PRIMEIRA VOZ:

Estou calma. Estou calma. A calma que se sente antes duma catástrofe:
O minuto gélido antes do vento entrar, quando as folhas se
reviram
E mostram a sua palidez. Está tudo tão calmo aqui.
Os lençóis, as faces lívidas e mudas, como relógios.
Vozes que se afastam e esmorecem ao longe. Os seus
hieróglifos
Transformam-se em biombos de pergaminho lutando contra
o vento.
Os segredos que se pintam em árabe e chinês!
Estou muda e escura. Sou uma semente prestes a explodir.
A escuridão vem do meu eu morto e é taciturna:
Não deseja ser mais, ou diferente.
O crepúsculo cobre-me de azul, agora, qual Maria.
Ó cor da distância e do esquecimento! -
Quando virá o momento em que o Tempo pare
E a eternidade o devore, e eu me afogue irremediavelmente?
Falo comigo mesma, apenas comigo, separada de tudo-
Esfregada com desinfectantes e lúgubre como para um
sacrifício.
A espera pesa-me nas pálpebras. Pesa-me como o sono,
Como um imenso mar. Ao longe, muito ao longe, sinto a
primeira onda
Descarregar a sua agonia contra mim, incontrolável, como
a maré.
E eu, concha ecoando nesta praia branca
Enfrento as vozes avassaladoras, o terrível elemento.
SEGUNDA VOZ:

Vê-se a lua através da janela. Está tudo terminado.
O inverno enche a minha alma! E aquela luz de giz
Depositando as suas escamas nas janelas, as janelas dos
escritórios vazios.
Salas de aula vazias, igrejas vazias. Oh, tamanho vazio!
E esta sensação de tempo suspenso. Esta terrível suspensão
de tudo.
Estes corpos amontoados agora à minha volta, estes
chinelos de neve -
De que gélidos e azulados raios de luar serão os seus
sonhos?
Sinto-a a entrar dentro de mim, fria, estranha, como um
instrumento.
E esse rosto louco e duro que me espera no fim, essa boca
em forma de Ó
Aberta num esgar de perpétuo sofrimento.
É ela quem arrasta o mar negro de sangue
Mês após mês, com as suas vozes de fracasso.
Estou tão desamparada como o mar no limiar do seu fio.
Estou inquieta. Inquieta e sem préstimo. Também eu crio
cadáveres.
Vou para o Norte. Vou para uma remota escuridão.
Vejo-me como uma sombra, nem homem nem mulher,
Nem mulher, feliz por ser como um homem, nem homem
Suficientemente bruto e vazio para não sentir a ausência.
Eu sinto essa ausência.
Ergo os meus dedos, dez estacas brancas.
Vejam, a escuridão escorre por entre as fissuras.
Não a consigo conter. Não consigo conter a minha vida.
Serei uma heroína do periférico.
Não serei acusada por botões isolados,
Buracos nos calcanhares das meias, as mudas e lívidas faces
Das cartas não respondidas, seladas como um caixão num
cofre de cartas.
Não serei acusada. Não serei acusada.
O relógio não dará pela minha falta, nem estas estrelas
Cravadas no seu posto, abismo após abismo.
TERCEIRA VOZ:

Lembro-me do minuto em que tive a certeza.
Os salgueiros estavam gélidos,
A face no lago era bela, mas não era a minha -
Tinha um ar de circunstância, como tudo do resto,
E em todo o lado eu via perigos: pombas e palavras,
Estrelas e chuvas douradas - concepções, concepções!
Lembro-me de uma asa branca e fria
E de um enorme cisne, de olhar aterrador,
Vindo em direcção a mim, como uma torre, do cimo do rio.
Em todo o cisne há uma serpente.
Ele deslizou junto de mim; tinha um olhar carregado de
ameaças.
Vi nele o mundo - pequeno, mesquinho, ameaçador,
A mais pequena palavra dependente da mais pequena
palavra, o gesto do gesto.
Um dia quente e azul que tinha brotado.
Eu não estava preparada. As núvens brancas que se formavam
Arrastavam-me em todas as direcções.
Eu não estava preparada.
Não sentia qualquer fervor.
Pensava que podia negar as consequências -
Mas era demasiado tarde para isso. Era demasiado tarde e
a face
Ía ternamente tomando forma, como se eu estivesse preparada.
(Fotografias de Jull de Vries)
(Sylvia Plath- TRÊS MULHERES. POEMA A TRÊS VOZES)
Gostei...nem sei o que dizer...
Afixado por: blueshell em janeiro 1, 2005 11:31 PMUm feliz 2005 aqui para esta casinha.
Haja paz, amor, solidariedade entre os homens de boa-vontade.
Tudo de BOM para ti.
Um abração do
Zecatelhado
Gostei.Adoro Sylvia Plath,boa escolha.Beijinho e bom 2005!
Afixado por: Yuna em janeiro 2, 2005 12:56 AMA propósito,o meu nome é Tânia,adoro dança,música e assuntos relacionados com o gótico :) beijinho*
Afixado por: Yuna em janeiro 2, 2005 01:06 AMPara quem gostou de parte deste poema, em particular e gosta de Sylvia Plath, em geral, veja o meu post de 29 de Dezembro: filme relacionado com a escritora.
Beijinhos a todos :)
Afixado por: Sandra em janeiro 2, 2005 01:55 PMOla Feliz Ano Novo! Adorei a vossa selecao de autores, poetas, musicos e cantoras teu site continua lindo, grande beuijo e enorme carinho
Lilia Trajano
Lilia :))))))))))))))
Que bom ver-te aqui outra vez. Que bom. Mesmo!
Se voltares aqui, tem isto em conta: contacta-me de outra forma. Gostaria tanto de voltar a falar contigo...
Um bom ano para ti também, minha querida.
Beijo enorme e diz alguma coisa.
Oi Sandra, assim que voltar a Lisboa te chamo tens o mesmo numero de movel, chego quarta feira a Lisboa, grande beijo Lilia
Afixado por: em janeiro 10, 2005 01:03 PMLilia: os meus contactos mantêm-se exactamente os mesmos.
Beijo grande. Até ao teu regresso :)