janeiro 07, 2005

"X E Y: A ESTÓRIA"- CAPÍTULO 2

E a estória da Alexandra continua. Deixo-vos com o tempo, os espaços, as vidas, as vivências, mas também com as reflexões, as sensações e os sentimentos que a consubstanciam. Deixo-vos com a voz do pensamento. Deixo-vos com aquele que é o seu (da estória) grande humanismo/realismo que, no fundo... ou talvez nem tanto, traduz aquilo que faz parte de nós, pelo que dela é susceptível sermos/ou termos sido/ou virmos a ser.
Mas não me vou alongar mais. O texto fala por si.


DIA 2002, ANO OUTUBRO

Percorria a nossa casa naquela manhã cheia de sol com a tua camisola vestida. Era quase o dobro do meu tamanho. A tua camisola. As mangas caídas dois palmos abaixo das mãos, num movimento de braços oscilantes, e o extremo a roçar levemente nos joelhos ondulantes pelos movimentos descoordenados de duas frágeis pernas. E nesta dança desengonçada eu percorria a nossa casa naquela manhã radiante, e cantava ao som de uma voz quase sumida,Tu fazes duas de mim e eu divido em dois tudo aquilo que és.
Eu era uma nómada enquanto caminhava pelos corredores da nossa casa e levava constantemente as mãos aos olhos para os proteger dos raios de sol, sempre que passava em frente das janelas.
A nossa casa era uma casa vazia e silenciosa. Tinha grandes portas que lembravam bocas de seres doutro mundo capazes de engolirem multidões, e as janelas eram como grandes olhos que observavam tanto para dentro como para o lado de fora.
Havia o jardim. Era um jardim com muitas flores e muitas plantas. A relva era a relva de todos os dias; estranhamente fresca e verde, como nos sonhos onde tudo parece demasiado perfeito para ser real.
E depois o cão ladrava e corria e pulava. Era um bonito cão. Era uma alma pura. O nosso cão que conversava comigo quando eu estava em estados de crónica melancolia.
Era quase impossível observar através desses grandes olhos o que se passava do lado de fora da nossa casa. Os raios de sol invadiam tudo aquilo que um dia havia sido negro e misterioso. Os raios de sol faziam um exame completo da nossa vida na tentativa de desvendar algum segredo. Mas nós não tínhamos nada a esconder de ninguém a não ser de nós próprios; a cegueira que nos pertencia.
Gosto de estar aqui. Gosto de estar num ano que não existe, num dia que não tem nome. Quero ficar nesta casa para sempre e isolar-me do mundo lá fora. Eu quero chamar as coisas por outros nomes; trocar palavras e pensar que para além de ti , do nosso cão e no nosso jardim mais ninguém se importa. Quero estar neste silêncio e neste nada que apenas a nós pertence em meses que não obedecem a regras de doze. Este nada que tudo é para nós; este vazio tão cheio de nós e das nossas coisas. É aqui que quero estar. E poder dizer-te: os anos têm quantos meses nós quisermos, e os dias quantas horas nos apetecer.
Eu quero chamar-te por um nome diferente a cada minuto que passe porque ambos temos perfeita consciência que isso não altera os sentimentos que crescem nos nossos braços. Quero andar nua e descalça, de mãos dadas contigo pela relva molhada do nosso jardim e cantar-te baixinho ao ouvido, Eu faço dois de ti e tu divides em dois tudo aquilo que sou.
Abracei centenas de vezes a tua camisola enquanto escondia os olhos da forte luminosidade. Atravessei as bocas de titãs que me deram acesso aos olhos ternurentos daquele que me ladrava em tom de alegria e satisfação. E escondi a cara do sol ao mesmo tempo que afagava o pêlo do nosso cão com a visão dos meus dedos.
Voltei para dentro do nosso silêncio, da nossa paz, do nosso secreto descanso e deitei-me a teu lado, no nosso quarto sem cama segredando-te ao ouvido, Outubro é mágico porque faz aparecer locais, pessoas e sentimentos onde menos se espera... como se nada disto tivesse sido dito ou tivesse acontecido.


(Texto de Alexandra Antunes. Fotografia de Vanessa Braun)


O próximo capítulo será editado Segunda-feira, dia 10. Amanhã, Sábado, serão editados os primeiros poemas de adolescência da autora. Conto novamente convosco para o respectivo acompanhamento. Até amanhã, então.

Publicado por void em janeiro 7, 2005 06:38 AM
Comentários

Acompanhando de perto o trabalho da Alexandra cá estou... e cá estarei :)
Beijinhos às duas
*A

Afixado por: Alexandre em janeiro 7, 2005 11:12 AM

{ ... não conhecia [] vou decerto acompanhar esta escrita [de meu agrado] © in[culto] ... }{ beijos* }

Afixado por: © in[culto] em janeiro 7, 2005 03:32 PM

Para alem dos parabéns à autora dos textos,
um abraço às autoras do VOID.
Contnuam a publicar boas coisas.

Um Ano Novo cheio de felicidades.

Afixado por: João Norte em janeiro 7, 2005 03:51 PM

Saudades do futuro cada vez mais improvável, cada vez mais sonhado.

Afixado por: m. h. AdamastoR em janeiro 7, 2005 04:32 PM

Lindíssimo...elegante e sumptuoso!

Bravo

Afixado por: Paula em janeiro 7, 2005 05:18 PM

Eu como editora, estou a babar.... A Alex é a minha escritora preferida. Não acreditam? Pois é verdade!
Obrigada a todos e um grande beijinho :)

Afixado por: Sandra em janeiro 7, 2005 07:20 PM

Continua interessante e de agradabilíssima leitura esta estória. Aguardo a sua continuação! Um beijo e bom fim de semana.

Afixado por: Pink, the Lady em janeiro 7, 2005 07:41 PM

Sempre q venho a este blog e comento torno-me repetitiva porque a única coisa q consigo dizer é "Adorei!" Sério, está fantástica esta hisória! O começo dela pelo menos! ;) Uma sugestão: depois de lerem o capítulo, releiam-no ao som de Fáfil de entender - The Gift. Da-lhe um toque especial! ;)

Afixado por: missantipatia em janeiro 7, 2005 07:56 PM

Magnifica estória. Com toda a certeza que cá virei. Dou-te os parabéns Sandra, por este espaço tão belo e de tão bom gosto.
Beijo grande e até amanhã.

Afixado por: Micas em janeiro 7, 2005 08:40 PM

Missantipatia: a tua sugestão deixou-me absolutamente enternecida. E assim foi porque é infinitamente gratificante ver a forma como o trabalho da Alex é recebido por ti e por outras pessoas aqui no Abismo. Isto é algo que não posso deixar de salientar pelo muito que gosto da Alex e por isso desencadear em mim este tipo de emoções.
Um grande beijo para ti :)


Micas: as tuas palavras são muito importantes para mim, como julgo já teres percebido. Sinto-me muito reconhecida e só te posso agradecer. Até amanhã. Cá te espero.
Beijo grande :)

Afixado por: Sandra em janeiro 7, 2005 09:03 PM

:) Obrigado a ti, Sandra e a todos vós. Espero que continuem a gostar de forma igual à medida que os episódios progredirem. Até lá, um grande abraço a todos e um beijo enorme para ti Sandra :*** ;)

Afixado por: alexandra em janeiro 9, 2005 02:16 PM