E eis mais quatro poemas de Maria Teresa Horta. Situam-se estes, em termos de tempo de produção e edição, entre os anos de 1971 e 1975.
São os seguintes:
POEMA AO DESEJO

Empurra a tua espada
no meu ventre
enterra-a devagar até ao cimo
que eu sinta de ti a queimadura
e a tua mordedura nos meus rins
deixa depois que a tua boca
desça
e me contorne as pernas de doçura
Ó meu amor a tua língua
prende
aquilo que desprende de loucura
(MINHA SENHORA DE MIM, 1971)
POEMA SOBRE O ENREDO

Enredada estou de mim
nesta febre em que me vejo
já que enredada de ti
não se cura o meu desejo
que nem me pus de curar
este fogo do teu corpo
nem me pus de enganar
esta sede que provoco
pois logo desenredada
eu sei que me enredaria
neste vício de enredar
o meu espasmo em teu orgasmo
por sua vez enredados na branda rede dos dias
(MINHA SENHORA DE MIM, 1971)
AS NOSSAS MADRUGADAS

Desperta-me de noite
o teu desejo
na vaga dos teus dedos
com que vergas
o sono em que me deito
pois suspeitas
que com ele me visto e me
defendo
É raiva
então ciúme
a tua boca
é dor e não
queixume
a tua espada
é rede a tua língua
em sua teia
é vício as palavras
com que falas
E tomas-me de força
não o sendo
e deixo que o meu ventre
se trespasse
E queres-me de amor
e dás-me o tempo
a trégua
a entrega
e o disfarce
E lembras os meus ombros
docemente
na dobra do lençol que desfazes
na pressa de teres o que só sentes
e possuíres de mim o que não sabes
Despertas-me de noite
com o teu corpo
tiras-me do sono
onde resvalo
e eu pouco a pouco
vou repelindo a noite
e tu dentro de mim
vais descobrindo vales
(MINHA SENHORA DE MIM, 1971)
O CORPO

Digo do corpo
o corpo:
e do meu corpo
digo no corpo
o sítio e os lugares
de feltro os seios
de lâminas os dentes
de seda as coxas
o dorso em seus vagares
Lazeres do corpo:
os ombros
as lisuras - o colo alto
a boca retomada
no fim das pernas
a porta da ternura
dentro dos lábios
o fim da madrugada
Digo do corpo
o corpo:
e do teu corpo
as ancas breves
ao gosto dos abraços
os olhos fundos
e as mãos ardentes
com que me prendes
em súbitos cansaços
Vício de um corpo:
o teu
com o seu veneno
que bebo e sugo
até ao mais amargo
ao mais cruel grau do esgotamento
e onde em silêncio
nado
em cada espasmo
Digo do corpo
o corpo:
o nosso corpo
Digo do corpo
o gozo
do que faço
Digo do corpo
o uso
dos meus dias
e a alegria
do corpo sem disfarce
(EDUCAÇÃO SENTIMENTAL, 1975)
(Fotografias de Philippe Pache)
Um outro conjunto de poemas já amanhã, Quinta-feira. Espero que estejam a gostar :)
Publicado por void em dezembro 22, 2004 06:47 AM{ ...
[[vir*].amar-te]
neste vir* desnudado |
só por ti achado |
empoo **, polvilhar querido |
só por ti sentido |
ensejo, desejo moldado |
só em ti reflectido |
neste orgasmo* molhado |
só por ti desmedido |
achado
[]
*declínio da tensão;
** cobrir de pó; polvilhar
© biquinha ... }{ beijos* }
E continuam oa posts dedicados a M.ª Teresa Hora. Gostei imenso destes poemas, também; mas em especial o primeiro. Uma palavra igualmente para as fotos que são muito bem escolhidas! Um beijo.
Afixado por: Pink, the Lady em dezembro 23, 2004 10:46 PM