Concluo hoje a edição de poemas de Maria Teresa Horta. Este último conjunto provém da obra "Só de amor", datada de 1999. Os poemas apresentados permitem perceber e sentir a intensidade da escrita da autora, onde o Erotismo surge de forma particularmente aberta, sem nada que o atenue e onde a Mulher é/está de forma completamente livre desejando, amando e sentindo. De não esquecer, também, a vertente da partilha de tudo isto com o Outro, um "eu" que completa um cenário (ou cenários determinados) numa posição de absoluto companheirismo, sem laivos de supermacia. E ambos desejam, estão e sentem.
Ora vejam, então:
CHAMAMENTO

Como podes tirar de mim
o chamamento
um minuto que seja
apagares a chama?
Por ti tiro tudo
e enrodilho
queimando tudo depois à cabeceira
Devagar convoco a tempestada aberta
e no meu peito
o coração tropeça
E não há nada que eu queira
imaginar
que entre nós depois
não aconteça
(SÓ DE AMOR, 1999)
O CORPO

É pêssego
Tangerina
E é limão
Tem sabor a damasco
e a alperce
Toma o gosto da canela
de manhã
e à noite a framboesa que se despe
De maça guarda o pecado
e a sedução
Do mel
o açúcar que reveste
Do licor
a febre que no seu rasgão
me invade me inunda e me apetece
Mergulho depressa a minha boca
e bebo a sede
que em mim já cresce
Delírio que me enche
de prazer
tomando o ponto num lume que humedece
Devagar mexo sem tino
as minhas mãos
Provando de ti
o que de ti viesse
O anis do esperma
o doce odor do pão
que o teu corpo espalha e enlouquece
(SÓ DE AMOR, 1999)
TURBAÇÃO

Não podendo suster
tanto apetite
tanta vontade de te morder
a boca
se estás longe procuro
outra maneira
de te tocar e toda a pressa é pouca
Desço os pulsos e afasto
os meus joelhos
Subo os dedos
e toco a minha folha
Entreabro os lábios
e não querendo é já
uma rosa doce
que a minha mão desfolha
(SÓ DE AMOR, 1999)
DELÍRIO

É o meu mel
que eu cheiro na tua boca
É no teu pénis
que eu bebo a sede toda
Nos meus lábios abertos
que me vencem
eu nado devagar sem ter vergonha
É a lagoa - eu digo
de veludo
É o grito - eu sei
na raiva solta
É a proa do prazer
sobre o lençol
onde mais tarde vai rebentar a onda
Secreto é o ruído
dos corpos
no combate
Os elmos já depostos pelo chão
caídas as viseiras e as máscaras
o vestido misturado à armação
São fulvos os cavalos
com as patas cor do pó
tropeçando na paz adormecida
Eu levo a bandeira
do orgasmo
E "para tão grande amor é curta a vida"
(SÓ DE AMOR, 1999)
INCÊNDIO

Tu acendes a chama
do meu corpo
pões a lenha ao fundo
em sítio seco
Procuras no desejo
o ponto certo
e convocas aí
o lume aberto
Se a madeira demora
a ganhar fogo
tomas-me as pernas
e deitas lento o vinho
Riscas os fósforos todos
e depois
é mais um incêndio
que adivinho
(SÓ DE AMOR, 1999)
(Fotografias de Bryce Lankard)
Esperando que tenham gostado da selecção, despeço-me com mais uma saudação a Maria Teresa Horta. De facto a sua poesia é fantástica e... inequivocamente libertadora.
Só a autora é já uma boa selecção.
Os poemas e as fotos estão bem escolhidos como amostra de erotismo no feminino que poderiam também ser aplicados no masculino.
Há dias li no qualquer blogue uma pergunta "o que é o erotismo" teríamos na obra de Teresa Horta um bom ponto de partida.
Parabéns às autoras do VOID.
Sandra, dou-te os meus mais sinceros Parabêns, pela selecção de Poemas escolhidos. As fotografias excelentes e em perfeita sintonia com os poemas. Numa palavra, magnífico. Obrigada pelos excelentes momentos de prazer que nos proporcionaste. Beijinho grande.
Afixado por: Micas em dezembro 26, 2004 03:40 PMLibertadora e autora de uma força imensa, erotismo e poesia muito bela. A tua selecção foi óptima e as fotos, como sempre, perfeitamente enquadradas no tema dos poemas. Desconhecia esta última obra da autora ... por isso vou roubar-te um ou dois poemas lá pró Shrine. Posso? Beijinho.
Afixado por: Pink, the Lady em dezembro 27, 2004 01:09 AMDe Mª Teresa Horta recordo o seu "Morrer de Amor" in Destino. Cito: Morrer de amor/ao pé da tua boca/Desfalecer/à pele/do sorriso/Sufocar/ de prazer/com o teu corpo/ Trocar tudo por ti/ Se for preciso. Fim de citação.A mensagem do poema é fácil, cheia de erotismo e paixão, digna da verdadeira POESIA: simplicidade = beleza. Beijinho Sandra...
Afixado por: Miguel em dezembro 28, 2004 06:34 PM