
(Ilustração de David Ho)
Hoje o tempo dói. Estou em frente da casa, vejo a varanda no cimo dos olhos, a porta semiaberta aguarda a minha entrada. Venho com os olhos dourados de lágrimas. Venho perdido, meu tio que me deixou aqui e eu tão pouco contigo, que o tempo dói. Dói como as estrelas doem o céu, cosidas na pele, espetadas na sua carne.
Dói porque é um tempo só. Porque já não tenho a esperança, a esperança que nunca tive. Estava inocente na minha vida e a mãe a dizer
- Não passa de hoje, dizem os médicos.
e a chorar e a dizer
- Não passa de hoje, dizem os médicos.
e eu a não entender. Porque mesmo quando a mãe me fez querer ver eu não quis. Eu e ela no hospital, sentados junto à entrada de um dos blocos, cá fora ela dizia
- Está pior, não é possível dizer muito.
e eu a não querer perceber. E soube-o hoje, antes desta porta semiaberta em frente, a varanda no cimo dos olhos, com o H à saída da urgência. Soube-o agora porque não consegui querer saber antes. Porque a infância é tão boa. Porque a morte mata a infância, mata crianças que não morrem porque mata o pai delas. Eu que tenho idade para já saber que a morte procura e encontra, lince, que a morte não faz escolhas, escolhe sempre o mais perto de nós, eu, que sou tão novo e já tão velho, tão rapaz e pouco criança, tão criança por ser tão perto de vós, meus pais, eu, eu que sei agora: a morte chega e mata-nos por dentro ao matar quem nos é dentro, connosco.
E não quero mais entrar em casa, ser o teu lugar no sofá nunca. Não quero e não vou, espero à entrada da porta que ela se feche de tão pouco semiaberta que está. Espero que encerre lá dentro a morte, que me deixe ser criança mais tempo.
(Jorge Reis-Sá - POR SER PRECISO)
Publicado por void em dezembro 31, 2004 06:02 PMUm excelente sonho nada negro de olvido, bom para que 2005 não se esqueça de ti.
:) besitos