
(Fotografia de Philipe Pache)
Borgeby gàrd, Flãdie, Suécia
12 de Agosto de 1904
Quero de novo falar um pouco consigo, caro Sr. Kappus, embora quase nada possa fazer que o ajude, quase nada lhe será útil. Teve muitas e grandes tristezas, que passaram. E diz você que mesmo essa passagem foi difícil e o deixou inconsolável. Mas, por favor, pense se essas grandes tristezas não foram directamente para o centro de si próprio? Se muita coisa em si não se modificou, se algures em si próprio, nalgum ponto do seu ser, não se processou uma mudança enquanto se sentiu triste? Só são perigosas e más aquelas tristezas que nós carregamos entre as pessoas de forma a afogá-las; como a doença que é superficial e tolamente tratada, que apenas se retira e passado pouco tempo aparece de novo, mais violenta; e acumuladas dentro de nós não vida, não vivida, rejeitada, vida perdida, da qual podemos morrer. Fosse-nos possível ver para além do conhecimento, e um pouco além dos limites do nosso poder de adivinhar, talvez suportássemos as tristezas com maior confiança do que as alegrias. Pois são os momentos em que algo de novo entra em nós, algo desconhecido; os nossos sentimentos crescem mudos em tímida perplexidade, tudo em nós se retrai, a calma aparece, e o novo, que ninguém conhece, mantém-se ali no meio e é silêncio.
Acredito que quase todas as nossas tristezas são momentos de tensão que consideramos paralizantes porque deixamos de ouvir os sentimentos surpreendidos a viver. Porque nos encontramos sós com uma coisa estranha que entrou no nosso interior; porque tudo o que nos é íntimo e familiar nos foi tirado por instantes; porque ficamos no meio de uma transição onde não podemos permanecer. Por esta razão a tristeza também passa; a coisa nova dentro de nós, aquela que está a mais, entrou no nosso coração, entrou para a parte mais profunda e já lá não está - já está no nosso sangue. E não percebemos o que foi. (...) E por isso é tão importante ser solitário e alerta quando estamos tristes; porque o momento aparentemente calmo e silencioso em que o nosso futuro põe um pé dentro de nós está muito mais perto da vida, do que aquele outro ponto no tempo, barulhento e fortuito, que nos acontece como se fosse vindo de fora. Quanto mais quietos, mais pacientes e mais abertos nós formos quando estamos tristes, quanto mais profunda e inabalavelmente o novo entrar em nós, melhor o tomamos como nosso, tanto mais o tornaremos nosso destino, e quando num dia mais tarde acontecer, (...) sentiremos dentro de nós a afinidade e a proximidade.
(Rainer Maria Rilke- CARTAS A UM JOVEM POETA)
Um texto para reflectir e muito sobre os nossos mecanismos interiores de lidar com a tristeza. Tu tens essa característica de escolher sempre algo que nos dá que pensar. Um beijo.
Afixado por: lique em dezembro 27, 2004 04:44 PMRainer Maria Rilke. Sempre. Beijinho
Afixado por: Micas em dezembro 27, 2004 05:19 PMLique: obrigada pelas tuas palavras. Sim, uma grande preocupação minha é trazer aqui textos com (grande) significado e que nos permitam pensar. Pensar sobre várias realidades e nós nelas ou para pensarmos em nós "simplesmente", eventualmente, em contextos diferentes mas sempre consentâneos com a realidade (o Meio) que é tão complexa(o): com a (realidade vivida) que (nos) foi, é ou poderá ser. Com determinado tipo de integração que tivemos, temos ou poderemos ter no Meio. No fundo: nós em maior ou menor situação; nós em potencial situação ou em potencial evitar de situação/ões.
Enfim... gosto, se possível, de provocar angústias. Encaro isso como positivo, na medida em que pensarmo-nos evita ou é suposto evitar que estagnemos ou congelemos em nós.
Beijo para ti :)
Micas: eheheh... já te respondi no teu blog ;)
Afixado por: Sandra em dezembro 27, 2004 08:19 PM