dezembro 31, 2004

A VIVÊNCIA AMPLA DA NOSSA EXISTÊNCIA


(Fotografia de Alberto Monteiro)

Temos de assumir a nossa existência o mais amplamente possível; tudo, até mesmo o impensável, tem de ser possível. No fundo é esta a única coragem que nos é pedida; ter coragem para o mais estranho, o mais singular e o mais inexplicável que possamos encontrar. O facto de a humanidade ter sido cobarde neste sentido fez muito mal à vida; as experiências a que chamam visões, o todo dito mundo-espiritual, a morte, todas estas coisas que nos estão tão próximas, têm diariamente sido tão afastadas da vida que os sentidos com que as podíamos agarrar estão agora atrofiados. (...) Pois não é apenas a inércia a responsável pela repetição das relações humanas, indiscritivelmente monótonas e iguais; é a timidez perante qualquer tipo [de] experiência nova e imprevisível com a qual não nos sentimos capazes de lidar. Mas só alguém que está pronto para tudo, que não exclui nada, nem mesmo a coisa mais enigmática, viverá a relação com o outro como algo vivo que sairá dele próprio [e] da sua existência. Pois se pensarmos nesta existência do indivíduo como um quarto maior ou menor, parece evidente que a maioria das pessoas aprendem a conhecer apenas um canto do seu quarto, um lugar junto à janela, um pedaço de chão no qual andam de trás para a frente. Assim sentem alguma segurança. E, no entanto, essa insegurança perigosa é muito mais humana (...). E se ao menos arranjarmos a nossa vida de acordo com esse princípio que nos aconselha a agarrar aquilo que é difícil, então aquilo que nos parece agora tão estranho tornar-se-á algo em que confiamos e que consideramos mais fiel. (...)
De forma que, caro Sr. Kappus, não deve ter medo, se a tristeza cresce de uma forma que você nunca sentiu (...). Tem de pensar que algo lhe está a acontecer, que a vida não o esqueceu, que o mantém nas suas mãos; não o deixará cair. Por que deseja afastar da sua vida qualquer agitação, qualquer dor, qualquer melancolia, já que desconhece o que estes sentimentos trabalham para si? Por que deseja atormentar-se com a questão se tudo isto vem para onde é preciso? Uma vez que sabe que se encontra no meio de uma transição e nada mais queria do que uma mudança... Se existe algo de mórbido no seu desenvolvimento, lembre-se que a doença é o meio pelo qual o organismo se liberta de algo estranho; assim, devemos ajudar a doença, de forma a tomá-la toda e cortar com ela, pois assim é o progresso. Em si, caro Sr. Kappus, tanto está a acontecer; tem de ser paciente como um doente e confiante como um convalescente; pois talvez seja ambos. E mais: você é também o médico, que tem de o vigiar. Mas há, em todas as doenças, muitos dias em que o médico nada mais pode fazer do que aguardar. E é isso que você, na medida em que é o seu médico, deve agora fazer.

(Rainer Maria Rilke- CARTAS A UM JOVEM POETA)

Publicado por void em dezembro 31, 2004 08:50 AM
Comentários

{ ::: [boas saída.s e melhore.s entrada.s][saúde] ::: }

Afixado por: o5elemento em dezembro 31, 2004 09:14 AM

Um beijo grande para ti, para os teus irmãos heterónimos e para o grande Ricardo :)))

Tudo de melhor em 2005!

Afixado por: Sandra em dezembro 31, 2004 09:43 AM

sim, sim, sim. completamente. todo o quarto.

[um beijo de sorte para o novo ano :))]

Afixado por: Ardente_Mente em dezembro 31, 2004 11:02 AM

O mundo deveria ser cheio de amor,alegria,paz,fraternidade e esperança...
mas não é...Espero que neste 2005 o teu mundo seja
perfeito.Tudo de bom.Um beijo do tamanho do mundo!

Afixado por: Joao em dezembro 31, 2004 02:54 PM

Ardente_Mente... um bom ano para ti também :)

Quanto à ideia do quarto: concordo com Rilke, se bem que nem sempre seja fácil encararmos as coisas dessa forma. E não é, precisamente, pelos motivos por ele referidos. Julgo que alargarmos esse espaço e vivermos mais amplamente a nossa existência com tudo, mas tudo o que isso implica, é uma questão de treino constante e aturado da nossa parte. Tem que ser. É preciso que seja. Para o nosso constante crescimento, amadurecimento e não estagnação como pessoas. A ter em conta: a superação das dificuldades e da dor/sofrimento com o seu próprio enfrentar. De peito aberto.

Afixado por: Sandra em dezembro 31, 2004 02:57 PM

João: concordo com o que dizes e desejo-te o mesmo para o ano novo que em breve se inicia.
Para ti, meu querido, também, um beijo do tamanho do mundo.

:)

Afixado por: Sandra em dezembro 31, 2004 03:00 PM

Inesgotável na tua demanda, que continues em 2005.
Cheers!

Afixado por: MJM em dezembro 31, 2004 05:47 PM

Amiga passei so para desejar um optimo ano cheio de coisas muito muito boas,e k todos os teus desejos se realizem tu mereces.Beijokas***

Afixado por: Monica em dezembro 31, 2004 06:04 PM

Maria João: obrigada pela visita e pelo comentário. Excelente 2005 para ti também :)***

Mónica: beijo grande, amiga. Desejo-te, também, tudo de melhor :)

Afixado por: Sandra em dezembro 31, 2004 06:20 PM