dezembro 27, 2004

AS RECORDAÇÕES DOS HOMENS


(Fotografia de Marília Campos)

Nas recordações de qualquer homem há certas coisas que ele não revela a toda a gente, apenas aos amigos. Há outras que nem aos amigos ele revelará, apenas a si mesmo e só secretamente. E, finalmente, há outras que o homem até a si mesmo tem medo de revelar, e qualquer homem decente acumula bastantes recordações dessas. Ou seja, quanto mais decente for, tantas mais recordações dessas tem. Pelo menos, eu, pessoalmente, só há pouco ousei recordar certas aventuras do meu passado, a que até então me esquivara com uma espécie de inquietação. Ora, neste momento, quando não só estou a recordá-las mas ainda por cima me atrevo a anotá-las, queria experimentar: é possível, ou não, ser-se absolutamente sincero pelo menos consigo mesmo e não ter medo de toda a verdade? Uma observação: Heine afirma que as autobiografias sinceras são quase impossíveis e que, de certeza, qualquer homem mentirá ao falar de si mesmo. Na opinião dele, o Rousseau, por exemplo, caluniou-se a si mesmo nas suas confissões, e caluniou-se até intencionalmente, por vaidade. Estou convencido que Heine tem razão; compreendo muito bem como se pode, por vezes, só por vaidade, assacar a si próprio até alguns crimes, e eu percebo muito bem de que género pode ser essa vaidade. Heine, porém, estava a falar de um homem que se confessava, perante o público. Quanto a mim, escrevo só para a minha pessoa e declaro, de uma vez para sempre, que se escrevo como se estivesse a dirigir-me aos leitores, faço-o exclusivamente por fingimento, porque é mais fácil para mim escrever desta forma. É apenas uma forma, uma forma sem importância, nunca terei leitores. Já o declarei.


(Fiódor Dostoiévski- CADERNOS DO SUBTERRÂNEO)

Publicado por void em dezembro 27, 2004 02:40 PM
Comentários

Interessante o conteúdo deste texto de Dostoiévski. Realmente, Há esses três tipos de recordações de que o autpor fala! Nunca tinha pensado nisso, mas ele tem toda a razão! Um beijo.

Afixado por: Pink, the Lady em dezembro 27, 2004 07:40 PM

Eu já tinha pensado e já vivi/senti e creio que continuarei a sentir. Dostoiévski sistematizou. Gostei do confronto entre a minha interioridade e as palavras do autor. Permitiu-me, apesar de tudo, reforçar a consciência de mim, mas tb daquilo que somos como espécie.

Jokas :)

Afixado por: Sandra em dezembro 27, 2004 08:09 PM

Dsotoiévski,imprimiu muito bem a presunção humana, como que o seu próprio culto na esfinge em se refugia, prévia ou tardiamente.
com adimiração*

Afixado por: virgoskin em janeiro 16, 2005 12:51 PM