dezembro 21, 2004

DO POSICIONAMENTO DA MULHER NO CASAMENTO (E DO CASAMENTO EM SI)


(Fotografia de José Marafona)

- Em que aspecto é que a educação é um mal? - Perguntou a senhora, com um sorriso quase imperceptível nos lábios. - Não podemos concordar, com certeza, com o tipo de casamento de outrora, em que a noiva e o noivo só se conheciam antes do casamento? (...)
Eles não sabiam se gostavam um do outro, se poderiam vir a gostar um do outro, casavam sem saber com quem, sendo infelizes o resto das suas vidas. E, na sua opinião, acha que isso era melhor? (...)
- Hoje em dia as pessoas estão muito mal esclarecidas, - repetiu o comerciante, olhando a senhora desdenhosamente, sem lhe responder à pergunta.
- Gostaria de saber como explica a ligação entre a educação e discórdia no casamento, - exclamou o advogado, sorrindo de modo imperceptível. O comerciante ia começar a falar quando a senhora o interrompeu, dizendo:
- Não, esses tempos já estão completamente ultrapassados.
O advogado, contudo, olhando-a exclamou: - Deixe-o explicar o ponto de vista dele!
- A insensatez provém da educação, - gritou o comerciante de modo dogmático.
- Unem em matrimónio pessoas que não se amam e depois admiram-se que esses casais vivam infelizes, - exclamou a senhora precipitadamente, virando-se para o advogado, para mim, e até mesmo para o caixeiro viajante (...).
- Só os animais é que podem ser tratados assim, - continuou com o intuito de espicaçar o comerciante - o dono emparelha-os e acasala-os da maneira que acha mais adequada. Só que os homens e as mulheres criam os seus próprios laços e têm as suas inclinações naturais.
- A senhora não deve dizer isso, - retorquiu o comerciante. - Um animal é um ser irracional, enquanto o homem tem leis.
- Sim, mas como espera conseguir viver com alguém, se não nutre qualquer espécie de amor por essa pessoa? - Gritou a senhora abruptamente, expressando assim os seus sentimentos que tinha como genuínos.
- Antigamente não se pensava nessas coisas, - afirmou o comerciante com ar solene e autoritário. - Esses costumes só agora é que entraram em voga (...). A coisa mais importante que a mulher deve aprender é a ter medo.
(...)
- Mas a que espécie de medo se refere?- Perguntou a senhora.
- Aquele que está representado nas palavras: " E ela temerá o senhor seu marido". É a esse medo que me refiro.
- Esses dias fazem parte de um passado longínquo, meu caro senhor, - exclamou a senhora com um tom de voz amargo.
- Não, minha senhora, esses dias não podem ser esquecidos. Tal como Eva foi criada a partir da costela do homem, assim permanecerá para todo o sempre.
(...)
- Sim, é assim que vocês, homens, resolvem tão facilmente essa questão,- exclamou a senhora, não se rendendo e desviando olhar noutra direcção.- Vocês têm toda a independência e querem que nós, as mulheres, fiquemos presas "a sete chaves". Mas, no entanto, tenho a certeza de que se permitem ter todo o tipo de liberdades.
- Ninguém tem que nos conceder seja o que for; sabe, um homem não traz qualquer infortúnio ao lar pela sua má conduta fora de casa. Mas uma mulher, uma esposa, é um ser muito frágil.
A ênfase e a gravidade conferidos ao discurso pelo comerciante provocaram um efeito deveras persuasivo nos seus ouvintes. Até a senhora estava consciente da derrota; contudo, recusava-se a desistir.
- Sim, mas penso que todos admitem que uma mulher é um ser humano, dotado de sentimentos, tal como um homem. Então, o que deve fazer se não amar o marido?
- Se não amar o marido? - repetiu o comerciante com voz zangada, movendo simultaneamente as sobrancelhas e os lábios. - Ora, não receie, ela acabará po aprender a amá-lo. (...)
- Oh!, só que ela não aprenderá a amá-lo, - afirmou a senhora. - E se não existir amor, não será a força que o fará nascer.


(Leon Tolstoi- ENSAIO SOBRE O CIÚME, 1891)

Publicado por void em dezembro 21, 2004 06:43 AM
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