
(Fotografia de Philippe Pache)
Há uma coisa que me perturba desde sempre na tua argumentação,
isso é bastante claro na tua última carta, é um
erro indubitável que tu própria
podes verificar: se dizes (como realmente
é verdade) que amas tanto o teu marido que não o podes deixar (nem ao
menos por amor de mim,
isto é: seria para mim terrível se,
apesar disso, o fizesses), então acredito nisso
e dou-te razão. Quando dizes que na realidade tu o
poderias abandonar, mas que ele precisa de ti interiormente
e não pode viver sem ti, que
portanto por essa razão não o podes abandonar, então
também acredito em ti e também te dou razão.
Mas quando dizes que ele não é capaz de enfrentar a vida exteriormente
sem ti e que tu por essa razão (fazendo disto a razão principal)
por essa razão não o podes abandonar,
então, ou dizes isso para encobrires
os motivos referidos anteriormente (não para reforçares,
pois para reforçares não precisas
desses motivos) ou então é apenas uma dessas brincadeiras do cérebro (de que falas
na última carta) por entre as quais
o corpo e não somente o corpo se retorce.
(Franz Kafka- TRÊS CARTAS A MILENA JESENSKÁ)