalho da Alex. Seja em Prosa ou em Poesia, escrito agora ou num passado mais recuado... nem imaginas. A escrita dela esmaga-me, pela grandiosidade e, sobretudo, pela força que tem inerente. Há alturas em que, "simplesmente", só consigo ficar quieta e em silêncio. Fazer o quê?

Este post foi um desafio enorme para mim, em particular, pelas palavras introdutórias que escrevi. Tremo só de pensar o que considerará a Alex quando as ler. Não posso negar que me aventurei em excesso.

Beijo grande :)

Afixado por: Sandra em janeiro 8, 2005 02:20 PM

Vê-se a procura, mais do que a descoberta.
Fiquei cheio de vontade de saber o que vais encontrar...

Afixado por: Luís em janeiro 8, 2005 02:22 PM

Luís: estás perante 4 poemas e, no imediato, é isso que (também) passa. Mas existe, da mesma forma, o que está para lá do imediato. Existem os bastidores duma imediatez das mensagens. Bastidores que não são, de todo, só o anterior, o antes, o que está ou fica para trás. Pensemos em algo mais elevado (ou diferentemente elevado), absoluto (ou diferentemente absoluto). Pensemos na possível dupla face das coisas.
O acto da escrita pode ser visto, encarado, interpretado sobre várias perspectivas. Sempre!

Obrigada pela tua participação :)

Afixado por: Sandra em janeiro 8, 2005 02:30 PM

snif!
Não tenho tido tempo para blogs mas voltarei para ler tudo!
Beijos

Afixado por: luisa em janeiro 8, 2005 02:36 PM

Snif, snif, Luísa... eheheh...
Mas não podes negar que chegaste numa altura particularmente especial, pois não? ;)
Sim, volta, volta :))

Beijo grande

Afixado por: Sandra em janeiro 8, 2005 02:42 PM

ADOREI!
Beijinhooo*

Afixado por: Yuna em janeiro 8, 2005 03:53 PM

Conjunto de poemas fantástico.

beijos

Afixado por: Contador de Histórias em janeiro 8, 2005 04:21 PM

Um post muito bem conseguido e qe traduz tudo quanto disseste na introdução..gostei! Jinhos, BS

Afixado por: blueshell em janeiro 8, 2005 04:27 PM

Yuna, Contador de Histórias e Blueshell:

em nome da Alexandra agradeço imensíssimo as vossas palavras. Acreditem que as mesmas são muito importantes para o percurso presente que, em termos de escrita, mas não só, vai sendo feito.

Como editora dos trabalhos da Alexandra aqui no Abismo, digo-vos que me sinto muitíssimo feliz com todo o vosso acompanhamento e apoio. Muito mas muito obrigada.

Beijo grande aos 3 :)

Afixado por: Sandra em janeiro 8, 2005 05:40 PM

gostei mto. Poesia de adolescencia...s calhar e por isso k gostei tanto*

Afixado por: Ana em janeiro 8, 2005 10:48 PM

:) Simplesmente belissimos,adorei estes poemas da Alex. Esta menina alem de um ser humano fantastico é tb uma grande escritora e eu gosto imenso dela e tenho-lo um carinho enorme (ela sabe).Beijinhos alex minha kerida e claro beijinhos Sandrinha e obrigado por nos dares a conhecer poemas tao belos como estes**********
P.S:As fotos como sempre bem escolhidas.

Afixado por: Monica em janeiro 8, 2005 10:50 PM

Gostei tanto que voltei outra vez para de novo ler. Tens toda a razão Sandra, o trabalho da Alex é fantástico. Beijo grande e bom domingo.

Afixado por: Micas em janeiro 9, 2005 08:47 AM

Ana: sim, poesia de adolescência, mas com a possibilidade de ser lida/sentida em qualquer tempo... em qualquer idade física/psicológica nossa. Poesia, eu diria, transversal à nossa existência. Mas, sim, claro, poesia de adolescência.

Beijokinha para ti :)


Mónica: esta menina sempre foi muito especial desde que deu o 1º grito para o mundo. É em toda a sua diferença que está a sua particularidade, a sua alma diferenciada, o seu sentido ordenadamente desordenado de existência. É por isto... por tudo isto, que ela tem o dom de me fascinar e de a fazer admirar e respeitar muitíssimo.
Quanto às fotos: obrigada pelas tuas palavras.

Beijinho :)


Micas: ler e reler e reler e reler a Alex não cansa nunca, seja qual for o género de escrita com que nos deparemos. É magnético.

Beijo grande :)

Afixado por: Sandra em janeiro 9, 2005 09:26 AM

Quero agradecer a todos vós pelas palavras que aqui me deixam. De cada vez que a Sandra edita textos e poemas meus fico sempre surprendida com a vossa reacção. É que para mim, é um pouco complicado compreender opiniões positivas; fica mais fácil encarar opiniões negativas relacionadas com tudo aquilo que escrevi/ escrevo. Será porque tenho falta de confiança em mim? Será porque sou uma alma caótica, negativista? Talvez. No entanto, quero que saibam que tudo o que escreveram me deixou feliz e a sorrir.
Sandra, obrigado pelas palavras que me diriges. Muitas vezes não sei como as retribuir. Espero que compreendas. As imagens que escolheste (que continuas a escolher) vão de encontro a grande parte daquilo que sou. Gostei muito.
Mónica, tu és uma doce menina :) obrigado pelas tuas palavras. Um beijo enorme às minhas duas queridas, e um grande abraço para todos.
p.s.: venho sempre com atraso. Mas venho. :****

Afixado por: alexandra em janeiro 9, 2005 02:14 PM