dezembro 20, 2004

O AMOR E O EROTISMO NO FEMININO: MARIA TERESA HORTA (1)

Inicio com este post aquela que será a apresentação ao longo desta semana de poemas de amor e de carácter erótico de Maria Teresa Horta. Na passada Sexta-feira editei, da autora "Ponto de Honra", também, com o objectivo de preparar este destaque.
A edição é/será feita atendendo a uma ordem cronológica de escrita e publicação verificadas, permitindo esta acompanhar a evolução das produções ao longo de dois períodos muito particulares: em Ditadura e após o 25 de Abril, naquilo que isso significa de posicionamento e afirmação amoroso-erótico(a) da Mulher e na forma como o Amor é vivido a dois no âmbito de uma partilha e envolvência plena e em igualdade.
Sendo que a poesia de Maria Teresa Horta tem sempre uma mensagem muito mais global do que aquela que à partida se pode vislumbrar pelo que parece de mais imediato, julgo valer a pena deixar-vos um conjunto razoável de poemas para que a mesma consiga ser melhor e mais consolidadamente entendida.

E o que vos deixo hoje é:

INVOCAÇÃO AO AMOR

Pedir-te a sensação
a água
o travo

aquele odor antigo
de uma parede
branca

Pedir-te da vertigem
a certeza
que tens nos olhos quando
me desejas

Pedir-te
sobre a mão
a boca inchada
um rasto de saliva
na garganta

pedir-te que me dispas
e me deites
de borco e os meus seios
na tua cara

Pedir-te que me olhes e me aceites
me percorras
me invadas
me pressintas

Pedir-te que me peças
que te queira
no separar das horas
sobre a língua

Meu ciúme
meu perfil
minha fome

meu sossego
minha paz
minha aventura

Meu sabor
minha avidez
saciedade

minha noite
minha angústia
meu costume

(VERÃO COINCIDENTE, 1962)


SAUDADE

Saudade já saudade
antes saudade
amor de te não ver
porque pressinto

se sinto que te ter
é não saber
distância já agora
e que não minto

Amor de que me calo
e te não digo

amor já saudade
já instinto

(AMOR HABITADO, 1963)


TU

Com esse teu ar
de arcanjo negro

pálido e magro
triste e alheado

ficas por vezes quase etéreo
calado
enquanto eu te olho docemente

Num espanto condenado
quase místico
debruço-me secratamente à tua beira

e numa espécie de prece
porque existes

alheado- magro
belo e triste

estou de joelhos
meu amor
e beijo-te

(CANDELABRO, 1964)


MEMÓRIA

Retenho com os meus
dentes
a tua boca entreaberta

e as palmas das mãos
dormentes
resvalam brandas e certas

As tuas mãos no meu peito

e ao longo
das minhas pernas

(CANDELABRO, 1964)


NOITE

De noite só quero vestido
o tecido dos teus dedos
e sobre os ombros a franja
do final dos cabelos

Sobre os seios quero
a marca
do sinal dos teus dentes

e a vergasta dos teus
lábios
a doer-me sobre o ventre

Nas pernas e no pescoço
quero a pressão mais
ardente

e da saliva o chicote
da tua língua dormente

(CANDELABRO, 1964)


(Fotografias de Philippe Pache)

O próximo conjunto de poemas será editado na Quarta-feira. Até lá!

Publicado por void em dezembro 20, 2004 06:53 AM
Comentários

Excelente ideia a tua Sandra. Li tudo, mas logo voltarei com calma para voltar a [re]ler. As fotos são magnificas.
Agradeço os votos de Boas Festas e retribuo. (vou estar fora, mas tentarei cá vir sempre que possivel).
Mil beijinhos e boa semana**

Afixado por: Micas em dezembro 20, 2004 07:36 AM

Gostei particularmente do poema "TU"...

Afixado por: Distante em dezembro 20, 2004 08:23 AM

...eu continuo a invejar-te o Blog, não uma inveja maligna e saturada, mas uma inveja sadia de chorar por cada letra e amar cada imagem.
Uma vez sonhei que a Maria Teresa Horta casava com o Frederico Garcia Lorca...um sonho tão absurdo, tão louco, quanto belo!

Afixado por: Paula em dezembro 20, 2004 12:15 PM

Micas: também acho que esta minha ideia foi boa ;)
A sério: julgo que a Maria Teresa Horta merece um grande destaque. E se não formos nós, mulheres, a dá-lo, quem mais por alta recriação?

Um grande beijo para ti e... até + logo :)


Distante: sim, esse é um bom poema.

Beijinho :)


Paula: compreendo o que dizes sobre o blog. Eheh... nunca pensei que fosse de forma diferente. Quanto ao teu sonho: bom, pelo menos cultural foi ;) Interessante! Realmente o nosso inconsciente é fantástico. Consegue coisas absolutamente surreais (passo a redundância que existe).

Jokas :)


Afixado por: Sandra em dezembro 20, 2004 01:58 PM

Querida Sandra, digo-te, muito sinceramente... ficou difícil afirmar qual dos poemas me tocou mais forte nas profundezas do meu âmago feminino... é que... todos eles são absolutamente tocantes, soberbos, profundos. São de uma subtileza quase cortante mas que corta vagarosamente no sítio certo. Adorei mesmo muito! As imagens... gostei, sobretudo da última; a última está... fantástica!!! :) Beijos enormes e com saudade :**** adoro-te mto, mto :*

Afixado por: alexandra em dezembro 20, 2004 02:22 PM

Sandra
Li do princípio ao fim, mas levou quase meia hora... Terei de voltar para reler com mais calma.
Gostei de tudo, mas uns mais que outros.
Beijinhos.

Afixado por: Nilson em dezembro 20, 2004 06:14 PM

Alex: eu sabia que ias gostar, precisamente por saber que te iam tocar fundo. Eu sabia :) E vais ver: os que se seguem são igualmente bons. Sei que vais estar aqui para os apreciar :)

Também te adoro muito, muito :)****


Nilson: tanto tempo assim?!! Sim, é importante haver concentração... ok... cada um tem as suas necessidades. Volta sim e delicia-te. Espero! E Quarta-feira está cá de novo. Mais poemas da autora serão editados.

Beijinho :)

Afixado por: Sandra em dezembro 20, 2004 09:44 PM

QUe maravilha este "banho" de poesia de MAria Teresa Horta. Estes poemas parecem-me em crescendo e o último está cheio de imagens ardentes e erótica belíssimas. Um beijo.

Afixado por: Pink, the Lady em dezembro 23, 2004 10:39 PM